Carlos Joel da Silva: A agricultura familiar já produz com a mesma qualidade e produtividade dos grandes produtores rurais

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Carlos Joel da Silva

Natural de Cachoeira do Sul, Carlos Joel da Silva é o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), entidade que luta por melhores políticas públicas, mais renda e qualidade de vida para a agricultura familiar, segmento responsável por boa parte do que produz o campo. A FETAG-RS reúne 348 sindicatos de trabalhadores filiados, representando 380 mil famílias que trabalham na agricultura. Tanta gente merece mais espaço: está nos planos a ampliação da estrutura física da entidade em Porto Alegre, com um centro de formação com foco na agricultura familiar. Na entrevista, este colorado que não abre mão de um chimarrão enquanto bate-papo, fala dos planos da FETAG-RS, do que precisa ser feito para alavancar a renda do trabalhador do campo, de política e explica por que o estande da agricultura familiar na Expointer é o ponto mais visitado da feira.

O que avançou a agricultura familiar em termos de inovação e produtividade na última década?
Nestes dez anos, a agricultura familiar ganhou a identidade que ela merece, até então, inexistente. A definição era de uma agricultura familiar atrasada. Hoje, aqui no Sul, a produção do pequeno agricultor concorre de igual para igual com a da patronal. Temos disponível tecnologia tanto em maquinário da propriedade quanto no plantio, no manejo. A pesquisa e a tecnologia para a agricultura familiar realmente avançaram muito.

E quais são os entraves ainda?
Um dos maiores é fazer a pesquisa chegar no campo. A assistência técnica precisa melhorar bastante. Temos uma assistência técnica ainda mais focada na venda de produtos do que em levar as novas tecnologias para o agricultor. Essa tecnologia, hoje, chega lá no campo via empresas, que têm o intuito de vender apenas o produto. Um exemplo: tem uma tecnologia para desenvolver a soja e apenas isso. Ela não vai levar a tecnologia para desenvolver a propriedade como um todo. Essa é a grande falha hoje na nossa assistência rural: a falta de um olhar global para a propriedade.

O que seria esse foco mais amplo?
O agricultor familiar não está centrado em uma cultura, pelo contrário, ele tem duas ou três atividades ao mesmo tempo naquela terra. Então, a falta desse olhar ampliado ainda atrapalha. No nosso entender, a agricultura familiar é diferente da patronal, que busca produzir e vender, enquanto o pequeno produtor vive e depende daquela terra. Queremos essa assistência técnica sistêmica na propriedade, que converse com a família e explique: aqui podemos aumentar a produtividade, lá podemos plantar outra coisa.

Mas, também há pequenos produtores virando empresários, não? Querendo comprar mais terras…
O agricultor sempre quer crescer, mas este espaço hoje não há. Primeiro lugar, a agricultura familiar não tem dinheiro para comprar terra. Você tem financiamento para tudo nos bancos, pode até comprar uma máquina de R$ 1 milhão financiada, mas não tem recursos para compra de terras. Tem o crédito fundiário, mas está devagar, quase parando e tem um limite de R$ 60 mil. O que se compra de terra com esse valor? Nada. Isso acaba por concentrar nas mãos de poucos. Um exemplo prático, que ocorre muito no Rio Grande do Sul: morreu o pai e deixou três filhos. Um está na propriedade e os outros dois estão na cidade. Sem o pai, eles dividem a terra em três partes. Os que moram na cidade querem vender sua parte porque não é daquilo que eles vivem, mas o filho que ficou lá não tem dinheiro para comprar a parte dos irmãos. O que acontece? Um médio ou grande produtor, vizinho, adquire aquela área. Isso concentra mais um pouco.

Por isso a sucessão rural é uma questão urgente
Esta é a maior preocupação hoje no meio rural, a sucessão. As pessoas não ficam lá na propriedade, vendem, e aí fecha tudo. Por que tem escola, posto de saúde, CTG, comunidades por perto. Clubes deixam de existir. E isso vira um problema social também lá no meio urbano. Mais gente buscando emprego na cidade. Enquanto isso, o campo deixa de produzir e perde mão-de-obra.

Qual o tamanho médio das propriedades da agricultura familiar?
No Rio Grande do Sul falamos em 16 hectares, não chega a um módulo rural.

