Bernardo Pötter – Genética que valoriza a carne

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Já se passaram 44 anos desde que um grupo de produtores gaúchos, na década de 1970, resolveu apostar na genética para aumentar a rentabilidade da pecuária de corte. A Conexão Delta G é uma associação que reúne um seleto grupo de agroempresas brasileiras focadas no melhoramento genético. Estas empresas têm fazendas distribuídas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. A produção está baseada nas raças Hereford e Braford. Idealizado pelo zootecnista Luiz Alberto Fries, o programa conta com a assessoria da GenSys, empresa que também é responsável pelas avaliações genéticas. O trabalho realizado busca identificar os animais que são superiores para, posteriormente, ofertá-los ao mercado. O objetivo final é colocar nas gôndolas uma carne tenra, macia e saborosa para conquistar de vez o paladar do consumidor. O presidente do Conselho Técnico da Conexão Delta G, Bernardo Pötter, destaca a importância da genética para qualificar a pecuária de corte.

Como surgiu a Conexão Delta G?
É um programa de melhoramento genético. Ela nasceu com este propósito e continua sendo. Foi fundada em 1973 pela minha família, a Pötter, e pela família Zart, nossos primos. Eram, na época, duas propriedades, a Estância Guatambu (do meu avô, depois dividida entre meu pai e meu tio) e a Alvorada. Parte da Guatambu virou a Estância Caty, que continuamos hoje. Naquela época, não existia nenhum programa de melhoramento genético no Brasil. Só o que tinha, em gado de corte, neste sentido, era nos Estados Unidos. Era essa a informação que nos chegava.

Como essa novidade chegou, então, ao Rio Grande do Sul?
Naquele mesmo ano, em 1973, um gaúcho chamado Luiz Alberto Fries fez seu doutorado em genética e criou, então, um programa de melhoramento. Ele precisava de alguns produtores locais para implementar esta iniciativa e fomos alguns dos participantes iniciais. Então, desde lá, a gente vem selecionando os animais por desempenho, por características econômicas bem objetivas. Em 1993, a Conexão Delta G se abriu a criadores de fora da família. Vieram produtores de todo o Brasil.

Hoje a Conexão Delta G tem abrangência nacional?
Sim, a Conexão Delta G é um programa de melhoramento genético privado que abarca Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. São os principais estados produtores de carne. O que une estes produtores é o programa, que é o mesmo para todos.

A genética do programa é igual para todos os associados?
A base genética, ou seja, os dados pelos quais os animais são comparados e avaliados, é a mesma para todos os conectados. Daí vem o nome “conexão”, significando a conectividade genética. Entrando um pouco mais na parte técnica, falamos de laços genéticos diretos. Para os animais criados em diferentes ambientes poderem ser comparados uns com os outros, eles devem ter alguns laços genéticos diretos. Senão isso seria impossível. Depois entram as metodologias empregadas, como controle de dados e de grupos contemporâneos. Esses estudos, na prática, são realizados pela GenSys.

Como funciona a parceria com a Gensys?
A GenSys é uma empresa de geneticistas, fundada junto com a Conexão Delta G, e é a responsável pelas avaliações genéticas. Quem “roda” os dados nos softwares, quem faz esse trabalho, é a GenSys. Ela foi criada pelo próprio Fries, desenvolvedor do programa de melhoramento. É uma empresa privada também e que, embora criada junto com a Conexão Delta G, presta serviços para outros programas de melhoramento genético, como Promebo e Paint.

O programa chegou a se expandir mais?
Em meados dos anos 2000, creio em 2007, a Conexão Delta G cresceu de tal modo que se dividiu em Conexão Delta G Sul e Norte, mas acabou que a Norte se separou porque são ambientes diferentes. Fundaram então a Deltagen, uma outra companhia. A Conexão Delta G trabalha com as raças Hereford e Braford, enquanto a Deltagen foca apenas na raça Nelore.

O foco sempre foram as raças Hereford e Braford?
Na década de 1970, era apenas em Hereford. O Braford começamos a trabalhar na década de 1980, praticamente dez anos após a fundação. Atualmente, são as carcaças mais disputadas do mercado de carnes. O Braford, no Rio Grande do Sul, hoje é a raça bovina mais populosa e valorizada.

O melhoramento genético tem como objetivo final aumentar a produção de carne?
São basicamente dois objetivos. O primeiro é selecionar animais de alto desempenho a campo. Isto significa mais rentabilidade para o produtor e, dentro deste aspecto, entram todas as características de importância econômica, como fertilidade, precocidade sexual, ganho de peso, rendimento de carcaça, etc. O segundo objetivo é alcançar um produto final de qualidade superior. Falamos então de benefícios diretos para o consumidor, com maciez da carne, acabamento da carcaça, grau de marmoreio, idade de animais ao abate. Grande desempenho a campo e um produto de qualidade superior, uma carne apreciada, é o que buscamos.

