Alimentos orgânicos carecem de insumos

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O cultivo de alimentos orgânicos no Brasil encontra dificuldades específicas em relação ao modelo de agricultura convencional vigente no País, que se utiliza de agroquímicos. Pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostra que os maiores desafios dos produtores orgânicos são a falta de insumos apropriados, comercialização, assistência técnica e a logística. No levantamento, foram ouvidos 1.200 produtores do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos.

Luiz Rebelatto, analista técnico do Sebrae, pondera que 57% dos entrevistados reclamaram da carência de insumos, uma vez que os agricultores do modelo tradicional contam com adubos, agrotóxicos, fertilizantes químicos e sementes de alta produtividade.

“A agricultura orgânica também precisa de alguns insumos principalmente na fase inicial de transição agroecológica, quando uma unidade de produção deixa de ser convencional, para de usar produtos como agrotóxicos e fertilizantes químicos, e pode então ter a certificação da produção orgânica. Nessa conversão, o agricultor sente muito e cai muito a produtividade”, informa Rebelatto.

Luiz Rebelatto – Foto: Divulgação Sebrae

O Sebrae identificou ainda uma possibilidade para novos empreendedores. “Estamos desenvolvendo alguns planos de negócio para que micro e pequenas empresas possam entrar no mercado de produção de insumos para agricultura orgânica, que, pela pesquisa, se identificou que é um grande filão de mercado”, finaliza Rebelatto.

A legislação brasileira prevê que os produtos fitossanitários usados na agricultura orgânica devem ter composição diferenciada e ser registrados somente se tiverem substâncias autorizadas. Os produtos feitos para uso próprio são isentos do registro. A norma estabelece que os insumos com uso regulamentado para a agricultura orgânica devem passar por um processo de registro diferenciado, mais simples e ágil para facilitar a regularização.

O último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 58% dos produtores brasileiros não utilizam nenhum tipo de adubação, 20% usam adubação química, 12% preferem adubação orgânica e 11% usam adubos químicos e orgânicos. E 33% dos produtores afirmam usar agrotóxicos, segundo o censo.

Os especialistas destacam que o mercado de fertilizantes orgânicos é crescente no Brasil. O balanço mais recente da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), com dados de 2018, mostra que as empresas de fertilizantes orgânicos estão entre as mais otimistas para o ano de 2019 com previsão de crescimento no faturamento entre 20% e 21%.

Os bioinsumos abrangem desde sementes, fertilizantes, produtos para nutrição vegetal e animal, extratos vegetais, defensivos biológicos feitos a partir de micro-organismos benéficos para controle de pragas até produtos homeopáticos ou tecnologias que tem ativos biológicos na composição.

O exemplo do Vale do Caí
Quem já acordou para essa oportunidade não tem o que reclamar. No Vale do Caí, região do Rio Grande do Sul que se destaca na produção de laranja e bergamota, um grupo de agricultores familiares apostou na produção de adubo orgânico.

São 12 mil hectares de citros espalhados por 20 municípios da região. Na década de 1980, cerca de 15 produtores do Vale decidiram fazer um plantio mais sustentável para reduzir o uso de insumos químicos e baratear o custo da produção. Em 1994, o grupo formou uma associação que culminou na criação da Cooperativa de Citricultores Ecológicos do Vale do Caí (Ecocitrus).

Em busca de matéria-prima para produzir adubo orgânico, os cooperados se aproximaram das agroindústrias da região que, por sua vez, precisavam resolver um problema ambiental: encontrar destinação para os restos de produção.

Alimentos Orgânicos/Divulgação Ministério Agricultura

No início, apenas três empresas apoiaram a ideia dos agricultores e forneceram material. Os agricultores alugaram uma área e construíram uma usina de compostagem para processar e fazer o próprio composto, a partir da matéria orgânica recebida.

O agrônomo Daniel Buttenbender, especializado em agricultura orgânica e um dos técnicos responsáveis da cooperativa, destaca que hoje a Ecocitrus tem 98 produtores rurais associados, uma usina de compostagem, uma usina de biogás e uma agroindústria, que produz sucos naturais e óleos essenciais vendidos para empresas de cosméticos.

Por meio do processo de biodegradação e biodigestão anaeróbica, a transformação de resíduos que teriam o lixo como destino final tem gerado por mês em torno de 3 mil m³ de composto orgânico e 7,5 mil m³ de biofertilizante líquido.

“O objetivo era fazer insumo para eles, mas hoje chegou num ponto que se vende. Tem mais ou menos 90 empresas que fazem parte do processo e entregam uma diversidade de resíduos. A gente consegue processar por mês 12 mil toneladas de resíduos sólidos classe 2”, explica o agrônomo.

Buttenbender salienta que o resultado é um solo vivo com muitos microorganismos, biodiversidade e plantas sadias que poderão atender à demanda crescente dos consumidores por alimentos mais saudáveis. “A qualidade do solo te dá uma planta com qualidade, uma fruta de qualidade que leva saúde para quem come”, destaca.

No Brasil, a produção orgânica faturou R$ 4 bilhões em 2018, sendo que US$ 130 milhões (R$ 480 milhões) vieram das exportações, segundo a Organis, entidade que reúne empresas e produtores orgânicos.