Precisamos nos privatizar!

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A recente tentativa do Congresso em estragar umas das poucas coisas que funciona no Brasil, que são os aplicativos de transporte, sob a alegação de “regulamentar”, cristalizou em mim uma opinião, uma ideia, uma convicção: precisamos, urgentemente, nos privatizar.

Devemos exigir nossa privatização, sob a ameaça de uma guerra santa contra governos e políticos. E a razão é muito simples, temos Estado demais, governo demais, política demais em nosso país. Resolver aquelas questões cruciais, como segurança pública, educação, e saúde, eles não resolvem, mas se meter onde não devem, como é o caso dos aplicativos, aí se metem.

O Uber, Cabify, 99 Pop e outros aplicativos já empregam cerca de 500 mil pessoas no país, ou seja, já fizeram mais pelos brasileiros que toda a política de emprego e renda do governo federal nos últimos quatro anos. São mais de 15 milhões de usuários, que trocaram o serviço ruim, caro e monopolizado dos táxis, pelo conforto de um carro limpo, bem cuidado, que vai buscar e levar em casa, dirigido por motoristas cordatos e que estão sob a avaliação constante e eficaz do usuário.

 Os aplicativos não beneficiaram apenas a classe média, que passou a economizar em táxis, mas, especialmente, as populações de menor renda, que pouco ou nunca usavam táxis. O pessoal das comunidades populares passou a usar os aplicativos para buscar atendimento médico à noite, para se divertir nos finais de semana com a certeza de ter transporte para voltar pra casa e como alternativa aos ônibus, também caros e ruins.

Enfim, todo mundo saiu ganhando com os aplicativos. Essa, aliás, é a grande característica dos negócios surgidos na nova economia. Eles quebram lógicas tradicionais, diminuem intermediários, ampliam e barateiam serviços e empoderam os usuários/clientes.  Isso é uma maravilha para o cidadão, mas é visto como uma ameaça por governantes e políticos, por uma razão muito simples: eles estão perdendo poder, ficando à margem da sociedade, que vai se autoregulando, autogerindo.

É por isso, mais do que qualquer outra razão, que eles não aceitam “novidades” como o Uber. Como pode haver um serviço em que o Estado não impõe as regras? Como pode haver gente trabalhando e gerando renda sem a “proteção” da legislação trabalhista?

Perdeu playboy! Assim como os taxistas, os políticos e os governos estão sendo hackeados e ficando de fora do jogo, porque as regras agora são outras, a sociedade está conquistando a sua liberdade, a sua alforria. Os aplicativos de transporte são apenas um exemplo, mas existem inúmeros outros (aluguel por temporada, médicos em casa, advogados online, etc), que subvertem as regras do século passado e ampliam o poder do consumidor. E isso veio pra ficar, não adianta os perdedores do trem da história estrilarem, não tem como parar a nova economia.

E para que isso aconteça de uma forma, ainda mais ampla e mais rápida, precisamos nos privatizar, depender o menos possível de governos e políticos. Não precisamos da sua proteção, a não ser ficar protegidos deles mesmos. Aos governos deverá restar o papel de prover saúde, educação e segurança. A propósito, há poucos dias foi divulgado o mapa da violência no Brasil, que registrou mais de 61 mil homicídios no país, em 2016. Mais de 170 assassinatos por dia no território nacional. Com isso sim é que os governos e os políticos devem se ocupar seriamente. O resto deixa com a gente!