Alceu Moreira “As prateleiras que ocupamos nos supermercados do mundo, alguém ocupava antes”

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Presidente reeleito para comandar a Frente Parlamentar da Agricultura (FPA), o deputado federal gaúcho Alceu Moreira (MDB-RS) se tornou uma das mais importantes e ativas lideranças do agronegócio nacional ao longo deste ano. Em entrevista à Press Agrobusiness, Moreira fala sobre as exportações do agronegócio brasileiro e os desafios que o governo deve enfrentar no próximo ano. Ele destaca, ainda, as principais frentes de atuação da FPA, além de indicar novos horizontes que devem ser melhor explorados pelo Brasil, como a piscicultura.

Estamos chegando em 2020 e sempre há questões importantes para o homem do campo a serem resolvidas. Que pontos merecem atenção, atualmente?
O que a gente precisa perceber é o seguinte: conforme o volume e a intensidade da nossa participação no mercado internacional, nós deixamos de ter os amigos de sempre e passamos ter os concorrentes. Esse não é um jogo olímpico, é uma concorrência de mercado. Na concorrência de mercado, quanto maior for o nível de competitividade, maior será a agressividade de nossos concorrentes. As prateleiras que ocupamos nos supermercados do mundo, alguém ocupava antes. Quando o cidadão põe a mão e pega um frango nosso, ou qualquer outra coisa nossa no mercado, alguém deixou de ocupar aquele espaço na prateleira, e essa pessoa não está feliz. Pode ter certeza que não. A gente precisa cuidar do nosso setor e isso inclui cuidar de algumas questões que, para algumas pessoas, pode parecer que está tudo bem, mas não está. Por exemplo, nós não conseguimos fazer adequadamente comunicação e imagem.

O senhor se refere à imagem do agronegócio no exterior?
E aqui, no mercado interno, também. Nós vamos muito bem da porteira para à mesa, mas não sabemos nos comunicar entre a mesa e porteira. O cidadão senta à mesa, come um churrasco maravilhoso, e o que tem na mesa dele fomos nós que produzimos. Mas ele sai dali, ouve a primeira crítica e sai falando mal dos produtores.

Ele não sabe de onde vem e como é feito…
Não, ele não valoriza isso. Ele não humaniza esse processo e o culpado não é ele, o culpado é que essa mensagem chegou à mesa dele como mensagem urbana, sem nenhum respeito ao produtor. Enquanto os americanos e europeus estendem tapete vermelho para aqueles que produzem alimentos, no nosso País é comum as pessoas passarem a ideia de que o produto é envenenado. Uma grande mentira, na verdade, um crime contra nós. Frango por exemplo, 186 países compram nosso frango. Alguém iria importar frango brasileiro envenenado? Com certeza, não. Quando vai fazer o check list para importar, a primeira questão que os compradores querem saber é o Codex, ou seja, o grau de contaminação, de toxidade.

Outro ponto é o meio ambiente, as críticas…
Sim, a questão ambiental. Se nós derrubarmos metade da Caatinga, ninguém diz absolutamente nada. Se nós poluirmos nossos mares e rios, não tem nenhum problema. Agora, se um macaco quebrar um galho na Amazônia, aí tem problema. Então, a Amazônia é simbólica. Não é que não devemos cuidar, temos que cuidar e muito. Aliás, o produtor rural brasileiro é frontalmente contrário ao desmatamento ilegal, mas na Amazônia cabem dez países europeus dentro dela. No ano passado houve um período com 29 mil focos de incêndios. Alguns propositais, alguns não. A Amazônia não tem regularização fundiária. Colocaram as pessoas lá e nunca deram o título da terra. Isso é propositado. Esse cidadão não consegue dar a terra como garantia para fazer financiamento. Então, ele queima para poder plantar numa terra nova. A Amazônia tem muita gente vendendo madeira ilegal, tem gente vendendo minério ilegal. Quando se fala em legalizar, as ONGs imediatamente fazem uma gritaria. Enquanto isso, o produtor está dizendo o seguinte: eu quero vender madeira da Amazônia com manejo, com controle ambiental, mas eu tenho que fazer rastreabilidade. A madeira que sair tem que sair com a nossa etiqueta para saber de onde veio. Hoje, não tem. Sai do Brasil sem nada.

