Campo busca energia para crescer

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A falta de uma conexão com a rede elétrica não é considerada mais uma grave dificuldade no meio rural desde que programas como o Luz no Campo e o Luz para Todos, que contaram com parcerias de governos federal, estaduais e concessionárias, expandiram a infraestrutura de distribuição de energia para essas regiões. Agora, a questão é ter uma maior capacidade de suporte de carga para permitir o crescimento do agronegócio, ou seja, ter a condição para ligar equipamentos de consumo mais intenso como, por exemplo, um sistema de refrigeração de leite ou de irrigação.

No Rio Grande do Sul, historicamente os grupos que mais se empenharam em levar a energia para os rincões agrícolas foram as cooperativas, já que para as grandes distribuidoras, essa atividade nunca representou uma fonte de receita muito interessante. O presidente da Federação das Cooperativas de Energia, Telefonia e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul (Fecoergs) e da Certel (que tem sede em Teutônia), Erineo José Hennemann, informa que as 24 cooperativas gaúchas de eletrificação no campo atuam em 360 municípios. Essas associações contam com em torno de 65 mil quilômetros de rede e fornecem energia para aproximadamente 1 milhão de pessoas.

“Nosso compromisso é enorme com o associado, principalmente com aquele que deu origem às cooperativas, que foi o das áreas rurais”, frisa o dirigente. Hennemann considera a cooperativa como uma extensão da propriedade rural, já que o associado também é seu proprietário. Ele acrescenta que é mais fácil e próxima a comunicação entre as partes em comparação à de um cliente de uma concessionária de energia de um centro urbano maior.

O presidente da Fecoergs alerta que hoje, no ambiente rural, há uma demanda de carga represada nos ramos avícola, suinocultura, fumageiro e lácteo. Hennemann argumenta que o desenvolvimento desses segmentos depende de automação, fornos de secagem, irrigação, entre outras ações. O presidente da Creral (sediada em Erechim), João Alderi do Prado, confirma que existe um número crescente de produtores que querem ampliar suas atividades. Na região atendida pela sua cooperativa, o dirigente cita que esse é um anseio recorrente de aviários, suinocultores e da cadeia leiteira. “Há a necessidade de expandir a capacidade da rede elétrica para melhorar o processo produtivo”, frisa.

Conforme Prado, quando o atendimento pode ser feito através de uma rede bifásica, sem envolver cargas maiores, a própria Creral tem realizado o investimento, desde que não sejam projetos mais complexos. Já consumidores que têm demandas maiores, implicando a instalação de uma estrutura trifásica, o dirigente explica que a cooperativa faz uma parceria com o associado, cada qual assumindo parte dos custos.

Prado detalha que uma rede trifásica possui mais capacidade para suportar maiores cargas elétricas, entretanto é mais cara por ser uma composição mais robusta. Ele recorda que as redes troncais, que alcançam as comunidades mais populosas, são trifásicas, contudo os ramais que se estendem a pontos mais distantes, na sua maioria, são monofásicos. “Às vezes, o associado está a dez quilômetros de uma rede trifásica, aí é um custo bem elevado para atendê-lo nessa modalidade”, comenta.

Apoio a investimentos das cooperativas
O Programa Energia Forte no Campo, lançado em outubro pelo governo do Estado, disponibilizará em sua primeira fase R$ 20 milhões para melhorar as redes de energia elétrica na zona rural no Rio Grande do Sul. Desse total, R$ 11 milhões serão por meio de financiamento com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), R$ 4 milhões serão destinados pelo governo, R$ 3 milhões virão das cooperativas participantes e R$ 2 milhões de prefeituras.

