Pecuária de corte: produção com trabalho qualificado

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A mítica figura do gaúcho a cavalo solto pelo campo, correndo com os bois pela imensidão do Pampa, está registrada nos livros da história e no imaginário de muita gente. Esse trabalho artesanal da pecuária, muitas vezes solitário, se viu obrigado a buscar na profissionalização o caminho para o futuro.

Um dos resultados mais vistosos dessa mudança no perfil está no mercado internacional: a carne bovina deixou de ser apenas um alimento para subsistência e virou uma commodity mundial com exportações de US$ 6,3 bilhões ano passado para o Brasil.

À mesa, novos cortes de raças melhoradas geneticamente surgiram para agradar o paladar de um consumidor mais exigente, antes acostumado com a tradicional costela consumida no almoço de domingo. As carnes de qualidade, que têm maior custo, também exigem mais qualificação desde o manejo no campo até o frigorífico.

Informações da Embrapa confirmam os avanços obtidos ao longo dos anos na produção de carne. De 1990 a 2017, a produtividade na pecuária aumentou 146%, passando de 1,63 arroba produzida por hectare para 4,01 arrobas por hectare ao ano. Nesse mesmo período, a área de ocupada com pastagens diminuiu 15%. “Esta elevação de produtividade é reflexo do aumento do uso de tecnologia. Neste sentido, também o trabalhador rural precisou se qualificar para poder atender às novas demandas”, explica Thaís Basso Amaral, chefe-adjunta de transferência de tecnologia da Embrapa Pecuária de Corte (MS).

Thaís Amaral divulgação –  Embrapa Pecuária e Corte

Embora a capacitação na pecuária ocorra em uma velocidade menor que na produção de grãos, Thaís destaca que as transformações estão ocorrendo. De forma geral, o trabalhador rural precisa estar mais preparado para o uso de tecnologias, principalmente no que tange à gestão. “A internet no meio rural é realidade em vários locais e os controles, que antes eram feitos em uma ‘caderneta’, hoje ocorrem diretamente nos aplicativos em smartphones ou tablets”, avisa.

Antônio Pitangui De Salvo, presidente da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), destaca que tanto a pecuária de corte quanto a de leite se adaptaram às normas mais exigentes de sanidade animal e estão atentas às modificações impostas pelo avanço tecnológico na produção.

“Isso tudo tem tornado a pecuária mais eficiente”, diz. Em um comparativo com a forte mudança na agricultura, o dirigente lembra que, há 30 anos, a utilização tecnológica na lavoura era baixa, não se fazia plantio direto e nem se aplicavam sementes melhoradas geneticamente. “A nossa pecuária seguiu o mesmo caminho, investindo no melhoramento genético, no cruzamento de raças, deixando nossa carne com mais qualidade e é isso que está conquistando o mundo”, relata De Salvo.

São diversos os pontos abordados no campo. Em primeiro lugar, segundo ele, deve estar a segurança do trabalhador rural. Não se pode descuidar disto, nem das técnicas de manejo adequadas e da sanidade.

Indo mais além, a pecuária de precisão é uma realidade em diversas fazendas. “Muitos produtores estão quadruplicando a produção de carne por hectare com o uso intensivo da tecnologia. Essa modificação conceitual no modo de produção exige investimento em equipamentos e em capacitação”, avalia De Salvo.

Para Antônio do Nascimento Ferreira Rosa, pesquisador da Embrapa Gado de Corte (MS), não é exagero afirmar que a pecuária de corte brasileira experimentou uma verdadeira revolução em sua história recente.

Taxa de natalidade de 50%, mortalidade até a vida adulta de 15% a 20% e idade à primeira cria e ao abate de quatro a cinco anos, dados vigentes até o final da década de 1970, “deram lugar a indicadores antes inimagináveis, como natalidade de 80%, mortalidade até a vida adulta de 5% e idade à primeira cria e ao abate de 30 meses de idade”.

Em 40 anos, o rebanho bovino mais que dobrou, de 107 para 219,1 milhões de cabeças. De 1977 a 2017, a produção brasileira de carne subiu de 2,4 para 9,14 milhões de toneladas equivalente-carcaça, tendo o peso médio das carcaças passado de 199 kg (13 arrobas) para 248 kg (16,5 arrobas).

Ele vai além e explica que, de importador de carne bovina nas décadas de 1970 e 1980, o Brasil assumiu a condição de maior exportador mundial a partir de 2004, condição que se mantém hoje apesar dos percalços recentes do setor – como a operação Carne Fraca em 2017; os escândalos que atingiram a maior processadora de carne do mundo, o grupo JBS; e os embargos impostos por outros países que, na visão de muitos especialistas, utilizam justificativas sanitárias como artifícios para manter barreiras comerciais.