O censo do IBGE em andamento deve retratar essa questão fundiária e atualizar os dados da agricultura familiar
Sim. Temos muita dificuldade em obter dados – muita coisa nós “chutamos” – porque o último censo ocorreu em 2006. Faz dez anos que nada é atualizado. Agora teremos um levantamento que vai nos nortear melhor. Creio que teremos muitas alterações, como as pessoas que moram no meio rural e trabalham nas cidades. Isso, com certeza, aumentou. Se você olhar para região dos Vales, tem muito disso, a chamada multifunção. Até porque são próximos campo e cidade. Tem muita chácara de lazer, mas também muito agricultor criando seu bichinho ou cultivando uma horta lá.

O trabalho cooperativo não é uma boa alternativa para a agricultura familiar?
Seria. Junto com uma assistência técnica de qualidade, o cooperativismo hoje é o que pode manter a agricultura familiar produzindo no campo. O caminho passa por aí, tanto para baixar custo para produzir quanto para vender depois. Mas faço uma crítica às nossas cooperativas. Elas pregam a cooperação para os agricultores, mas não estão cooperando entre si, ou fazem muito pouco disso. Se você olhar o leite. De novo, vamos para a região dos Vales. Tem duas ou três cooperativas disputando o mesmo produtor. Levam um técnico para fazer a assistência, depois enviam um caminhão com ração, depois outro coletando o leite…podiam fazer tudo isso de modo cooperativado, entre elas, baixando o custo para o produtor.

Muitas famílias deixaram de entregar leite para as indústrias nos últimos anos aqui no Estado…
Tudo está concentrando. Diminuiu o número de produtores, mas a produtividade aumentou. Para se manter na atividade, o agricultor enxuga a margem de lucro. Tem que produzir mais, plantar mais, para garantir o padrão de vida ou a sustentabilidade da lavoura.

Isto garante uma renda qualificada no campo?
Não. Se olharmos a maior parte dos produtos, tem agricultor no prejuízo. No caso do leite, por exemplo, alguns estão no empate, mas muitos perdendo dinheiro. Mas, porque ele não para, então? Por que é pior. Para recomeçar depois, não tem como. Se fosse a agricultura patronal, já tinha trocado de cultura. Mas o pequeno não consegue e por que ele se mantém mesmo assim? Por que ele tem o leite aqui, mas também tem outras pequenas fontes de renda, um pouco de grão aqui e ali. Então vai compensando até a situação melhorar. Muitos não conseguem e desistem. E aí você tem esse número da Emater que 19 mil famílias desistiram do setor leiteiro no Estado ano passado.

Além do leite, que outras atividades não estão bem para a agricultura familiar?
O trigo hoje está com prejuízo e o arroz, apesar de as pessoas acharem que o arroz é de grandes produtores, 65% do grão vem da agricultura familiar. E do jeito que está o preço, acabam vendendo abaixo do custo de produção também. São três atividades muito ruins hoje: leite, arroz e trigo. Por outro lado, temos o frango, indo muito bem, com uma renda razoável. Os suínos já estiveram melhor, o preço caiu um pouco. O milho uma hora está bom, outra não. Mas ele é assim. Subiu muito há uns dois anos, baixou, este ano subiu de novo e agora reduziu um pouco.

E as políticas públicas para o setor?
Temos que ampliar os valores do que o poder público oferece hoje. Temos um Pronaf com juro inadequado, de 5% ao ano, quando a inflação deve fechar em 3%, ao que parece. Talvez menos até. Então se olharmos em todos os anos do Pronaf essa relação juro e inflação, 2017 é o ano com juro mais elevado. Recursos não podemos reclamar, está sobrando. São R$ 30 bilhões, e não usamos tudo.

Há seguro agrícola?
O seguro, operado via Proagro, é bom, mas tem que ser ampliada a cobertura. O Proagro Mais cobre 60% da renda líquida esperada, com teto até R$ 20 mil. Acima disso, sobra para o produtor.

Um entrave histórico é a infraestrutura deficiente no campo…
É ruim, muito precária no Rio Grande do Sul. Se olharmos a agricultura em si, os agricultores conseguiram produzir mais utilizando a mesma área. Mas a infraestrutura, que depende do poder público, não anda na mesma velocidade. As estradas são péssimas, e no interior dos municípios são ainda piores. A ponto de um caminhão ter dificuldade para buscar o leite na propriedade em dia de chuva. Isso aumenta custo. Quanto à energia elétrica, não é que não tenha: na maioria das propriedades tem luz mas não tem energia. Falta força para um motor ou uma ordenhadeira. E que dirá para a irrigação…aí sim, fica muito pior.

