Pedro Ernesto Denardin – “Se eu disser que sou colorado ou gremista, metade da torcida rival não vai me ouvir. Eu faço a alegria da torcida, é o que o narrador tem que fazer”

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Pedro Ernesto Denardin

Poucas vozes são tão reconhecidas no Rio Grande do Sul quanto a Pedro Ernesto Denardin. Aos 68 anos, o radialista e narrador é uma figura carimbada do rádio gaúcho, especialmente da cobertura esportiva. Com frases marcantes – muitas vezes polêmicas – e um estilo de narração inconfundível.  Criado no bairro Glória, em Porto Alegre, Denardin, que fora taxista dos 18 aos 21 anos, começou a narrar futebol em 1973, quando participou de um concurso da Rádio Gaúcha. Ficou em segundo lugar (o vencedor foi Newton Azambuja), mas foi chamado por Marne Barcelos para ser narrador da Rádio Farroupilha. Sua primeira narração foi a vitória do Internacional sobre a Portuguesa, por 1 a 0, no estádio Beira-Rio, em 12 de dezembro de 1973.

Já na Rádio Gaúcha, em 1978, participou da cobertura da Copa do Mundo da Argentina. No mesmo ano, assumiu o programa Show dos Esportes. Com a aposentadoria de Armindo Ranzolin, assumiu o posto de primeiro narrador da Gaúcha em 1996, quando narrou o primeiro clássico Grenal. Em 2012 passou a comandar o Sala de Redação, tradicional programa de debates da Gaúcha.
Com 45 anos de rádio, Pedro Ernesto Denardin diz que não planeja se retirar tão cedo da narração. “Vou trabalhar até que tenha saúde”, afirma. Nesta entrevista para revista Press, Denardin fala sobre sua carreira, a cobertura da Copa do Mundo, as mudanças no jornalismo esportivo e outros temas.

Essa foi tua 11ª Copa do Mundo, a primeira foi a de 1978 na Argentina. O que teve de diferente nesta, em relação às outras?
Se compararmos com a Copa feita no Brasil, em 2014, e a da África do Sul, em 2010, a da Rússia foi, imensamente, melhor. Em organização, transportes, estádios, atendimento ao público. Para dar uma ideia, no último jogo, cinco horas antes da partida já estavam abertas as tendas de alimentação com 30 check outs. Ao passo que no Brasil e na África do Sul teve problemas de transportes, estádios que não estavam prontos.

Dá pra aproveitar as cidades numa cobertura de Copa?
Não muito. Posso dizer que conheço superficialmente cinco cidades da Rússia. A mais difícil de conhecer é Moscou, porque é muito grande, é uma São Paulo, com quase 20 milhões de habitantes, cheia de automóveis, engarrafamento. No entanto, lá tem um serviço de metrô extraordinário, melhor que o de Paris. Cidades como Samara, Rostov, Kazan, dá pra conhecer bem melhor, porque são menores.

O astral das copas é parecido ou muda conforme o país?
É muito parecido porque as torcidas são geralmente as mesmas. O que houve na Rússia foi um esquema de segurança mais forte, eles têm uma ideia de autoproteção forte.

E a população, o que deu para sentir deles em relação ao governo do Vladimir Putin, em relação à política?
Uma parte da população, que durante o regime soviético tinha, através do governo, emprego e benefícios garantidos, não precisava apresentar resultados para sobreviver, não está gostando do capitalismo. Mas, os que não tinham, e acho que são a maioria, pelas pessoas que encontrei, acham que melhorou bastante, eles têm acesso a várias coisas que não tinham.

Essa foi uma copa onde “todo mundo era João”, onde nenhum time se destacava?
Teve muitos times iguais, não houve um grande time, um grande jogador. Fiquei um pouco decepcionado com a Copa. A ponto de chegar em Porto Alegre, ver o jogo do Grêmio contra o Atlético Mineiro e ficar maravilhado. Não vi aquilo na Copa. Não vi um grande time com superioridade, que tenha jogado, avançado.

