Carne bovina, um mercado em ajustes

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O ano de 2019 terminou diferente para o setor da pecuária brasileira, com a carne bovina sendo valorizada como há anos o mercado não registrava. Alguns cortes, como maminha, tiveram alta de 80% no varejo, deixando o consumidor preocupado. Na ponta inversa, contudo, no campo, os pecuaristas conseguiram finalizar 2019 com lucro e podem, agora, planejar melhor o seu negócio.

E 2020, pelo jeito, segue no mesmo ritmo, mas com alguns ajustes. A grande valorização da carne no ano passado teve como causa a demanda da China, que responde sozinha por 24% das exportações brasileiras.

De acordo com a Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), os chineses respondem por 24,5% do total exportado pelo Brasil. Com os dados de janeiro de 2020 já consolidados, é possível verificar que o movimento de alta continua: o país asiático adquiriu 53 mil toneladas do produto, uma alta de 126% quando comparado ao mesmo mês do ano anterior.

Para o coordenador da câmara setorial de pecuária de corte da Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Estado (Seapdr), Gilson Hoffmann, o produtor esperava há um bom tempo pela valorização da carne. “Acredito que, além da demanda chinesa por proteína, também a exportação de animais vivos contribuiu para elevar os preços”, explica.

Hoffmann acredita que, colocando na balança exportações e mercado interno, o preço da carne bovina deve se equilibrar em 2020, mas não irá cair a patamares anteriores a setembro de 2019. Naquele mês, a arroba do boi custava R$ 155,00, em uma média nacional. Dois meses depois, em novembro, já estava em R$ 212,00 e, em dezembro, alcançou a máxima histórica de R$ 220,00.

Os Chineses respondem por 24,5% do total da carne exportada pelo Brasil

Em 2020, o mercado de carnes do Brasil começou o ano com as notícias do surto de coronavírus na China. Ainda é cedo para perceber os impactos nas exportações brasileiras do setor, mas a arroba entrou fevereiro custando cerca de R$ 170,00. “Ano passado também tínhamos uma grande diferença entre os insumos usados na pecuária e o preço estava estagnado. O mercado agora está se ajustando”, avalia Hoffmann.

Segundo o Ministério da Agricultura, a redução no consumo interno no início de 2020, em parte, é a causa por trás da queda no preço da arroba. É só verificar os dados do varejo: conforme levantamento do IBGE, de uma alta de 17,71% no preço da carne em dezembro de 2019, a variação caiu para 4,83% em janeiro, puxando a inflação para baixo.

O valor de cortes traseiros, que têm cotações mais altas e mais sensíveis à variação do mercado, registrou forte queda, como a alcatra. Enquanto em dezembro esse corte teve uma variação de 21,26%, em janeiro de 2020 registrou 4,49%, também segundo o IBGE.

Em nota, o ministério informa que outros fatores contribuíram para pressionar o preço para baixo. O início do ano costuma registrar uma tendência de menor consumo de carne bovina, em virtude das férias e também porque houve uma mudança de hábito do consumidor, que migrou para a compra de outros tipos carnes, como frango e peixes, com valores mais em conta quando comparados à carne bovina.

Simone Bianchini – Presidente da ABCD

Simone Bianchini, presidente da Associação Brasileira de Criadores Devon (ABCD), diz que, até meados do ano passado, a carne brasileira era a mais barata do mundo. Era uma conta que não tinha como dar errado para o país: preço baixo e animais com raças europeias, tudo isso deixou a proteína brasileira mais competitiva junto aos chineses. “A exportação cresceu, mas serviu também para ajudar um produtor que estava massacrado pelos custos e baixo preço. Ele foi compensado nos últimos meses”, pondera.

Simone acredita que os preços da carne bovina seguirão no patamar atual em 2020. O consumo passa por um momento de readequação das famílias, que ainda têm um poder de compra reduzido devido à crise, mas que não abrem mão da carne nas refeições. “Veja, com um quilo de carne moída a R$ 10,00 você alimenta uma família de quatro pessoas. Esse cálculo que deve ser feito”, destaca a presidente da ABCD.

Ela alerta ainda que o mercado internacional costuma mudar rapidamente. “Se você subir muito o preço, o chinês procura outro fornecedor. Devemos cativar esse cliente, uma vez que as perspectivas são de que a China irá continuar adquirindo muita carne bovina ainda pelos próximos três anos”, avisa Simone.

Gilson Hoffmann – Coordenador da Câmara Setorial de pecuária de corte Seapdr

Hoffmann, coordenador da câmara de pecuária, destaca também que é hora dos pecuaristas investirem no próprio negócio. “Muitos não conseguiam nem fazer a manutenção da propriedade simplesmente porque a remuneração empatava com os custos de produção e não sobrava capital”, lamenta.

