Ovinocultura no caminho da profissionalização

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O futuro está chegando para a ovinocultura. Há décadas parte da cultura tradicional dos gaúchos, seja com o consumo de lã ou de carne de ovelha, a cadeia produtiva avança para a formalização e para a modernização do negócio, na medida em que novas possibilidades de mercado e tecnologias voltadas para todos os elos da cadeia produtiva são cada vez mais introduzidas na atividade. Nesse sentido, associações e entidades de pesquisa e de mercado se articulam para superar obstáculos em todo o Brasil.

Embora o rebanho gaúcho tenha sido reduzido ao longo das décadas – segundo o censo agropecuário do IBGE 2017, são 3,3 milhões, mas já tivemos 13 milhões de ovelhas no estado -, o mercado segue aquecido. De acordo com a Embrapa, 52 milhões de brasileiros consomem regularmente carne de ovelha ou cordeiro e 25 milhões de consumidores nunca experimentaram o produto, o que demonstra potencial para expandir a demanda. Ainda assim, o Brasil é importador de carne ovina e caprina, principalmente de países como Uruguai, Chile e Argentina, explica Paulo Schwab, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco).

O ganho de escala, com a consequente expansão da oferta interna, é um dos principais desafios a serem superados, e motivos não faltam para a formalização do setor, já que a atividade apresenta boa produtividade e o preço da carne é considerado vantajoso. “É uma boa alternativa de renda para o produtor, por ser uma atividade de ciclo curto. Nós acreditamos que a atividade tem tudo para dar certo, nós temos preço e o produtor está conseguindo vender bem”, ressalta Schwab.

A lã também vem garantindo boa rentabilidade para o produtor, principalmente as lãs finas, cujo preço está entre 10 e 11 dólares/Kg, relata o presidente da Arco. A valorização se deve ao fluxo da moda e à demanda atual pelo mercado de qualidade, explica. Paralelamente, outros produtos de alto valor agregado começam a ganhar força no mercado, em especial o leite de ovelha e derivados como queijo e iogurte.

O crescimento do de distribuição de carne ovina no estado mostra que há demanda do consumidor pela carne, mas os empreendedores conhecem poucos fornecedores  e a distribuição é irregular. A avaliação é de que “o varejo está completamente distante do produtor rural e existe uma grande oportunidade de coordenação do ovinocultor, da indústria e do varejo para o benefício comum da ovinocultura”, diz o técnico do Sebrae Roberto Grecellé.

Schwab relata que, muitas vezes, o próprio produtor acaba realizando o abate e transportando o produto em seu próprio veículo até o comprador, sem segurança sanitária e sem regularidade na oferta. “Isso acaba nos levando para a informalidade, mas os elos estão todos aí, só está faltando a união”, diz. O desafio passa ainda pela falta de conhecimento de gestão por parte dos produtores, uma vez que não se pode apenas transferir as técnicas de manejo e a tecnologia do rebanho bovino para o ovino, como muitas vezes é feito. Para isso, a formação de mais técnicos especializados na ovinocultura seria um dos passos fundamentais para o desenvolvimento da capacitação e otimização da atividade.

Rebanho de ovinos – Alina Souza/Especial Palácio Piratini

Com esse objetivo, conquistas recentes no âmbito das políticas públicas tiveram grande importância na organização da cadeia. “Nos últimos dois anos, conseguimos inserir a ovinocultura em vários tipos de financiamento. Estamos conseguindo avanços na legislação, há toda uma conjuntura para nós desenvolvermos essas atividades”, diz o produtor. Com a implantação do programa sanitário, que ainda está em fase de conclusão, o setor poderá também exportar a genética brasileira, considerada uma das melhores do mundo, explica o presidente da Arco.

Uma das principais organizações que vêm contribuindo para o processo de profissionalização da ovinocultura é a Embrapa, a partir do desenvolvimento de pesquisas e novas tecnologias que já começam a ser inseridas no mercado. A cadeia produtiva é uma das áreas estudadas pela entidade, que realiza um trabalho de identificação de gargalos e estratégias.

Com relação ao rebanho, a genética corresponde a uma das áreas técnico-científicas desenvolvidas atualmente, no sentido de identificar genes que geram mais de dois cordeiros por parto, explica a chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Pecuária Sul, Estefanía Damboriarena. “Esse processo exige que se agreguem outros conhecimentos para garantir que os cordeiros nascidos sejam adequadamente cuidados, para melhorar a performance de manejo, principalmente alimentar e sanitário dos rebanhos”, destaca, relatando que é uma tecnologia viável de ser introduzida em rebanhos menores.

Outro trabalho já avançado refere-se à agregação de valor e ao processo agroindustrial da carne ovina, envolvendo outros agentes da cadeia. Até o momento, a Embrapa já desenvolveu mais de 11 produtos, entre eles copa, presunto cru e linguiça de ovinos, e está em fase de seleção, via edital, para realizar a transferência do know how para as agroindústrias habilitadas.
Destaque: Rebanho de ovinos – Camila Domingues/Palácio Piratini