A energia solar e as pequenas centrais hidrelétricas, funcionando de maneira cooperativada, podem ajudar?
Hoje, no Rio Grande do Sul, a melhor energia que temos vem do sistema cooperativo. Há cooperativas como a Celetro (Cachoeira do Sul), a Certel (Teutônia), a Coprel (Ibirubá) com atendimento muito bom. Na minha propriedade, no interior de Cachoeira, a luz é da RGE e, a três quilômetros dali, tem a cooperativa. Ano passado ou retrasado, que deu um temporal feio, nós ficamos 12 dias sem energia elétrica. Já a cooperativa restabeleceu a energia no dia seguinte, perto do meio-dia. Então é uma grande dificuldade. Se entrar na questão do sinal de celular e da internet, é uma vergonha.

E isso é um fator importante para o jovem ficar no campo.
Claro, e quando falamos em baixar custos, a internet ajuda muito. Pode consultar preço, tendência de mercado, pode fazer negócios via e-mail, utilizar planilhas – administrar toda a propriedade.

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) se tornou um grande aliado da agricultura familiar?
É importantíssimo, mas o orçamento dele está caindo. A peça orçamentária do governo federal tira 35% do destinado à agricultura familiar para 2018. O PAA tem algumas modalidades com redução de até 90%. Claro que continua a venda direta para as escolas, para a merenda, e para órgãos públicos, como o Exército. Mas tem que ser melhorado, simplificado.

Como os agricultores familiares estão fazendo com sistemas de armazenagem?
Temos muitas dificuldades. Aqui mesmo no Estado, se olharmos a Cesa (Companhia Estadual de Silos e Armazéns) era importante, mas foi desmantelada. Hoje a armazenagem está nas mãos das empresas cerealistas. Você colocou teu produto lá, não vende para outra, somente para ela. Fica à mercê dos grandes grupos. Quando você tem um armazém próprio, pode esperar venda e melhor preço. Então essa logística de armazenagem está nas mãos das empresas e sai caro para o agricultor familiar.

O uso compartilhado não é uma alternativa?
Sim, mas o problema é a cultura do agricultor. Você tem a qualidade do seu produto e pode misturar outros ali. Aí entra o trabalho das cooperativas, de trabalhar isto. Mas temos dificuldades por causa de algumas que quebraram. No Sul, ali em Pelotas, a Cosulati, do leite, com todo aquele problema. Aquela potência da Cooperativa de Ijuí quebrou e os produtores ficaram com grande prejuízo. Lá em Cachoeira do Sul, duas fecharam e deixaram os agricultores a ver navios. Alguns exemplos ruins mancharam essa questão, mas tem que mudar isso. Tanto é que, no leite, tem grandes cooperativas, como a Dália, a Languiru, a Piá, a Santa Clara.

A exportação pode ser viável para a agricultura familiar?
Dá para fazer, acho que esse é o caminho do futuro. Inclusive tem muitos produtores já exportando – caso dos suínos, do frango. Hoje a pecuária familiar entra muito forte também. Carnes estamos bem neste ponto. Temos dificuldade no leite, no trigo. Olha também o vinho, a uva hoje está na mão do pequeno agricultor a produção. Mas também não está fácil. Fiquei sabendo há pouco tempo que, de cada 10 garrafas de vinho fino vendidas aqui, sete são importadas. E por que isso? São os acordos comerciais. Estamos aqui do lado do Mercosul, com livre comércio, e o Brasil quer abrir mercado. Quer vender carro, fogão, etanol, geladeira, para o Uruguai, o Paraguai, a Argentina…E o que eles têm para vender para cá? Leite, trigo, vinho, arroz. Compete diretamente com o que produzimos.

