Pecados mortais

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Se você pretende viver em harmonia neste mundo de Deus, mesmo que não acredite nele, compre uma Bíblia. Caso queira escrever, tenha por perto uma gramática e um dicionário. Com ou sem regulamentação da profissão, se deseja ser jornalista, acrescente aos três livros um Manual de Redação. Tu reclamas: queres me tornar um bitolado pelas regras? E eu respondo: não, só é possível transgredir as normas, se conhecemos. Senão, é mera ignorância.

Os Dez Mandamentos versam sobre comportamento pessoal, adoração a Deus, vida em família e em sociedade. Dependendo da intenção e da consciência, eles são rebaixados de mortais para veniais. “Não cobiçar coisas alheias” pode se transformar em inveja, avareza. Iguais aos pecados da gula, luxúria, ira, preguiça. Perdoados com regime alimentar, arrependimento, um pouco de trabalho e algumas orações.

“Não matar” era um dogma definitivo. Entender o suicídio é um ato de humanidade. Bandeiras defendem o aborto. Matam-se a favor e contra no debate. “Não roubar” está lá nos Mandamentos. Lembro-me dos roubos a banco, realizados pela luta armada, durante a ditadura militar. Os assaltantes iam logo dizendo aos bancários e clientes: “Isto é uma desapropriação.” Está bem. Fica difícil concordar com o mesmo argumento diante da corrupção bilionária na Petrobras. Outro dia, em artigo nas páginas de Cultura de um jornal de Porto Alegre, um velho jornalista comparou a Lava-Jato com o AI-5, como perseguição política. Aí é demais!

A gramática aconselha a organizar uma frase na ordem direta para facilitar a escrita e a leitura. Sujeito, predicado e complementos. Mas ninguém proíbe de inverter a ordem com absoluta segurança. Pode-se conceber o texto de rosto fechado, duro, ou descrever rodopios líricos e leves como as alegorias de um balé.

O dicionário ajuda a escolher a palavra certa. A contundência ou o eufemismo. O vocábulo estabelece o limite entre a denúncia e a responsabilidade. Melhor fazer a defesa da sociedade sem o carrinho por trás, passível do cartão vermelho, a condenação de todo o esforço.

O Manual de Redação é uma tábua de intenções. Está lá como um alerta. Posso transgredir em razão da linha editorial, plataforma, público alvo, com os limites ditados pela consciência de jornalista e o apego ao emprego.

O repórter na tela
Os jornais impressos têm muitas restrições à primeira pessoa. Nas revistas, menos. Mas ela pode aparecer em qualquer circunstância como testemunho. Sutilmente. No rádio e na televisão a lógica é outra. O repórter está no meio da notícia. No áudio ou na tela, ele é também um personagem. Pode se libertar das amarras do Manual. Transmitir a sensação de exploração, por exemplo. Aventura. Mas deve ter atrás dele o espectro do jornalismo, como numa peça de Shakespeare. É bom não exagerar para não parecer deslumbrado ou babaca.

Veja e Capricho
Os repórteres hoje precisam produzir com um olho nos likes, a repercussão das notícias nas redes sociais. A Capricho se destaca entre as revistas da Editora Abril. A Veja é infinitamente mais relevante. Só ela publica o que as outras jamais fariam. Quando o jornalista Alexandre von Baumgarten (1930-1982), proprietário de O Cruzeiro em sua decadência, envolvido com a repressão militar, percebe que será morto como “queima de arquivo”, escreve um dossiê, contando parte do que sabe e encaminha à Veja.

Sua intuição estava certa. No dia 13 outubro de 1982, uma quarta-feira após o feriado, para pegar o mar mais calmo, ele saiu para uma pescaria em sua traineira Mirimi, um barco de madeira a motor para pesca esportiva, com cozinha, banheiro e beliches. Zarpou do cais da Praça XV, no Rio, na direção das ilhas Cagarras, no mar alto. Viajavam em sua companhia a esposa Jeanette Hansen e o barqueiro Manuel Valente Pires. A Garra, braço clandestino do SNI, explodiu a embarcação. O país caminhava para uma abertura política e ele sabia demais. Em fevereiro de 1983, a edição 752 de Veja publicou o “Dossiê von Baumgarten” na capa sobre os anos de chumbo da repressão. A revista tem méritos históricos, seu problema não é o fato, mas a adjetivação, retórica, soberba e matérias requentadas.

Jornalismo investigativo
O repórter investigativo entrou no acampamento na frente da Polícia Federal, em Curitiba, com camiseta do MST e um discurso contra o golpe na ponta da língua. Só assim passaria despercebido para poder entender o que leva uma pessoa, não sendo a mãe ou a namorada, a ir para frente da prisão, para pedir a libertação de alguém condenado por corrupção. Deve ser fake news a outra versão de que o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul era leão-de-chácara do acampamento Lula Livre e impediu a entrada de uma equipe da TV Record, exibindo uma carteira profissional. Pecado mortal contra a imprensa.