Não existe esse controle, de nenhuma forma?
Não tem. O minério explorado na Amazônia não paga tributo algum. Faz um dano ambiental imenso e, muitas vezes, pode ir para a Noruega, como já ocorreu, e ela, ao mesmo tempo, nos critica por questões ambientais. Há uma empresa norueguesa poluindo os rios e tirando minério. Precisamos acabar com esses preconceitos, mas isso não pode ser feito com ódio. Tem que ser com inteligência e gerenciamento estratégico desse processo. Se falta policiamento, temos que pensar que se este policiamento deve ser feito por conta dos Estados. Tem que ter uma política de compensação ambiental para que tenhamos, por exemplo, a possibilidade de fiscalização por satélite sobre isso. E se nós queremos mesmo que o agricultor sinta-se pertencente à Amazônia, devemos dar propriedade a ele, a escritura pública e o registro, para que seja dono da terra. Os 29 milhões de pessoas que moram na região vão certamente preservar a Amazônia. Temos muito a fazer na questão ambiental e temos que fazer isso com responsabilidade. O que não podemos é apenas nos defender, dizendo para as pessoas que nós somos realmente culpados, quando temos 66% da nossa floresta preservada. Nem os países que têm suas florestas e montanhas no gelo têm tanto quanto nós.

E nossa legislação ambiental é uma das mais rigorosas no mundo, não?
Ao invés de estar pedindo desculpa por vender produtos com selo vermelho, nós temos que obrigar as pessoas a receber nossos produtos com selo verde. Temos uma questão de natureza sanitária, então essa área precisa de financiamento para fazer sanidade. Por exemplo, nós hoje temos a Peste Suína Africana (PSA) na China. Quantos cães nós temos aqui para poder farejar nossos aeroportos e não permitir que qualquer tipo de peça que possa carregar o vírus entre aqui? Apenas dois.

Isso apenas no Rio Grande do Sul?
Não, no Brasil inteiro. Um cachorro desses, treinado para identificar produtos de origem animal, por exemplo, custa em torno de 10 mil dólares. Não dá pra comprar isso? Com certeza, sim. Precisamos ter cuidado com a questão ambiental, mas também com a sanitária.

É o caso do possível fim da vacinação contra a febre aftosa?
Sim, devemos implementar controles rigorosíssimos com relação a isso. Ao mesmo tempo que ela nos gera grandes oportunidades, é preciso controlar para que não se tenha a doença. Ou teremos problemas. Também existe a questão da pesquisa. Se nós realmente quisermos reduzir o custo de produção nas lavouras, temos que entrar com mais pesquisa, com biotecnologia, com nanotecnologia, com conectividade no campo. E essas coisas que eram estranhas à “roça”, há bem pouco tempo, agora precisam estar no meio dela.

É preciso qualificar também o homem do campo…
A outra questão é assistência técnica e extensão rural. Não se pode imaginar que é possível pegar a média e a pequena propriedade e conseguir chegar do nada a altos graus de produtividade internacionais. Principalmente com produtos que não são de cadeias produtivas robustas. Estamos falando de quem produz rabanete, couve, alface, abacate, melão, limão… que planta estes itens menos conhecidos. Nós podemos ter um portfólio de exportação com cerca de 160 produtos, mas estamos trabalhando com apenas 18. Para ter isso é preciso levar para a pequena e a média propriedade o conhecimento e a tecnologia, e transformar o pequeno proprietário em um grande produtor. A história de dizer que não pode por que ele é um pequeno agricultor é um equívoco. Aqui no Rio Grande do Sul temos muitas pessoas com 10 hectares e que são grandes produtores de avicultura. Apenas o tamanho da terra não determina se é pequeno ou grande produtor.