O sucesso da genética
Antônio do Nascimento Ferreira Rosa afirma que os pesquisadores devem estar antenados no sistema produtivo, no homem do campo, pois vêm deles as demandas de trabalhos de pesquisa. E estes trabalhos só devem ser considerados “acabados”, “prontos”, quando os seus resultados retornam ao campo.

Um exemplo é o melhoramento genético. Conforme explica, desde 1979, em parceria com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), a Embrapa foi pioneira no lançamento dos sumários de touros. “Esta parceria perdurou até 2013, com a produção de 128 edições de sumários e milhares de touros avaliados”, lembra.

Ao longo deste período, além da tecnologia do sumário de touros, também foi implantado o Programa de Avaliação de Touros Jovens – ATJ e colocado à disposição dos criadores o Programa de Melhoramento Genético Embrapa Geneplus, de forma a prestar suporte aos criadores não apenas com as avaliações genéticas de touros, mas também de matrizes e produtos nascidos.

Atualmente, segundo Antônio Rosa, são atendidos pelo Geneplus 419 rebanhos de 10 raças bovinas (Brahman, Guzerá, Nelore; Caracu e Hereford; Brangus, Braford, Canchim, Santa Gertrudis e Senepol), com dados de cerca de 3,8 milhões de animais, espalhados por 17 unidades da federação, além de Bolívia, Paraguai e Uruguai.

Os resultados imediatos do programa de melhoramento genético chegam ao campo por diversos caminhos: diretamente, pelos criadores participantes do Programa Embrapa Geneplus, associações de criadores, centrais de inseminação, leiloeiras, empresas de assistência técnica e consultoria nas áreas de gestão e biotécnicas reprodutivas.

Também os produtores podem ter acesso direto aos sumários de touros por meio de download dos arquivos pela internet, por meio de sumários impressos e de aplicativos móveis disponíveis no Google Play (até o momento para as raças Nelore, Senepol, Hereford e Braford).

O desafio de manter o homem no campo
Muito além da qualificação do trabalhador do meio rural, especialistas ponderam que o desafio maior é, primeiro, mantê-lo no campo, seja no plantio de grãos ou na pecuária.

O engenheiro agrônomo Décio Gazzoni, em artigo recente, alerta ainda para a qualidade do ensino que chega até o trabalhador rural. Conforme ele, a acelerada evolução tecnológica do agronegócio impõe a necessidade de conhecimentos cada vez mais especializados. “A imposição de regras de sustentabilidade para o agronegócio – seja ambiental, social ou econômica – exige uma qualificação ainda maior de quem aceita o trabalho no campo”, conta.

Décio Gazzoni – Embrapa Gado e Corte

Para Gazzoni, também pesquisador da Embrapa Soja, a diminuição do contingente de habitantes nas áreas rurais confere um impulso adicional à automação e à mecanização das lavouras, criando um círculo retroalimentador, no qual a menor oferta de mão-de-obra obriga a um incremento acentuado na automação, o que, por sua vez, reduz a demanda pelo trabalho humano. “Por outro lado, as tecnologias de automação exigem profissionais cada vez mais qualificados”, avisa.

Outro ponto importante, conforme Gazzoni, é que as modificações no perfil de quem trabalha na pecuária estão diretamente associadas com as exigências da sociedade moderna, notadamente a sustentabilidade na agricultura. “O atendimento às questões ambientais e trabalhistas passa a ser um pré-requisito para a produção agrícola. Em especial, persegue-se o aumento da produtividade, pela necessidade de maior eficiência econômica e pelas restrições para expansão de áreas para produção”, conta.

Cursos ao alcance do produtor
É necessário levar a pesquisa dos laboratórios até a prática, diretamente ao trabalhador rural. No caso da pecuária de corte da Embrapa, são oferecidos cursos de grade completa – em Campo Grande (MS) e em Bagé (RS) – e cursos concentrados itinerantes, em diversas regiões do Brasil. Nestes casos, o público-alvo é constituído pela rede pública e privada de assistência técnica, produtores, criadores, gerentes de empreendimentos agropecuários, técnicos em agropecuária, agrônomos, veterinários, zootecnistas, administradores e estudantes de ciências agrárias (dois últimos anos).

No Rio Grande do Sul, destaque para o trabalho desenvolvido pelo Senar-RS em parceria com a Embrapa. A instituição gaúcha mantém cursos curtos, com 24h ou 32h horas de duração, com foco na pecuária de corte. Também desenvolve um programa mais longo, de um ano e meio, chamado boas práticas agropecuárias para bovinos de corte.

