Agronegócio segue adiante apesar dos percalços

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Historicamente mais resistente a crises, o agronegócio brasileiro atravessou 2020 assustado com a pandemia de coronavírus, mas ainda assim vai terminar o ano colhendo números positivos em sua maioria, como safra recorde grãos, exportações em alta e maior demanda por alimentos no mercado interno. Para 2021, a perspectiva é positiva mas com certo pé no chão, porque muito do que se programa para o próximo ano depende do controle da pandemia por meio de uma vacina, o que ainda não existe de concreto.

Nicole Rennó – Pesquisadora do Cepea

“Por incrível que pareça, foi um ano muito bom para o agronegócio em geral, apesar da pandemia. Eu diria até que, por conta da questão do coronavírus, o setor foi beneficiado em alguns casos, como na demanda maior por alimentos”, explica a pesquisadora de macroeconomia do Cepea, Nicole Rennó.

Conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o PIB do agronegócio apresentou melhora nos meses finais de 2020. Em junho, a perspectiva era de alta de 1,6%, mas esse percentual aumentou para 1,9% em novembro.

A estimativa de maior crescimento é explicada pela melhora nas previsões do IBGE para componentes importantes – em termos de valor adicionado – da lavoura e por números mais positivos também para a pecuária, em especial decorrentes das revisões dos resultados observados de produção nos últimos meses.

A maior alta deve ocorrer nas lavouras (3,9%). A soja teve crescimento revisado de 6,6% para 7,0% e segue como o produto com maior peso no valor adicionado da lavoura. “O aumento da demanda no mercado internacional, combinado com a queda na produção de soja dos Estados Unidos, um câmbio favorável para as exportações e boa produtividade foram responsáveis pela expansão da produção nesta safra e pela manutenção da posição de maior produtor mundial do grão”, informa nota técnica do Ipea.

Entre as culturas de inverno, destaque para a produção de trigo. Com clima favorável, aumento de produtividade e demanda aquecida, a expectativa para 2020 é de aumento de 30,6% da produção.

Esse bom cenário deve se estender para 2021, com perspectiva de alta de 2,1% no PIB do agronegócio, de acordo com o Ipea. Destaque para a pecuária, com crescimento previsto de 3,9%, com contribuição positiva de todos os segmentos – bovinos, frango, suínos, leite e ovos – liderados pela produção de carne bovina.

Nos grãos, a soja deve continuar puxando os preços para cima. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) espera uma alta de 4,7% na produção nacional de soja em 2021, chegando a 132,6 milhões de toneladas. Segundo a entidade, as exportações do próximo ano devem somar 83,5 milhões de toneladas, crescimento de 0,29% em relação a 2018, último recorde dos embarques da oleaginosa.

A expectativa, de acordo com a Abiove, também é de continuidade no aquecimento da demanda nacional por farelo e pelo óleo de soja, estimulando a atividade industrial do setor, que responderá com processamento recorde, totalizando 45,8 milhões de toneladas. A produção total de farelo está prevista em 34,9 milhões de toneladas e a de óleo de soja em 9,2 milhões de t.

O milho, por sua vez, pode viver um momento delicado em 2021, caso a falta de chuvas no Sul do Brasil continue. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita total de milho deve atingir 105,2 milhões de toneladas no próximo, um recorde para o grão. Especialistas alertam, contudo, que o efeito La Niña já está comprometendo parte das lavouras no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Com isso, a safra de milho pode cair nesses estados, pressionando ainda mais os custos com ração animal.

A área cultivada com arroz deve aumentar 1,6%, mas a equipe da Conab estima que a produtividade pode não ser tão boa quanto a da última safra. Caso se confirme a redução de 4,2% do volume colhido por hectare, a produção nacional de arroz será de 10,8 milhões de toneladas, ajustada ao consumo previsto. As exportações do grão, por sua vez, podem diminuir em cerca de 400 mil toneladas.

Nicole, do Cepea, ressalta que a agropecuária não passou livre pela pandemia, pelo contrário, mas houve problemas pontuais em momentos diferentes e setores diferentes. Exemplo foi a redução de mão de obra durante a colheita do café.  “Ao mesmo tempo tivemos grandes desempenhos. Independentemente de pandemia, tivemos uma safra recorde de grãos, que foi planejada no ano passado e se confirmou”, relata Nicole.

Nas exportações, Nicole destaca o forte impulso vindo do mercado externo, com destaque para a China. “Eles continuaram comprando carne, grãos, e tivemos um câmbio muito favorável a quem exporta”, avisa.