O Brasil merecia ter ganhado?
Acho que sim. O Brasil foi melhor do que os outros, mas foi eliminado por um jogo acidental. O Brasil era melhor que a Bélgica, nós ganharíamos. Mas, daí levamos um gol contra. Então ataca, e toma um contra ataque, dois a zero. Daí fica difícil.

O que teve de diferente dessa derrota contra a Bélgica para o 7×1 contra a Alemanha? Naquele caso, o resultado também não se deu por uma circunstância?
Sim, mas tem que pegar o histórico da Seleção comandada pelo Felipão. Em 2014, contra a Croácia ganhamos com erro de arbitragem. Empatamos com o México. Quase perdemos pro Chile. Quase perdemos para a Colômbia. O Brasil não teve uma manifestação de superioridade como teve nesta última Copa. No caso do Mundial do Brasil, nós não perdemos para o Chile por detalhe, teve bola na trave no segundo tempo, o goleiro fez uma defesa maravilhosa, a gente iria ser eliminado pelos chilenos. Era pra ter sido eliminado pela Colômbia. O Brasil não ganhou do México, agora ganhamos dos mexicanos, e com sobra. Já no caso do 7×1, temos que analisar duas coisas. Primeiro, o Brasil foi mal escalado pelo Felipão. Ele colocou o time pra frente, pronto pros alemães fazerem qualquer ataque, porque eles chegavam e não tinha ninguém pra marcar, e foram empilhando gol. E segundo, são aquelas coisas anormais que acontecem em futebol, entrou um gol, entraram dois, daí quando vê são quatro ou cinco.

Como explica que a Alemanha campeã do Mundo em 2014 seja eliminada, na Copa seguinte, durante a primeira fase?
Isso não é anormal. A França foi campeã em 1998 e não passou da primeira fase em 2002. A Itália ganhou em 2006 e não passou da primeira fase em 2010. A Espanha foi campeã em 2010 e foi eliminada em 2014. Não consigo entender muito isso. Não sei se é salto alto ou não.

Nesta Copa foi adotado o VAR (vídeo-arbitragem). Ele é eficiente? Resolve ou não os problemas?
O VAR é uma tecnologia que veio para ficar. Mas eu não gosto do VAR, por que vai muito da interpretação. Houve pênalti no lance com o Gabriel Jesus contra a Bélgica? Um acha que sim, outro pode achar que não. Em qualquer discussão esportiva cada um tem uma opinião, então não adianta. No futebol, a grande maioria dos problemas são casos de interpretação. E sendo interpretação, cada um tem a sua.

Talvez seja o caso de adotar uma solução como o desafio que é usado no tênis?
É uma possibilidade que seria interessante. Por exemplo, ter dois lances que o treinador do teu time pode pedir para o VAR tirar a dúvida. Acho que aí fica melhor. E o resto, deixa correr, deixa o juiz decidir. Sendo coisas subjetivas não adianta colocar tecnologia. Futebol é feito de erros humanos.

Mas não é sacanagem, por exemplo, uma Copa do Mundo ser vencida por causa de um gol de mão?
Um gol de mão é algo objetivo, dá pra chamar o VAR. Em 1966, a Copa da Inglaterra, os ingleses venceram com uma bola que não entrou no gol. Pelo menos isso tem solução na própria bola, não é interpretativo, a tecnologia de linha de gol mostra se entra ou não. Mas lances com mão podem ser opinião. Ele levantou a mão? Não podia tirar a mão? Começa uma discussão. Na Alemanha houve um caso interessante. Houve um toque de mão numa partida, o árbitro não viu e terminou o jogo. Daqui a pouco manda chamar os jogadores que estavam no vestiário pro campo pra bater um penálti, porque o VAR só marcou a mão depois do apito final. Então, uma coisa dessas não pode deixar para o VAR, tem que entregar para o juiz.

O que mudou no jornalismo esportivo nos teus 40 anos cobrindo Copas?
Em 1978 fiz uma entrevista exclusiva de 30 minutos com o técnico da Argentina, César Luis Menotti, dentro da concentração da Argentina. Hoje, treinador só dá coletiva, dentro de uma sala cheia de propagandas, com uns 200 repórteres. Em 1986, no México, fiz uma entrevista exclusiva de 15 minutos com o Maradona, que viria a ser o melhor jogador da Copa. E isso não tem mais. Hoje é uma multidão, são mais de 15 mil credenciados para Copa do Mundo.