Nessa etapa inicial do programa, estão previstos investimentos para transformar em trifásica 364 quilômetros de rede de distribuição, beneficiando 1,12 mil pequenos produtores. De acordo com dados do governo estadual, o Rio Grande do Sul tem cerca de 506 mil propriedades rurais eletrificadas, das quais somente 37% com estruturas trifásicas. Estima-se hoje existir aproximadamente 60 mil quilômetros de redes de distribuição de energia elétrica trifásicas na área rural do Estado (levando em conta as malhas das cooperativas e das concessionárias CEEE-D e RGE).

Conforme estudos divulgados pelo governo gaúcho, o custo de ampliação para trifásica de toda a rede é estimado em R$ 1 bilhão. Ainda segundo o poder público, a transformação em rede trifásica pode aumentar a produtividade em 209% na cultura do milho, 104% na soja, 157% na de feijão, 128% na cadeia do leite, além de favorecer a atividade de áreas irrigadas.

O presidente da Fecoergs, Erineo José Hennemann, considera o programa como uma importante decisão do governo, porque a iniciativa incentiva aos agricultores a produzirem mais. “Não temos dúvidas que vai incrementar o agronegócio do nosso Estado”, projeta. O dirigente argumenta que é uma decisão que muda o modelo de investimento, porque fica menos oneroso para a cooperativa e para o produtor.

O Programa Energia Forte no Campo, lançado em outubro pelo Governo do Estado, disponibilizará R$ 20 milhões para melhorar as redes de energia elétrica na zona rural do Rio Grande do Sul

“Temos buscado políticas públicas e financiamentos de longo prazo com juros baixos para potencializar a expansão das redes trifásicas, mas os desafios são grandes, juros altos e pouco prazo”, comenta o presidente da Coprel (cuja sede é em Ibirubá), Jânio Vital Stefanello. O dirigente espera que o Programa Energia Forte no Campo possa contribuir para preencher essa lacuna. Através da medida, a Coprel pretende desenvolver um projeto-piloto que contempla obras em David Canabarro e Santo Antônio do Palma, que juntas somam mais de 20 quilômetros de transformação de redes trifásicas. Para 2021, ainda por meio do programa, a cooperativa espera alcançar mais 92 quilômetros de novas redes trifásicas.

Para Stefanello, a proposta é um passo muito importante, principalmente para quem deseja investir em suas propriedades. “Vamos acompanhar de perto o funcionamento para repassar as informações aos nossos cooperantes, com a energia mais forte, os agricultores podem produzir cada vez mais”, enfatiza o dirigente.

Fundos próprios
As cooperativas de eletrificação rural não colocaram todas as suas fichas apenas no programa estadual que pretende aprimorar o fornecimento de energia no campo. Muitas dessas organizações apostaram também na criação de fundos próprios para seguir com as obras e investimentos que precisam ser feitos.

A Coprel, por exemplo, criou o Fundo Mais Energia, que tem contribuído para levar redes trifásicas ao interior. Dentro do planejamento do grupo, a cooperativa banca 60% dos custos da obra, com um teto de R$ 50 mil, e o cooperante ainda pode buscar financiamento com o Sicredi, sendo que a cooperativa arca com 50% dos juros. O presidente da Coprel, Jânio Vital Stefanello, salienta que a cooperativa vem investindo na ordem de R$ 30 milhões a R$ 40 milhões por ano no sistema elétrico e a projeção é fechar 2020 com um aporte de R$ 43 milhões.

Já o presidente da Creluz (sede em Pinhal), Elemar Battisti, elogia a iniciativa do Programa Energia Forte no Campo, mas destaca que a cooperativa vinha se preparando para melhorar a sua infraestrutura e atendimento através de recursos próprios, por meio de um fundo destinado ao reforço da rede elétrica. “As sobras de balanço vão para ali e ajudam a bancar os projetos”, explica o dirigente.

Em 2019, recorda Battisti, o investimento no fundo foi de aproximadamente R$ 2 milhões. O presidente da Creluz explica que a demanda do melhoramento do fornecimento de energia parte do associado para a cooperativa que, por sua vez, vê a possibilidade de enquadrar a iniciativa (que pode ser a instalação de um novo transformador, por exemplo) dentro das verbas disponíveis, elaborar o projeto e ir adiante com as ações.

