Perigo: carga tóxica – parte 1

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Na freeway, rumo à praia, logo atrás de um caminhão destes com carga líquida, perco-me lendo placas de aviso: perigo carga tóxica; ao lado desta vem outra com o desenho de uma árvore caída e de um peixe morto. Fiquei divagando nas figuras. Imaginei o produto transportado vazando e me deixando com a cara do peixe morto com cruzinhas nos olhos. “Que diabos tem ali dentro!?”, penso, mas não falo.

Ultrapassamos o veículo e, na lateral, brilhando e bem escrito dizia: “Óleo fulano de tal” e logo abaixo: “Compromisso com o meio ambiente”. Confesso que buguei. Levei alguns segundos para conseguir dar vazão a tantas teses de comunicação que acalento e outras práticas pelas quais luto até que consegui dizer ao meu amado, no banco do lado: “Caraca” seguido de um “Tá tudo errado”. Ele me olhou e deve ter pensado: “Xi, lá vem textão”.

Isso é verdade e faz um par de meses. De lá para cá este artigo fica entalado nos dedos, mas tá saindo. Numa distância de poucos metros uma empresa diz (a lei manda) carga tóxica, matamos e poluímos para logo mais dizer: compromisso com o meio ambiente (também em obediência à lei). Eu sei que as situações podem (e devem) andar juntas. Quem polui, me incluo, tem que ter responsabilidade e compromisso. E não sou das que se ilude com impacto zero. Eu realmente não consigo, ainda, acreditar que este conceito possa ser alcançado. Mas, eu sei que a comunicação pode e deve nos colocar numa estrada cujo destino seja mais o próximo do real onde poderemos associar posicionamento, responsabilidades, anseios e valores.

A partir dali fiquei imaginando: que óleo era aquele e o quanto precisamos dele para levarmos a vida que a gente leva? Não sei, e, talvez, a empresa nem queira nos contar. Não por falta de valor no produto, mas, talvez, porque tenha sido convencida de que a comunicação tem que ter verniz e, às vezes, a camada é tão espessa que faz perder a transparência, e, logo mais, a credibilidade.

Fiquei pensando que solução eu daria. Eu não sei, porque nada pude pesquisar sobre aquela empresa e seu produto, mas centralmente me oponho a conectar uma marca à uma anti-narrativa. Compromisso com o meio ambiente é imperativo, mas não é esse o objetivo central da empresa. E a utilizo para me referir a tantas outras. Se formos a fundo ler políticas ambientais, relatórios sociais, projetos e ações, veremos uma grande similaridade de conceitos, palavras e fatos e isso não as torna não poluidoras e não garante que os acidentes não ocorram (diminuem, acredito).

A questão que me invadiu foi: por que não falamos do produto? Qual problema em reforçar o valor do que se produz? É feio? Essa escolha de comunicação que coloca tinta verde (sugestão substituir tinta verde por maquiagem verde que já é um termo usado em inglês para se referir a isso, cuja tradução não é literal, mas seria greenwashing) em quem polui ou óculos rosa em quem impacta não só perdeu a força como estratégia como não colabora para formação de uma sociedade mais conectada às suas responsabilidades e escolhas.

Fica fácil terceirizar a culpa por acidentes aos grandes grupos sem que a gente se dê conta que o que eles fazem está na nossa casa e nas nossas mãos: a gente compra tudo e se lambuza, algumas vezes. E não estou aqui puxando iguais responsabilidades para o cidadão e para as corporações. Mas, refletindo no impacto da comunicação e suas narrativas no sentido de tornar sociedade mercado e como tal comunicar fracionado, segmentado e alterado. A sociedade é a sociedade e ela gera riquezas, valores, marcas, produtos, impactos com grandes, médias e pequenas empresas, com ética, sem ética, com lucro ou prejuízos. Todas estas relações também são humanas! Porque a comunicação não deveria ser? E como tal é um direito. E ainda assim não precisa ser burocrática, sem graça ou sem recursos que nos ponham a sonhar e projetar.

E eu ainda querendo entender se o óleo cuja placa de aviso tinha aquele peixinho morto não é o que garante funcionamento de algum equipamento em UTI hospitalar. Não sei. Dali só ficou uma história de trás para a frente, que inicia com perigo e termina com promessa de compromisso. Vou tentar acreditar.
(o artigo terá uma segunda parte)