Porque houve tamanho aumento do número de jornalistas? Temos mais veículos, com a internet? Os custos baratearam?
Em 1978, na Argentina, custava de US$ 3 mil a US$ 4 mil a transmissão de um jogo pela linha telefônica. Isso hoje é de graça, por causa da internet. O que é caro é o custo da Fifa, dos direitos. A Rádio Gaúcha deve ter gasto R$ 2 milhões para cobrir a Copa da Rússia. Mais de R$ 1 milhão vai para a Fifa. Gasta-se US$ 6 mil por jogo para ter o espaço no estádio, US$ 20 mil aluguel de escritório para transmissão, que às vezes é melhor até do que estádio para narrador, porque tem muito apoio, sinaliza quando tem VAR, mostra replay, te dá a escalação. Para narrador é bom porque ajuda a não errar, e narrador sempre erra alguma vez.

Tu erras ainda? Está errando cada vez mais?
A tendência é errar cada vez mais (risos). “A bola foi pro fulano”, mas não era ele, e aí? Não tem como narrar o jogo de um time que nunca viu e acertar todos, isso não existe. Até uns 10, 15 minutos tu ficas tateando, depois já sabe como fulano corre, sabe diferenciar.

E na questão de conteúdo, de cobertura, o que achas que mais mudou?
Eu gostava mais antes, a gente tinha mais informações, mais intimidade com a notícia. Como disse antes, falei sozinho com um técnico da Argentina que foi campeão do mundo, por 30 minutos, apenas eu e ele. Hoje tu fazes uma pergunta e cai fora, porque vêm os outros fazendo perguntas também. A gente conseguia entrar no vestiário, batia na porta e pedia para chamar jogador, técnico, para conversar, e eles vinham. Não tinha assessor de imprensa sendo escudo de jogador. Apesar de que acho que é necessário ter assessoria. Hoje tem o cara do blog, TV, internet, rádio, YouTube, são 50 pessoas, o jogador precisa ter alguém que faça sustentação, seleção, senão ele passa o dia dando entrevista. Eu entendo isso. Só que, às vezes, o assessor de imprensa exagera, não libera o contato, e tu não tens mais intimidade com a pessoa. Então o conteúdo jornalístico ficou bem mais pobre.

A linguagem usada também mudou?
Hoje o comentário esportivo está muito no “futebolês”. Às vezes os caras me chamam de velho. Mas o que alguém quer dizer “jogou no 4-1-4-1 com variação para o 4-2-3-1”? E o mapa de calor deu isso, e a posse de bola foi de 78%. Ok, mas o que eu faço com isso? Os times que tiveram mais posse de bola na Copa do Mundo foram eliminados antes. O Brasil perdeu num jogo em que teve mais posse de bola que a Bélgica. Não adianta, tem que ter efetividade. Isso são coisas novas que chateiam. O scout (análise de desempenho) é algo que é o treinador que tem que ter. “Ah, fulano acertou 180 passes.” Pega o Douglas do Grêmio, por exemplo. O Douglas tem o “passe vertical”, a ideia dele é pifar o companheiro e colocar ele na cara do gol. O D’Alessandro, no Inter, também costuma fazer isso. Então, eles têm muito mais chances de errar do que o Edinho, que largava a bola do lado. Largando do lado tu tens que acertar todas. Agora, meter lá na cara do gol para o colega fazer, tem muito mais chance de errar. Eu vi muito jogo em que a informação que se tinha era que quem tinha mais acertado passe era o Edinho. Legal, mas e o que se faz com os passes dele?

Outro exemplo, mapa de calor. Isso não entra em campo. Daqui a pouco o juiz não dá um pênalti ou o Fernandinho faz um gol contra e aí termina a importância do mapa de calor. A beleza do futebol é o imponderável. E a análise do futebol é muito humana, subjetiva.

