Brasileiros consomem mais produtos orgânicos

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Mesmo com a crise econômica, o segmento de produtos orgânicos faturou R$ 4,6 bilhões no Brasil em 2019, segundo balanço da Organis, entidade setorial dos orgânicos — o que representa aumento de 15% em relação ao faturamento de 2018, quando o valor chegou a R$ 4 bilhões.

A entidade avalia que os números de exportação também foram bons para um ano de grande variação cambial: em torno de U$ 190 milhões (26 empresas associadas), alta de 5,5% em relação ao ano anterior (R$ 180 milhões).

Conforme Clauber Cruz, diretor da Organis, o mercado internacional está mais receptivo. “A principal feira do setor de orgânicos, a BioBrazil, cresceu 33% em número de expositores. Tivemos muitos brasileiros visitando as principais feiras internacionais do setor, mais do que em outros anos, na busca por ideias e conceitos com potencial para ser trabalhados por aqui. Rompemos a barreira das 20 mil unidades produtivas e o varejo entendeu a importância do orgânico no portfólio dos saudáveis”, informou.

Segundo ele, o setor tem grande potencial de desenvolvimento. “Isso, se as condições econômicas tivessem sido favoráveis e se o consumidor já houvesse consolidado seu entendimento sobre o que é um produto orgânico”, avaliou. De acordo com o diretor, a tendência para este ano é positiva e ele estima que o mercado brasileiro de orgânicos deve crescer no mínimo 10%.

Um movimento apontado pela Organis é o aumento da relevância da produção orgânica como parte da solução das questões ambientais. O setor deverá atrair mais iniciativas, tanto públicas como privadas, que intensificarão as ações de fomento. “A experiência bem-sucedida de ver os orgânicos em movimento nos anima a manter o otimismo para 2020, que tende a se firmar como um ano de sistematização de informações da cadeia produtiva, da semente ao cliente”, disse Cruz.

Contudo, pesquisa realizada pela Organis ano passado mostrou que, para 65% dos consumidores, o preço mais elevado quando comparado ao produto não orgânico é o principal entrave para um maior consumo de orgânicos. Por regiões, o Sul concentra o maior mercado – 23% dos entrevistados informaram que ingerem orgânicos pelo menos uma vez por semana.

Em outro levantamento, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostra que os maiores desafios dos produtores orgânicos são a falta de insumos apropriados, comercialização, assistência técnica e  logística. Na pesquisa, foram entrevistados 1.200 produtores do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos.

Fernando Kohlmann Schwanke
Secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura

Enquanto a agricultura convencional dispõe de uma série de insumos, como adubos, fertilizantes químicos e sementes de alta produtividade, para os produtores orgânicos a realidade é outra. Faltam biofertilizantes e defensivos naturais para afastar insetos ou doenças, além de sementes, por falta de pesquisa e também pela própria dinâmica de investimentos na agricultura convencional. O segundo desafio mais citado foi a comercialização dos produtos orgânicos, com 48% das respostas. Na sequência, os produtores apontaram a assistência técnica (39%) e a logística (38%).

Com esses quatro principais elementos identificados, o Sebrae começou a desenvolver ano passado uma forma de aproximar produtores com os insumos orgânicos. Para tanto, firmou convênio com a Embrapa com o objetivo de promover um mapeamento nacional para localizar as empresas que produzem esses insumos, entre outros pontos.

Abrindo mercados no exterior
Em fevereiro, oito cooperativas de pequenos agricultores e duas empresas brasileiras participaram da maior feira de produtos orgânicos do planeta – a Biofach 2020, que acontece em Nuremberg, na Alemanha.

O Brasil levou frutos típicos beneficiados e produtos processados da lavoura e do extrativismo como cacau em amêndoas, café orgânico, extratos e polpas de açaí, acerola em pó, caroço de bacuri, fruta seca de cupuaçu e de jambo, geleia orgânica de umbu, guaraná em pó, mel em bisnaga, além de cachaça.

Metade dos expositores brasileiros na feira alemã eram da Região Norte (quatro do Pará e um de Rondônia), dois são de Minas Gerais, um da Bahia, um do Piauí e um do Rio Grande do Sul.

Os expositores foram escolhidos entre 18 inscritos após edital publicado pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

A feira pode abrir portas para produtos com valor agregado e maior apelo social. “O mercado internacional demanda produtos diferenciados. Alguns nichos valorizam muito produtos com determinadas certificações”, explica o secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Fernando Kohlmann Schwanke.

Segundo ele, a produção orgânica é “uma vertente importante para a agricultura familiar e pequenos agricultores, que acabam em pequena produção agregando bastante valor dos seus produtos através da garantia dessas certificações para o consumidor“.

A agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos e nem outros insumos químicos, produtos que podem favorecer o controle de pragas e aumentar a produtividade. A ausência desses componentes é diferencial para alguns consumidores, explica Schwanke. “Tem demanda de mercado por orgânicos que remunera melhor esses produtos. Muitas vezes a produtividade mais baixa acaba se compensando pelo preço pago lá na ponta.”

Conforme o ministério, sete de cada dez trabalhadores agrícolas no Brasil são empregados pela agricultura familiar. A produção é especializada em hortifrutigranjeiros.