Hoffmann concorda que, no varejo, o preço elevado da carne bovina causou um certo sobressalto no consumidor, mas também esta questão achou um ponto de equilíbrio. “Cerca de 80% da nossa carne fica no mercado interno, então sabemos dessa preocupação. Mas é interessante notar que o consumidor, na maior parte das vezes, não deixa de consumir. Ele troca um corte nobre por outro mais em conta, assim vai ajustando o custo ao seu orçamento”, conta.

Passado um início de ano mais tímido no consumo, devido a gastos como IPTU e IPVA, analistas acreditam que, no decorrer de 2020, a economia brasileira deva trabalhar mais aquecida, uma vez que o país tem juros mais baixos e desde que a reforma tributária seja debatida no Congresso e aprovada. Essa mudança é importante para manter um ambiente positivo de investimento, melhorando o emprego e a tomada de crédito pelos consumidores.

O movimento já parece surtir efeito: o aumento da massa real de rendimento dos trabalhadores e a maior oferta de crédito explicam a disposição do brasileiro para gastar neste início de 2020, de acordo com Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.

Cerca de 80 da nossa carne fica no mercado interno, por isso há a preocupação por parte dos criadores quanto ao preço elevado na ponta para o consumidor

A massa real de rendimento dos trabalhadores brasileiros subiu cerca de 2,5% no ano passado e a oferta de crédito, 11%, de acordo com ele. “O desemprego continua alto (12 milhões de pessoas, aproximadamente), mas outras 93 milhões de pessoas estão ocupadas”, completa Silveira.

Pecuária brasileira mantém competitividade
As exportações brasileiras de carne bovina in natura foram recordes em 2019, o que, atrelado ao dólar elevado, resultou em um faturamento também recorde.

Segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), o ano passado registrou alta de 13% no volume comercializado e de 16% na receita. As exportações somaram 1,856 milhão de toneladas de carne, com receita de US$ 7,5 bilhões na receita. O recorde anterior foi registrado em 2014 (com receita de US$ 7,2 bilhões e 1,56 milhão de toneladas).

Para 2020, conforme a Abrafrigo, é esperada uma nova alta de 10%. A China está mantendo um patamar elevado de importações, e há um componente a mais: as queimadas que atingem a Austrália, um dos maiores players do setor no mundo, impactaram a produção de carne daquele país e o Brasil pode ocupar mercados deixados pelos australianos.

De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Universidade de São Paulo, a pecuária de corte brasileira se destaca no comparativo mundial, apresentando um dos menores custos para produzir um quilograma de carne.

Quando considerados os custos de produção de um bezerro, os países mais competitivos nesse sistema de cria são: Ucrânia, Argentina, Uruguai, Brasil, Colômbia, Paraguai, Austrália e África do Sul. É importante notar que a maioria dos países com custo baixo está na América do Sul, região que tem como característica o sistema de criação a pasto.

No caso da Ucrânia, ela tem custos menores na produção de bezerro devido à alta qualidade do solo no país, que favorece a produtividade. Do outro lado, as fazendas com os maiores custos de produção de bezerro estão localizadas especialmente na Europa, o que está por trás da política de subsídios utilizada no continente.

Para o Brasil, segundo o Cepea, muitos pecuaristas já buscam aumentar a produtividade – que, vale lembrar, está muito aquém do potencial. Como exemplo, os Estados Unidos detêm rebanho de 89 milhões de cabeças e a produtividade média é cerca de 133 quilos de carne por animal (mesmo que a um custo de US$ 356,00 a US$ 407,00 por 100 kg).

Já o Brasil soma rebanho de mais de 200 milhões de cabeças, com produtividade de 45 kg/animal/ano, mas a custos bem menores, que rondam US$ 200 a cada 100 kg. O potencial de crescimento da atividade no Brasil é uma alternativa para suavizar os custos e continuar sendo um importante player no mercado internacional.

Atualmente, o Brasil, sozinho, é responsável por cerca de 15% da produção mundial da proteína. Somando aos Estados Unidos e à China, os três países ficam com 46% da produção mundial de carne bovina.

Os Estados Unidos são líderes em produção e grandes exportadores, mas também são grandes importadores. Já a China, apesar de ser um grande produtor, enfrenta restrição de área da produção, além de problemas sanitários – como os persistentes casos de Peste Suína Africana (PSA) – que forçam o país a buscar alternativas para compra.

Outros tradicionais países produtores de carne têm desafios relacionados à restrição de área (como Uruguai e Paraguai), a fatores políticos (como a Argentina), a alto custo de alimentação (caso de países europeus e Canadá) e a problemas climáticos (Austrália).

O Cepea ressalta que a Índia, que, apesar de possuir um grande rebanho, enfrenta dificuldades em termos sanitários e produtividade, além da questão religiosa.