Quantas copas ainda quer fazer?
Pelo menos uma, acho. Vou trabalhar enquanto tiver saúde. Não tenho data para deixar de trabalhar, e não quero parar. E não é uma questão de não largar o osso. Se chegar um guri que seja melhor do que eu ele vai pegar meu lugar, naturalmente. Vai chegar um tempo que vou sair. Esses tempos mandaram uma carta, dizendo algo como “saiu fulano, saiu sicrano, o próximo vai ser você”. É claro que o próximo vou ser eu, estou com quase 70 anos, não vai ser o Diogo Olivier, que está com 50. É lógico que o próximo sou eu.

Tu tiveste uma doença que te causou problemas, o que foi?
Tive Miller Fisher, que é uma variante da síndrome de Guillain-Barré, que paralisa completamente o corpo. No meu caso, tive paralisia nas pernas e na voz. As causas não são determinadas. Eu fui ao Paraná para cobrir um jogo e comecei a sentir uma dor intensa no corpo, e não passava. Isso foi no domingo. Cheguei na segunda-feira de manhã e minha esposa me levou para o médico, e ele mandou que eu fosse internado. Aí no hospital não consegui mais caminhar, e logo não conseguia mais falar. Fiz uma bateria de exames, não apareceu nada, importaram medicamentos dos Estados Unidos para me dar e comecei a reagir. Mas fiquei 60 dias fazendo fisioterapia e fonoaudiologia.

Já fazia exercícios para a voz?
De 15 anos para cá tenho fonoaudiólogo. A corda vocal é um músculo, se exercitar te dá mais amplitude. Então faço musculação para a voz.

Quais os narradores que mais te influenciaram?
Tem um cara que gosto muito que é o José Silvério, da Bandeirantes. Os do Rio de Janeiro, acho que tem um valor extraordinário, mas ele fazem uma narração muito carioca que não tem sentido aqui. Gostava muito do Armindo Ranzolin, do Mendes Ribeiro, Pedro Carneiro Pereira. Seguia muito a linha deles, hoje já digo umas bobagens que eles não diriam (risos).

Teve aquela vez que disseste, sobre o Diego do Inter: “esse menino, que nem tem ainda os pelos pubianos…”
E o pior é que marca isso (risos). Mas o guri tinha 16 anos. Vou dizer o quê, que não tem carteira de motorista? Isso todo mundo diz.

Outra polêmica foi aquela vez do “Inter rasga a camisa do São Paulo”, não?
Aquilo foi um exagero. Eu me emocionei, 2×0 pro Inter, Morumbi lotado, São Paulo era campeão do Mundo, daí me empolguei. Mas ofendi os caras, isso não dá para fazer, ainda mais hoje, com rede social. Hoje já limpei a barra. Mas com esse episódio meu nome ficou conhecido em todo o Brasil. Só não dei entrevista pra Globo, todo mundo queria saber porque eu disse aquilo. Eu só me emocionei com o gol.

Aqui no Estado sempre se disse que por causa da “grenalização” um narrador, jornalista, não pode dizer para quem torce. Isso ainda é válido?
Se eu disser que sou colorado 50% dos gremistas não vão me ouvir. Se disser que sou gremista, 50% dos colorados não vão me ouvir. Eu faço a alegria da torcida, é o que o narrador tem que fazer. O narrador é um contador de história, ele não tem que ter lógica, não tem que ter dimensão do que está dizendo, ele pode exagerar. Comentarista que tem que colocar as coisas em ordem, “estou achando isso, está difícil aquilo”, etc.

Tu vais pra narração com frases prontas para usar, ou inventas na hora?
Cada jogo é um jogo, cada gol é um gol, não tem o que inventar antes. As coisas não se repetem em futebol. O jogo do Inter contra o São Paulo,na Libertadores de 2006, teve o “demaaais, demaaais”, que pegou. As pessoas imitam, gostam dessas bobagens. Pode fazer uma narração legal, um texto bom, mas daí larga um “não tem completos os pelos pubianos”, isso vira manchete! Uma vez, Libertadores de 2007, Grêmio contra o Defensor do Uruguai, 2×0 para o time uruguaio lá, daí o Grêmio faz 2×0 no jogo de volta aqui, e foi para os pênaltis. Daí foi um dos jogadores do Defensor cobrar, se errasse o Grêmio classificava para as quarta de final. Errou e saiu um “foi lá na casa do cacete”! Isso virou moda depois.