“Além das aulas teóricas em grupo, cada tema abordado em aula levamos até as propriedades rurais por meio de consultoria. É um trabalho mais individualizado e de longo prazo, com destaque para áreas como manejo, sanidade animal, reprodução etc”, explica Pedro Faraco, técnico do Senar-RS.

De acordo com Faraco, em 2017 foram capacitadas 143 pessoas em sete turmas concluídas no programa de boas práticas agropecuárias para bovinos de corte. O acréscimo no número de turmas e participantes ocorre da nova tendência mercadológica em buscar pecuaristas que priorizam o bem-estar animal e a sustentabilidade da produção.

Entre os cursos de curta duração do Senar-RS, estão desmame e recria de bovinos de corte; inseminação artificial; manejo de forrageiras de inverno e de verão; manejo e melhoramento do campo nativo; manejo sanitário de bovinos de corte; e suplementação e confinamento de bovinos.

Bifequali: um programa pioneiro
Desenvolvido pela Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos (SP), o programa Bifequali TT foi criado há quatro anos. Nele, os técnicos são treinados de forma continuada pela equipe da Embrapa Pecuária Sudeste e se tornam aptos a implementar as tecnologias nas propriedades. O centro de pesquisa acompanha a atuação desses técnicos por meio da coleta de dados e da avaliação do impacto das tecnologias adotadas.

A aproximação entre pesquisadores e os produtores rurais permite que a tecnologia e as novidades cheguem mais rapidamente aos pecuaristas. Recentemente, duas iniciativas têm chamado a atenção positivamente: o uso da leguminosa Guandu BRS Mandarim (para recuperação de pastagem e ganho de peso dos animais durante o inverno) e o sistema ILPF (Integração Lavoura Pecuária Floresta) nas propriedades.

No processo de formação continuada dos técnicos, as capacitações abrangem temas ligados à gestão e administração da propriedade, produção e manejo de forragem, nutrição e alimentação animal, sanidade e ambiência, manejo da reprodução, recursos genéticos e boas práticas na produção de bovinos de corte.

De acordo com a Embrapa, todas as tecnologias adotadas ao longo do programa são adaptadas à realidade da propriedade rural, com foco na melhoria dos índices no sistema de produção. Isso é essencial para uma carne de qualidade.

Destaque no cenário mundial para o Brasil
De acordo com Antônio De Salvo, dirigente da CNA, 70% da carne produzida no Brasil é consumida no mercado interno. “É claro que desejamos que esse volume seja ampliado, mas isso depende da situação econômica nacional”, ressalta.

No cenário internacional, ele avalia que o Brasil será o grande fornecedor de carne para o mundo. “O Brasil é o único país que reúne as condições adequadas para isso, mas precisamos trabalhar para aumentar nossos índices de produtividade, inclusive no nicho de carne gourmet”, conta De Salvo.

Antonio Pitangui de Salvo – Presidente da Comissão Nacional de
Bovinocultura de Corte da CNA

Olhando para fora dos nossos limites geográficos, pode-se entender melhor a situação dos principais fornecedores globais de carne, como Austrália, Índia, China, Estados Unidos, Argentina, Uruguai e Paraguai – muitos com dificuldades produtivas e características distintas uns dos outros.

Na Austrália, a estiagem é um problema recorrente: de tempos em tempos, o país é assolado com uma crise hídrica fortíssima, que reduz pastagem, elevando os preços dos animais e impactando negativamente na produção de carne. E isso é importante porque os australianos exportam 80% da carne que produzem.

Na Ásia, a Índia tem um importante rebanho, mas enfrenta questões religiosas e de sanidade. A proibição do abate de fêmeas em algumas regiões do país prejudica a competividade mundial, sem contar a falta de padronização e a baixa qualidade dos animais.

Os chineses, por sua vez, têm um custo de produção muito alto e um déficit entre produção e consumo, tornando o país um importar da proteína. A China (junto a Hong Kong) foi destino de 40% de toda a carne bovina in natura exportada pelo Brasil no ano passado.

Outro importante concorrente do Brasil, os Estados Unidos, mesmo sendo um dos maiores produtores do mundo, se destacam também como os maiores importadores de carne. Os Estados Unidos vendem muita carne bovina a preços altos e compram muita carne mais barata (dianteiro) para parte do consumo doméstico, principalmente para a produção de hambúrgueres.

Bovinos de corte – Foto: Emerson Foguinho