Pequenas cooperativas em busca de grandes mercados

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A máxima de que a união faz a força nunca foi tão verdadeira, quando o assunto é cooperativismo. É por meio do trabalho cooperativo que famílias de pequenos agricultores, espalhadas pelo Rio Grande do Sul, encontram melhores condições de preço, armazenamento e distribuição de sua produção.

Por meio do Programa Extensão Cooperativa (PEC), a Emater atende a 192 cooperativas de agricultura familiar apenas no Estado. “Atuamos com cerca de 57 mil famílias”, destaca Francisco Manteze, assistente técnico em cooperativismo da Emater.

E quais as vantagens para o produtor participar de redes formadas por cooperativas? Diversas. Conforme Manteze, conseguir escoar a produção por meio de um canal de comercialização é uma das principais demandas. “Na agricultura familiar, além do consumo próprio, muitos agricultores já têm uma produção excedente e diversificada. Caso da fruticultura, em que há mercado”, explica.

A cooperativa também ajuda a organizar o acesso a mercados consumidores, regulando melhor essa relação. Entre os benefícios está a compra em conjunto, uma modalidade que tem ajudado muito as cooperativas de menor porte.

Um dos setores mais atingidos pela crise recente e que convive com altos e baixos no preço, a produção leiteira oriunda de pequenas cooperativas caiu muito no Rio Grande do Sul. “Antes da operação Leite Compensando, atuávamos com 56 cooperativas de leite. Hoje, caiu pela metade. O pessoal tinha o mínimo de estrutura, um vendia para outro, e no caminho acontecia muita coisa. As indústrias deixaram de comprar este produto”, conta Manteze.

Enquanto muitos saíram da atividade, quem ficou busca a profissionalização. O leite é visto como commodity, então o custo de beneficiamento é elevado. “Você tem uma estrutura cara para transformar o produto em UHT ou leite em pó. As pequenas cooperativas, neste sentido, auxiliam bastante”, afirma o especialista da Emater.

Um dos mercados mais interessantes para o pequeno agricultor organizado em cooperativas é de compras institucionais, por meio de programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos). Neste ponto, o programa da Emater exerce um papel importante no sentido de orientar a agricultura familiar a atender aos requisitos para participar da modalidade. São realizadas reuniões de articulação entre as cooperativas e as entidades que executam as políticas institucionais.

Um dos exemplos é a Cooperativa Mista Campos de Viamão (Comcavi), integrada por produtores rurais dos segmentos de leite, os fruticultores, os hortigranjeiros e agroindústrias familiares. A Comcavi está próxima de um grande mercado consumidor, a Capital, o que já reduz gastos com distribuição. A produção de iogurte e leite, por exemplo, é terceirizada, ocorrendo em Taquara. Com isso, conseguem acessar mercados institucionais. Como não tem escala para o varejo, o destino é mesmo a venda institucional, como merenda escolar.

Redes: articulação que rende frutos
Uma outra modalidade de cooperação é a interligação de cooperativas por meio de redes. No Rio Grande do Sul, a Associação da Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e da Economia Solidária (RedeCoop) reúne 39 cooperativas, em 30 municípios, envolvendo mais de 12 mil famílias.

O objetivo é promover a intercooperação e conectar cooperativas da agricultura familiar, de assentamentos da reforma agrária e empreendimentos da economia solidária do Rio Grande do Sul, para abastecer mercados institucionais públicos e privados com alimentos de qualidade.

Outro ponto é a redução de custos e melhor aproveitamento logístico. “As cooperativas formam uma cadeia, digamos. Enquanto uma manda um caminhão cheio para outra região, esse caminhão retornaria vazio, normalmente. Com a intercooperação, o caminhão pode voltar carregado de produtos. Isso otimiza os gastos com frete, por exemplo”, explica Manteze.

A cooperação é um dos modos de alavancar negócios por meio da agricultura familiar – os pequenos produtores respondem por 70% dos alimentos produzidos no País. Conforme levantamento do Ministério da Agricultura, a agricultura familiar tem um faturamento anual de US$ 55,2 bilhões, ou seja, caso o Brasil tivesse apenas produção familiar, ainda assim seria um destaque mundial na produção de alimentos.

A agricultura familiar é a base da economia para grande parte dos municípios brasileiros até 20 mil habitantes. Além disso, é responsável pela renda de 40% da população economicamente ativa do País e por mais de 70% dos brasileiros ocupados no campo.

Os pequenos estabelecimentos rurais colocam no mercado, ainda, 34% do arroz nacional, 46% do milho, 38% do café e 21% do trigo. O segmento também responde por 60% da produção de leite e por 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos.

Para o secretário de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário, Jefferson Coriteac, o crescimento do Brasil passa pela agricultura familiar. Os números fazem parte de uma comparação entre dados do Banco Mundial e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.