Como fazer uma narração animada se o jogo é chato?
Sim, tem muito jogo chato, mas tem que pensar o seguinte, tem sempre alguém ouvindo, e essa pessoa merece respeito, e tu tens que ter um mínimo de trabalho. Claro, tu podes não estar motivado, mas daí tem que virar um artista, motivar na marra.

O lobby de empresários, assessores, para que jornalistas falem de seus jogadores, clubes, é forte?
Ainda existe lobby, mas não é muito não. Tem empresário, assessor, que fica brabo porque deram pau no jogador dele. Quem fica brabo e me liga para reclamar eu digo: “faz o teu cara jogar bem que eu elogio”. Na RBS a gente tem muito cuidado com isso, e aqui no Rio Grande do Sul acho que as outras empresas também. Mas, em outros estados, sei que tem profissionais que ganham com isso, fazendo merchandising de alguns jogadores, ou clube. Nós cuidamos muito isso porque desmoraliza muito o trabalho. E todo mundo fica sabendo quando acontece. Já chegaram pra mim “fala de fulano, eu te dou 20%, fica só entre nós”, isso nunca fica “só entre nós” (risos). Quem fizer isso está morto. Se eu disser que um jogador é bom, e o cara não joga nada, isso te desmoraliza. Para ter longevidade na carreira não tem como fazer isso.

O que achaste das brincadeiras com a atuação do Neymar na Copa?
Acho até que foi bullying. O Neymar foi mal no primeiro jogo, todo mundo ficou fazendo brincadeira com o cabelo dele. Mas em 2002 o Ronaldo tinha aquele cabelo no estilo Cascão. Ganhou e ninguém falou dele. O futebol tem uma palavra mágica: vitória. Se ganhar está tudo certo, se perder está tudo errado. Se o Brasil fosse campeão virava moda o cabelo do Neymar. Mas e eu pergunto, criticam porque ele cai, mas e quem foi lá pisar na perna dele de propósito, não merece crítica? O Neymar estava caído fora do campo e pisam na canela dele com chuteira.

A imagem do Neymar se recupera?
Sim, claro. Agora vão sair o Messi e o Cristiano Ronaldo, estão praticamente fora da Copa em 2022, pela idade vão ser praticamente ex-atletas. O Cristiano Ronaldo vai ter 37 anos, vai jogar com limitações. O Neymar vai ter 30 anos em 2022. Ele vai ser, a partir de agora, o melhor jogador do mundo.

O que tu achas da nova geração de jornalistas esportivos?
A qualidade dos novos jornalistas é boa. Os jovens estão muito bem informados, porque a televisão coloca tudo dentro da tua casa. Meu filho tem 20 anos e conhece qualquer jogador de qualquer time da Europa, mais que eu. O problema dessa gurizada é que eles dão muita importância para o scout. Quando falam em mapa de calor, eu pergunto: o atendente do posto de gasolina, sabe o que é mapa de calor? Sabe o que é esquema reativo?

Mas na crônica esportiva existiam textos rebuscados, como do Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira…
Não tem problema. No jornal, quem não quer ler apenas vira a página. No rádio, se não quer ouvir troca de estação, e daí tu perdes o ouvinte. Para um jornal isso é possível. Mas na rádio, se o ouvinte não te entende ele muda de estação, e aí se perde o cliente. Isso quem me explicou foi o Ruy Carlos Ostermann, que era um cara que tinha um texto mais rebuscado: no rádio é preciso falar o que todo mundo entende. Eu digo isso para o pessoal mais novo na rádio, se é para falar algo complicado, então traduz: “esquema reativo, que é uma retranquinha amiga”. Se disser que é uma retranca, todo mundo entende.

Entrevista: Julio Ribeiro/Marcelo Beledeli
Fotos: Marcos Nagelstein/Agência Preview