Outro aspecto importante é que a demanda de produtos alimentares é menos sensível a crises – em caso de queda na renda, as pessoas deixam de consumir produtos não essenciais para garantir a alimentação, e foi o que ocorreu em 2020.

A pesquisadora do Cepea conta que o auxílio emergencial teve um papel muito importante no sentido de suprir a demanda doméstica por alimentos. Foi ele que garantiu a alimentação na mesa para muitas famílias. Setores como o arrozeiro perceberam forte alta no consumo, o que levou inclusive a elevações de preços no varejo.

2021 pode ser um grande ano desde que chova
Para o presidente da Farsul, Gedeão Pereira, o desempenho do agro neste ano pode ser considerado bom, apesar do fator coronavírus e, especificamente no Rio Grande do Sul, a estiagem do verão passado, que causou fortes perdas no campo. “Houve valorização geral das commodities e também das carnes, mas tivemos problemas com a seca, que levou parte do nosso milho e da soja”, relembra ele. Para 2021, outra estiagem que já começou a se desenhar no Rio Grande do Sul traz apreensão para os próximos meses.

Gedeão Pereira – Presidente da Farsul

Gedeão lembra que muitos produtores conseguiram preços melhores este ano, mesmo com todos os problemas. Apenas o arroz, por exemplo, passou de R$ 48,00 a saca de 50kg em janeiro para R$ 104,00 no fim de novembro (alta de 116%). No milho, a saca de 60 kg pulou de R$ 49,00 no início de janeiro para R$ 80,21 em novembro (valorização de 61%); a soja dobrou de preço, passando de R$ 82,81 no início deste ano para R$ 163,00 em novembro.

Por outro lado, essa valorização dos grãos tem causado preocupação na suinocultura e na avicultura, setores que dependem fortemente da ração animal. O custo tem sido pressionado e muitos produtores devem reduzir a produção para tentar diminuir prejuízos. “Estamos com falta de milho para fazer ração, já que parte da nossa safra foi levada pela falta de chuva”, lamenta o presidente da Farsul.

Ele concorda que o auxílio pago pelo governo federal foi decisivo nesses resultados. “Também houve uma mudança no hábito alimentar das famílias. Com a reclusão, as pessoas voltaram a cozinhar, o que impactou fortemente no arroz, por exemplo,” ilustra.

Para 2021, Gedeão destaca que, além da falta de chuvas no Sul, outra preocupação é a redução no consumo das famílias, o que deve ocorrer caso o governo não estenda o pagamento do “coronavoucher”. Ele se mostra otimista, mas faz um alerta: “acredito que será um ano extraordinário, desde que chova”, finaliza Gedeão.

Clima tem sido maior desafio
Para o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva, 2020 foi um ano singular. “Eu não me lembro de, no mesmo ano, tantos eventos adversos. Tivemos seca lá no início, depois um ciclone-bomba, depois enchente em algumas regiões, e agora estamos entrando em outra estiagem – isso sem contar o coronavírus”, destaca ele.

Vários fatores devem ser considerados na análise de 2020, conforme Joel. Os preços dos grãos estão em um patamar elevado, o que ajudou a levar mais renda ao campo. Por outro lado, os custos com ração já preocupam produtores de carne e o setor leiteiro.

Carlos Joel da Silva – Presidente da Fetag-RS

Joel conta que nas regiões do Alto Uruguai e das Missões os efeitos da seca são bem evidentes. “Não tem mais pastagem e falta ração para os animais. O milho plantado em agosto não deve ser colhido, então temos uma excelente notícia de preço bom mas sem produto”, lamenta. Joel pondera que 2021 parece ser um pouco mais positivo, com a expectativa de começar bem o ano, desde que o clima ajude.

Outra expectativa para a agricultura familiar é o retorno das feiras presenciais, o que deve ocorrer com a Expodireto em março do próximo ano. “A valorização da agricultura e da pecuária passa por esses eventos. As agroindústrias investem o ano todo e projeta seus ganhos nas feiras. Acreditamos nessa retomada”, conta o presidente da Fetag-RS.

No leite, é preciso reduzir os custos
A produção de leite neste ano, assim como outros setores do agronegócio, teve um desempenho com altos e baixos devido à pandemia e outros fatores. Em diversos momentos o preço chegou a subir, muito puxado pela demanda maior das famílias graças ao auxílio emergencial, mas depois caiu devido ao crescimento das importações e alta nos custos de produção.

