Demanda chinesa por carne suína impacta mercado

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Apenas em maio deste ano, as exportações brasileiras de carne suína (considerando todos os produtos, entre in natura e processados) totalizaram 67,2 mil toneladas, de acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).  O volume é 41% superior ao verificado no mesmo período do ano passado, quando foram exportadas 47,7 mil toneladas. No acumulado do ano (janeiro a maio), as exportações de carne suína chegaram a 282,9 mil toneladas, volume 16,3% superior ao obtido no mesmo período do ano passado, com 243,3 mil toneladas.

A China disparou entre os destinos das exportações brasileiras.  Com 31,9% dos embarques, importou 21,1 mil toneladas em maio, volume 51% maior em comparação com o mesmo período do ano passado. “A questão sanitária vivida pela China dá sinais mais fortes no ritmo de importações.  A fatia da participação chinesa nas exportações brasileiras é a maior já registrada”, explica Francisco Turra, presidente da ABPA.

Em relatório, o banco holandês Rabobank destaca que as perdas no rebanho de suínos da China devido à peste suína africana deverão resultar em um déficit de carne de porco no mercado chinês de 16 milhões de toneladas até o fim deste ano. Para o Rabobank, a situação é tão grave que os chineses estão buscando outras proteínas alternativas, devendo aumentar as importações de carnes de frango e bovina.

O impacto no mercado mundial de carne suína ainda deve aumentar pela importância da China no setor. O país asiático tem o maior rebanho de suínos do mundo (430 milhões de cabeças, mais da metade do total do planeta), a maior produção de carne (54 milhões de toneladas em 2018, mais que a soma dos outros nove maiores produtores do mundo) e o maior consumo (55 milhões de toneladas de carne suína, quase 20 vezes a demanda do Brasil).

Outro mercado impactado por focos de peste suína africana, o Vietnã, que importou apenas 26 toneladas em maio de 2018, elevou seus pedidos em quase 7000%, totalizando 1,82 mil toneladas em maio.

O Chile também se destacou entre os importadores.  O país sul-americano praticamente dobrou suas importações (+99%) de carne suína do Brasil, chegando a 4,1 mil toneladas no quinto mês deste ano.

Ricardo Santin, Diretor-Executivo da

Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA, destaca ainda que os embarques estão acelerados para outros países, como Hong Kong (+1%), Angola (+75%) e Uruguai (+68%). “Com esse saldo acumulado de janeiro a maio com forte alta, teremos um fechamento de semestre com previsão positiva para os embarques de carne suína”, reforça ele.

Segundo o Centro de Estudos de Pesquisa Econômica Aplicada (Cepea), ligado à Esalq/USP, os abates não têm acompanhado o ritmo das exportações. Diante disso, as cotações do suíno vivo e da carne estão em alta em todas as regiões acompanhadas pelo Cepea.

Conforme colaboradores do Cepea, a atratividade das vendas externas tem, inclusive, levado os frigoríficos que comumente atendem ao mercado doméstico a redirecionar a produção ao front externo – no caso de unidades que têm habilitação para exportar.

Suínos – Foto Embrapa

Em giro recente pela Ásia, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, percebeu que o potencial para o Brasil fornecer proteína para a China e outros países é enorme. Segundo a ministra, outros países asiáticos estão passando pelo mesmo problema. No entanto, a dimensão ainda não está clara, porque muitos governos locais ainda não divulgaram a gravidade da situação.

A peste suína africana
Identificada pela siga PSA, a peste suína africana é uma doença altamente contagiosa e que não tem cura nem tratamento. Ela acomete suínos e javalis, mas não causa efeitos em humanos. O vírus da PSA foi identificado pela primeira vez na África, no início do século 20, e se estima que chegou à Europa em 1957 por meio de restos de alimentos servidos em aviões contendo produtos derivados de suínos contaminados com PSA.

No Brasil, o vírus foi identificado em 1978 em suínos criados para subsistência no interior do Rio de Janeiro. A PSA foi erradicada e o Brasil é considerado livre da doença desde 1984. Ela causa hematomas e leva o animal à morte em poucas semanas e é de fácil transmissão entre os suínos.

Doença de notificação obrigatória aos órgãos oficiais nacionais e internacionais de controle de saúde animal, a PSA tem potencial para rápida disseminação e drásticas consequências socioeconômicas.

No caso da China, uma das dificuldades em conter a transmissão é porque a maior parte dos animais é criada em propriedades de pequeno porte e familiar, sendo, em geral, alimentados com restos de comida. O vírus da PSA permanece na carne e em embutidos à base de porco, que também são servidos aos animais, realimentando assim o ciclo de infestação.

Uma vacina já está em desenvolvimento pelo USDA, órgão da agricultura do governo norte-americano. Mas, enquanto ela não é aprovada e comercializada, em casos de surtos da doença o abate sanitário dos animais e a destinação adequada das carcaças são obrigatórios