Nestes 44 anos de programa, que ganhos hoje tem o produtor que investiu em genética?
Naquela época, na pecuária em geral, nem se falava em abater aos dois anos de idade, com 24 meses. Se pensava em animais com cinco, até seis anos de idade para abater. Nós, naquele tempo, já tínhamos exemplares prontos para abate com dois anos e, hoje, abatemos animais com metade desse tempo, um ano. Isso sem perder nada em peso ou acabamento de carcaça. E a qualidade da carne é infinitamente superior porque, quanto mais novo o animal, mais macia é a carne. Para o produtor a rentabilidade é maior porque, em vez de ficar com o boi dois ou três anos no campo gerando custos, ele tem o animal por apenas um ano ou 14 meses, geralmente.

Houve melhorias em aspectos como fertilidade e reprodução?
Sim, hoje as fêmeas são acasaladas com a mesma idade, cerca de 14 meses. No máximo, aos 24 meses dentro dos nossos parâmetros da Conexão Delta G. A média do Rio Grande do Sul, veja bem, é de pelo menos três anos e meio neste quesito. Há outros pontos importantes ainda. As carcaças trabalhadas pela Conexão Delta G têm um rendimento comercial significativamente superior ao de animais não selecionados. Em média, o aproveitamento do nosso animal é de 7% a 8% a mais de carne.

O melhoramento ajuda ainda no combate a doenças?
Claro, falando de resistência a ectoparasitas como carrapatos, nós temos um programa de seleção genômica para o animal resistir ao carrapato. É o grande problema hoje no campo. Mas temos linhagens de animais Braford que se infestam, em média, pela metade do que ocorre com animais que não são selecionados geneticamente. Então, há uma série de parâmetros que fazem destes animais altamente selecionados muito rentáveis para o produtor e benéficos para o consumidor final – além de a carne ter propriedades sensoriais superiores, maciez e marmoreio, também é um produto que recebeu menos medicação durante a vida do animal para combater os parasitas. Precisa de menos tratamento.

Além do programa de melhoramento, o produtor deve cuidar do manejo do animal no campo. Como conciliar essas atividades?
É uma rotina trabalhosa e isso é o que considero o principal motivo da baixa adesão dos produtores aos programas de melhoramento genético. Devido às dificuldades em conciliar o manejo da propriedade com as metodologias de controle de dados do melhoramento genético. Com isso, apenas uma elite da pecuária, digamos assim, termina por participar dos programas. Por exemplo, na Conexão Delta G somos apenas 18 empresas. Isso no universo do Rio Grande do Sul é quase nada, mas somos os principais fornecedores de genética.

Em termos de pesquisa genética, é um volume grande de informação?
Nosso sumário de reprodutores, que a gente publica todos os anos, é a principal referência de reprodutores Hereford e Braford no Brasil. São mais de 700 mil animais avaliados até hoje e que constam em nosso banco de dados. Se multiplicarmos isso pelo número de características de importância econômica que temos no programa, são mais de 23 milhões de avaliações e medições a campo realizadas.

Hoje a genética animal produzida no Brasil é das mais capacitadas?
É altamente capacitada. Todos os membros do GenSys são geneticistas reconhecidos em nível internacional. Os técnicos que trabalham a campo, também, são altamente qualificados. Temos metodologias de avaliação sofisticadas, de coleta de dados das mais rigorosas. Já recebemos nas propriedades da Conexão Delta G norte-americanos, canadenses, australianos, neozelandeses e eles ficam espantados não só com a qualidade das nossas metodologias, mas abismados de a gente aplicar esse controle rigoroso em cima do volume grande de dados que temos.

Os investimentos em touros melhorados geneticamente compensam?
Temos clientes fiéis, que fazem essa conta e reconhecem que o investimento em um touro da Conexão Delta G tem retorno infinitamente superior em relação a um touro que não tem melhoramento genético. É por isso que o produtor retorna outros anos e paga mais caro por um touro desses. Entende que o investimento é alto, mas o produto final dele será mais valorizado e terá mais liquidez. Temos dois tipos de clientes. Aquele que compra os animais para reproduzir e fornecer novilhos para o frigorífico e aquele produtor que adquire o touro para procriar e comercializar seus terneiros. Este também é altamente procurado. De uma forma geral, quem compra um touro desses sabe os benefícios. O melhoramento genético é fundamental para gerar um reprodutor de alta performance.

Estamos falando de uma carne de mais qualidade, que custa mais. O consumidor sabe, hoje, diferenciar este produto? Aceita pagar mais?
Sem dúvida. Existem marcas de carne criadas pelas próprias associações de criadores divulgando e ressaltando as qualidades superiores dos cortes. O consumidor sabe qual gôndola ele precisa ir no supermercado para encontrar essa carne. Para nós é muito bom porque mostra que o cliente final reconhece a qualidade do produto e está disposto a pagar mais por ele. É um trabalho que começa no campo e termina na mesa do consumidor.
Entrevista: Cristiano Vieira

Foto: Fernando Dias/Seapa
Foto/destaque: divulgação-AGroEffective