Battisti comenta que a região atendida pela Creluz (Norte do Estado) é composta por colônias de extensões menores, o que facilita o atendimento elétrico. Porém, o dirigente enfatiza que é importante ter qualidade quanto à energia, pois a produção no campo vem crescendo muito nos últimos anos e tem um perfil dinâmico. Na área abrangida pela cooperativa, Battisti recorda que existem muitos frigoríficos, todos próximos um dos outros, há ainda a produção leiteira e também vários produtores começaram a optar pela irrigação das pastagens. “Essas demandas novas vêm se apresentando porque as pessoas estão aumentando suas atividades e geram a necessidade do reforço de rede”, frisa.

Burocracia e limitação de recursos
Apesar de mecanismos para desenvolver a rede elétrica no campo serem vistos com bons olhos pelas cooperativas, uma preocupação é quanto à dificuldade de acesso aos recursos provenientes do governo. O presidente da Coopernorte (sediada em Viamão), Jairton Nunes Vieira, afirma que a cooperativa não pretende participar do Programa Energia Forte no Campo em função da burocracia e do montante escasso disponibilizado pelo poder público.

As cooperativas de eletrificação rural criaram fundos próprios para obras e investimentos

“Ofertaram R$ 23 mil para a nossa cooperativa, o que não daria nem para executar 1 quilômetro de rede”, critica Vieira. O presidente da Coopernorte diz que os gargalos que precisam ser superados para aumentar ainda mais a capacidade e qualidade de fornecimento de energia no meio rural são de ordem financeira. “Os materiais aplicados em redes bem como a mão de obra têm um custo elevado, por isso o governo deveria subsidiar parte desses investimentos, pois se entende que haveria um retorno a longo prazo, além das causas sociais”, argumenta.

Atualmente, cerca de 60% da rede de 750 quilômetros da cooperativa viamonense é trifásica e a projeção é de que em cinco anos chegue a 100% da sua área de atuação. Vieira destaca que os investimentos realizados pelo grupo são constantes e bancados com os recursos que entram no caixa da Coopernorte.

Já a Cermissões (com sede em Caibaté) possui mais de 6,3 mil quilômetros de rede elétrica, sendo 39% trifásica, 60,8% monofásica e o restante bifásico. O presidente da cooperativa, Diamantino Marques dos Santos, afirma que os investimentos em redes trifásicas ocorrem conforme surge a demanda do associado. De acordo com o dirigente, o anseio por carga tem crescido de forma gradual na área de atuação da cooperativa. “Em anos com estiagem, como este de 2020, tem sido frequente a instalação de sistemas de irrigação com pedidos de aumento de carga”, frisa.

João Alderi do Prado, Presidente da Creral

No planejamento da Cermissões, estão previstos mais de R$ 25 milhões em aportes em reforço e melhorias até 2024. Para ir adiante com os empreendimentos, a cooperativa selou em julho uma parceria com o Sicredi com o objetivo de financiar a ampliação e construção de redes elétricas. Desta forma, os associados da Cermissões que precisem de ampliação de rede, aumento de carga ou qualquer obra que envolva os serviços da cooperativa, poderão financiar por meio de uma linha de crédito específica para este fim na instituição financeira. O Sicredi oferecerá linhas diversas, sendo que as taxas de juros e prazos irão variar de acordo com a modalidade negociada com o interessado e com prazos que podem chegar até 180 meses.

Sobre o Programa Energia Forte no Campo do governo do Estado, o presidente da Cermissões considera a fundamentação da medida como boa, mas a cooperativa não irá participar, pois como já possui a parceria com o Sicredi, que tem mostrado agilidade na liberação do crédito e condições favoráveis, entende que é um caminho menos burocrático que agiliza a obra para o associado.