Para Darlan Palharini, secretário-executivo do Sindilat, houve um baque inicial no setor leiteiro ainda em abril, com o fechamento de restaurantes e pizzaria, impactando as vendas de queijo.

A partir de maio começou a haver uma recuperação nos preços, com aumento no consumo. A época coincide com o maior período de isolamento social, com as famílias fazendo refeições em casa, aumentando, assim, a demanda por alimentos.

Darlan Palharini – Secretário Executivo do Sindilat

Conforme Palharini, devido à estiagem que atingiu o RS no verão passado, a produção de leite atrasou em quase dois meses e se recuperou apenas a partir de julho. Setembro coincidiu com a entrada da produção leiteira de Minas Gerais e Goiás, região que responde por 40% do leite nacional. O setor tem desafios pela frente, como uma nova estiagem que já atinge o campo, reduzindo o pasto disponível, o aumento das importações e também a questão tributária.

Em novembro, reunião de entidades do setor mostrou a preocupação com as importações. De acordo com Alexandre Guerra, coordenador da Aliança Láctea e presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios do RS (Sindilat), o ano atípico, que mexeu com o mercado mundial, trouxe reflexos nos custos, nas relações de consumo e também nas importações.

Se até agosto o câmbio ajudou a segurar a entrada de produtos, a valorização da moeda norte-americana não conseguiu impedir esse movimento praticamente em todo o segundo semestre. “Saímos de uma média de 9 mil toneladas por mês para 23 mil toneladas mês importadas”, afirmou Guerra.

Para o coordenador da Aliança Láctea, nada pode ser feito em relação a acordos vigentes do Mercosul, assim como não há como buscar sobretaxas a produtos de outros países. “Isso é fato. O que devemos é buscar competitividade para sermos atrativos tanto aqui quanto lá fora”, pontuou Guerra. Segundo ele, esse processo passa pelo preparo das indústrias em atender demandas de diferentes mercados, atenção a processos de qualidade, foco em sanidade animal para que não criem barreiras ao produto nacional e aumento de produtividade vaca/ano.

De fato, segundo o Cepea, a grande dificuldade para o setor neste final de ano está em equalizar a demanda, sensível aos elevados patamares de preços dos lácteos, com a oferta que deve seguir restrita, já que a ocorrência de La Niña deve impactar negativamente a atividade leiteira nos próximos meses. Além disso, as expressivas altas dos custos de produção nos últimos meses (atreladas, sobretudo, à valorização dos grãos) impossibilitam investimentos na atividade, além de já comprometerem as margens dos produtores.

O ano de 2021 ainda é uma incógnita para o setor leiteiro, isso porque 202 se encerra com a perspectiva de uma nova estiagem no Sul do país, custos de produção em alta e continuidade ou não dos benefícios emergenciais que foram muito importantes no aumento consumo.

Para as cooperativas, ano está em plena atividade
As agroindústrias nunca exportaram tanto, o crédito está em alta e as cooperativas de saúde, assim como as de infraestrutura, estão a pleno vapor. A avaliação positiva de 2020 é do presidente do Sistema Ocergs, Vergílio Perius, que ressalta as dificuldades impostas pelas perdas com a estiagem do verão passado no setor agropecuário. “Temos que compensar os danos de uma seca que nos tirou R$ 15 bilhões da safra”, avalia ele, referindo-se às perdas com milho e soja neste ano no Rio Grande do Sul.

Vergílio Perius – Presidente da Ocergs

Para 2021, um alerta será a falta de vagas de trabalho no pós-pandemia. Se nada for feito, Perius destaca que o País poderá chegar a 30 milhões de desempregados – atualmente, são 13 milhões de pessoas sem trabalho. Uma das saídas é criar mais vagas nas agroindústrias, em setores como processamento de soja, leiteiro e de carnes. “A agroindústria agrega três vezes mais vagas do que apenas produzir commodities”, destaca ele.

Em outra frente, a criação de vagas pode se intensificar na construção civil por meio das cooperativas de infraestrutura. “O Brasil precisa de 6 milhões de moradias populares, há uma enorme falta de habitação. Cada metro quadrado na construção civil absorve o trabalho de três pessoas”, diz Perius.

Sobre a estiagem prevista para 2021, Perius chama a atenção para uma alternativa de menor custo que a irrigação para resolver a escassez de água no campo: a perfuração de poços. “O custo é bem menor, você instala uma bomba e retira água. Diretamente do Aquífero Guarani, no solo, a 200 metros de profundidade. Temos que aprender a explorar essa água”.