A agroecologia, com os orgânicos, é um outro caminho importante
Muito importante e que cresce dia a dia. Não é para todos, é mais lento, vai buscando mercado. Mas o governo de fato não mostrou, ainda, que a agricultura familiar pode ir por esse caminho. Ah, tem um programa de agroecologia do Estado, também tem o Pronaf Agroecologia…e quando você vai olhar, são as mesmas regras de um Pronaf comum, só muda o nome. Não é uma política direcionada e atrativa. O governo poderia criar um programa que realmente incentivasse o produtor a caminhar por aí, mas não existe. A produtividade é menor porque não usam agrotóxicos, mas há culturas que não perdem em nada quando comparadas à agricultura tradicional. A assistência rural em orgânicos está centrada em entidades ligadas ao governo, como Emater, Senar, Embrapa, e técnicos de sindicatos rurais e prefeituras. Não há interesse das empresas privadas.

Os estandes da agricultura familiar são os mais visitados em feiras como a Expointer?
Sim, e nossa demanda é maior a cada ano que passa. Existe um projeto para ampliar o pavilhão da agricultura familiar no Parque de Exposições Assis Brasil desde o governo Tarso Genro, inclusive com verba liberada pelo falecido ex-ministro da agricultura Mendes Ribeiro Filho. Mas a obra não andou. Temos produtos coloniais, queijos, doces, um pouco de tudo para mostrar a força da agroindústria também, hoje o principal segmento para reter o jovem no campo. Também trabalhamos forte para unificar os sistemas de inspeção sanitária. Atualmente, um queijo com selo municipal não pode ser comercializado fora. Mas, você chega em Esteio, na Expointer, e lá tem o queijo. Ou seja, pode por nove dias, na feira, mas depois é proibido? Um absurdo. Estamos trabalhando nisso.

Quais as principais linhas de ação da Fetag?
Trabalhamos para desenvolver a agricultura como um todo. Mantendo a família no campo com renda. Nós trabalhamos pela saúde, pela educação, pela infraestrutura. Não é só dar crédito e pronto. Falta mais. Por que brigamos por escolas no meio rural? Por que queremos qualidade de vida. O agricultor não só produz – ele vive, ele precisa do meio rural. Sabemos que, para ficar no campo, as famílias querem qualidade de vida, querem renda. Produzir e não ficar com dinheiro no bolso ele não fica lá, principalmente a gurizada. Sabemos que o agricultor de hoje não é o mesmo de tempos atrás. O que fazem lá em Brasília o agricultor enxerga – ele olha na internet, na tv a cabo. Ele é um agricultor mais bem informado, esclarecido. Antes, a maior parte dos agricultores familiares, no máximo, tinham até a quinta série de estudo. Agora, daqui a pouco, eles terão o ensino médio completo e alguns, até mesmo, ensino superior. Muitos jovens saíram, se formaram, e estão voltando.

E a previdência social no campo?
Talvez seja hoje a política que mais distribui renda no campo. Se você chegar em grande parte das famílias, a maior renda é da aposentadoria. Parte das pessoas está perto de conseguir o benefício ou se aposentou. Dependendo, aqueles dois salários mínimos mensais, no fim do ano, dão mais que a produção dele. E ele continua produzindo – se aposenta, mas não para. Esse agricultor está buscando mais conhecimento, se capacitando.

O quadro político-eleitoral do ano que vem é algo que preocupa os pequenos agricultores?
Entendemos que os agricultores devem se preocupar sim. Hoje é preciso olhar da porteira para fora e entender o mundo. A política interfere em tudo. Desde saúde, educação, mas no custo de produção, no preço final do produto, na infraestrutura. Então é preciso saber escolher, mas temos visto que escolhemos mal. O que eu digo? A classe política fez muita besteira nos últimos tempos e não é só no governo federal não, aqui também. Temos prefeituras quebradas, trabalhando meio turno porque não conseguem pagar a conta de luz, um Estado pagando parcelados os salários e um governo federal fazendo cortes por que não tem mais dinheiro.

Como reverter isso, dentro daquela perspectiva de que ninguém quer perder direitos?
Isso é um problema, mas todos os privilégios devem ser atacados. Aqui no Rio Grande do Sul, quem são os prejudicados? Os funcionários públicos do poder Executivo. A Assembleia recebe em dia, o Judiciário recebe em dia…O poder público não mexe nos seus privilégios e lá em cima não é diferente. Querem fazer reforma da previdência, mas o militar já foi tirado. E o Judiciário louco para sair…acaba ficando apenas o setor privado.

Entrevista: Cristiano Vieira e Julio Ribeiro
Fotos: Marcos Nagelstein/Agência Preview