Temos um problema histórico da falta de conectividade no campo, o sinal do celular em muitos lugares não chega. Como solucionar?
Temos um projeto, de R$ 22 bilhões, para que o grande proprietário possa se autofinanciar. E quando a grande propriedade se autofinancia, acaba ajudando parte da estrutura privada ou pública que está na volta. Depois, acoplamos isso à média propriedade e fizemos um sistema de parceria. Parte o proprietário põe em recursos, parte o poder público. Depois, por último, poderemos fazer na pequena propriedade. O Estado tem de participar desse processo. Este projeto de conectividade foi feito por nós, pela frente, coordenado pelo Fernando Camargo, do Ministério da Agricultura. Está pronto para ser votado está na Câmara. Pronto, uma ferramenta da melhor qualidade.

Falta crédito também para o produtor?
Temos que “curar” essa coisa chamada crédito. Ele não pode ser o que empresta contra o que toma. Crédito é uma estrutura que está no meio, tem que ser sã, protegida. Então, para ter crédito agrícola por bom preço, tem que ter seguro, e o seguro passar a  fazer parte do custo de produção. Quando vou calcular o custo da minha lavoura eu já ponho 1% dela para destinar ao seguro. No Brasil inteiro tem que ser regra, não é o governo dando um “segurinho” para alguns, é ter 100%. Porque a base de incidência reduz o volume. Se toda a lavoura brasileira tem seguro, então o seguro passa a ser 0,0 alguma coisa por cento. Se só algumas lavouras têm seguro, então precisa ser 2%.

O spread no Brasil e tradicionalmente alto, não? E como fica com a Selic na faixa de 5%, como a atual?
Não adianta ter uma Selic baixa, uma inflação baixa, e o dinheiro chegar na mão do produtor a 17% como ocorre hoje. Se tem uma inflação de 3,5% e empresta dinheiro a 17%, isso é agiotagem. E porque que empresta? Porque sai com taxa Selic, depois tem o spread do banco, que é o risco, e põe mais 3,5 % de inflação, depois põe um seguro, um cartório, uma análise de balanço, uma análise de projeto…  E o dinheiro vai chegar com esses penduricalhos todos, que são os sócios ocultos. O recurso financeiro se torna muito caro ao agricultor. Isso nós estamos desregulamentando. A MP do Agro vai desossar isso para que o produtor tenha acesso a recurso muito mais barato do que ele tem hoje.

No mercado de carne, a China é nosso grande cliente, comprou mais esse ano e estamos num debate sobre o preço da carne para o consumidor. Para o produtor está bom, mas temos como chegar num equilíbrio no varejo?
Tem um mercado de bovinocultura há dez anos reprimido. É o preço do bezerro, que era o mesmo preço há dez anos. O que significa? Que eu tenho que produzir com o menor custo possível. Então eu largo ele no campo extensivo e deixo engordando do jeito que dá. A margem é muito pequena. O preço da carne sobe por mais de um fator. Não sobe só por causa da China, tem outros interesses comerciais envolvidos, inclusive dos grandes compradores. A carne bovina brasileira está monopolizada.

Centralizada na mão de grandes vendedores?
E grandes compradores, os grandes clientes. Não é só um fator, por causa do mercado da China. Se eu tinha um boi que, para levar até o abate, demorava três anos porque o custo de produção era muito elevado, não tem renda. Agora não, sobe o preço da carne, o boi vai para o confinamento. Então, eu reduzo esse tempo pela metade. Só que não há ventres suficientes para produzir todos os bezerros que eu queria do dia pra noite. Mas, posso pegar todas as vacas de leite que nós temos hoje e alugar o ventre. Posso pegar todos e inseminar com Angus, Brangus…  posso botar o que eu quiser lá, Nelore. O produtor de leite vai ter a vaca produzindo leite normalmente e o bezerro extra já adquirido. Isto vai aumentar enormemente o volume de bezerros sendo produzidos. O bezerro valia R$ 900 há pouco. Quanto vale hoje? Perto de R$ 2 mil.

Então é o mercado é que está mudando?
Vai mudar mais. O que irá acontecer? O mercado não vai voltar a ser o preço que era, mas não vai ser a loucura toda que foi antes porque, agora, o que tem é incapacidade de produzir um volume. É momentânea, mas logo depois o mercado se estabiliza. Estabilizado, normal, não tem nada de loucura. Nós também como todo mundo, vamos comer mais suínos.

Por: Cristiano Vieira
Fotos: divulgação