Odacir Klein – “O futuro do agronegócio no RS está na diversificação de culturas e na agregação de valor ao produto primário”

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Com uma longa trajetória na vida pública, Odacir Klein assumiu, neste ano, o comando da Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Irrigação (Seapi). É a terceira passagem do gaúcho de Getúlio Vargas pela pasta – “uma a cada 15 anos”, brinca ele -, na qual tem o desafio de preparar o Rio Grande do Sul para enfrentar um agronegócio cada vez mais competitivo e, no qual, a defesa animal é hoje um dos temas mais preocupantes. Na entrevista, Odacir fala de questões como exportação, soja, câmbio, logística e biodiesel.

É sua terceira passagem no comando da secretaria de agricultura do RS. Qual a evolução do agronegócio neste período?
Cada oportunidade dessas representa um período de 15 anos. Até brinco que não aceitarei novamente, daqui a 15 anos, porque estarei com 90 anos (risos). Cada ocasião tem um problema diferente. A primeira vez, ainda no governo Simon, o maior problema era a situação econômica nacional. Tínhamos saído dos planos econômicos do governo Sarney, havia uma dificuldade com os indexadores de crédito, e as maiores demandas da agricultura eram a resolução destes problemas federais, de câmbio e de preços mínimos nas mais diversas questões. Então, a função da secretaria, além de muito técnica, era também de articulação com os diversos setores no sentido de reivindicar, de buscar solução para esses problemas. Naquele período, criamos o programa troca-troca de sementes de milho para estimular o plantio da cultura, também foi criado o Feaper (Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais), hoje coordenado pela Secretaria do Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR).

A secretaria tinha uma estrutura maior então…
A secretaria era bem mais ampla. Tinha a Cesa (Companhia Estadual de Silos e Armazéns), visto que o Estado ainda tinha um papel de colaborar na armazenagem, o que hoje, definitivamente, não é mais função do Estado. A Emater também era vinculada conosco, hoje está ligada à Secretaria de Desenvolvimento Rural. A Ceasa também era vinculada à secretaria e, naquele tempo, começou a desenvolver programas de abastecimento para a população carente. Atualmente, fica com a SDR também. Havia, também, as áreas onde funcionavam as chamadas estações experimentais da Secretaria da Agricultura. Atualmente, ainda temos a Cesa (que está em liquidação) e o Instituto Rio-Grandense do Arroz (Irga) que, mesmo naquela época, já tinha estrutura própria. A secretaria era bem maior, mas porque tinha também a função de estar articulada com os setores representativos para reivindicar políticas do governo federal. Havia um endividamento grande do setor, além de questão cambial muito complicada.

Como foi a segunda passagem pela secretaria?
Ocorreu durante o governo Germano Rigotto. Estávamos saindo de uma crise enorme devido à questão da febre aftosa. No fim do governo anterior ocorreu o surto da doença na cidade de Joia. O mercado gaúcho de carnes estava praticamente fechado – a limitação para saída de carnes era enorme. Segundo grande problema: precisávamos aumentar a produtividade e o governo anterior ao do Rigotto tinha uma resistência total à biotecnologia. Houve, inclusive, episódios de invasão de áreas de pesquisa. Entramos numa grande luta para provar que biotecnologia não era uma agressão. Havia respeito por quem desejasse manter uma produção orgânica, sem biotecnologia. Mas, devido a este cenário, 70% da safra de soja do Rio Grande do Sul era ilegal, com sementes compradas do exterior. Era preciso legalizar aquela situação. Nós, secretaria, interagimos com a sociedade buscando a legalização. Lembro que, em uma Expodireto, se lançou um movimento neste sentido. Houve muitas reuniões, inclusive com Polícia Federal e Ministério Público Federal nos acionando por estarmos defendendo algo que eles consideravam ilegal. Até que, durante uma Expointer, o presidente da República, na época, o Lula, foi cobrado sobre a legalização. O governo federal, então, baixou uma Medida Provisória legalizando a comercialização daquela soja. No ano seguinte, continuava ilegal, e foi editada outra MP permitindo o plantio e a venda. Nesta época foi criada a CTNBio, hoje um organismo formado por especialistas sem nenhuma vinculação política, com um quadro técnico para organizar essa demanda.

E as exportações naquele período?
Começamos a abrir mais mercado externo. Lembro de missões ao exterior para países como China e Rússia – a Rússia sempre com aqueles altos e baixos de abre mercado, fecha mercado. A convite do Ministério da Agricultura estive duas vezes em Moscou representado o Rio Grande do Sul buscando abertura de mercados. Foi um período de avanços.

Hoje, quais os desafios?
Na ocasião atual, estou sucedendo a um secretário, o Ernani Polo, muito dinâmico e criativo. Saímos agora de uma situação gravíssima que foi a greve dos caminhoneiros. Tivemos uma atuação muito forte e, já no início do movimento, tive contato com o governador para cuidarmos dos reflexos dessa paralisação. E foi rápido: na primeira manhã da greve, o setor do leite já estava um caos. Começou a faltar, logo após, ração para as aves, os suínos, e para todos os animais. Os frigoríficos não podiam abater porque não tinham como estocar os cortes – as câmaras ficaram lotadas. Como não conseguia escoar a carne, não tinha como abrir espaço para novos abates.

Foto: Fernando Dias- Seapi

A greve dos caminhoneiros ocorrida em maio não escancarou uma questão antiga do setor primário que é o escoamento da safra, dependente do sistema rodoviário? Já tivemos ferrovias no Rio Grande do Sul…não seria momento de buscar alternativas para essa logística?
A época em que estive fora da secretaria, na iniciativa privada, acompanhei muito a mobilização do Centro-Oeste no sentido de buscar a integração com outros modais. Fui ministro dos Transportes no período em que a Rede Ferroviária Federal (RFFSA) já não tinha mais saída. O programa desenvolvido pelo Bndes eu considero de sucesso. Ocorreram dois programas de desestatização à época. Um feito pelo Ministério dos Transportes iniciado pelo ministro Alberto Goldman no governo Itamar, prosseguido pelo general Bayma Denis no mesmo governo e a quem eu sucedi, esse programa deu certo. A modernização portuária, naquele momento, ocorreu. A privatização na área de rodovias, por exemplo, eu assinei a concessão da ponte Rio-Niterói, da Via Dutra. Busquei também financiamento para o trecho da BR-101 entre Florianópolis e a divisa com o Paraná. Na área ferroviária, o que ocorreu? Existia uma entidade quebrada, sugadora de recursos e totalmente inviabilizada que se chamava Rede Ferroviária Federal S.A. O modelo de privatização dela foi montado pelo Bndes. No caso dos portos e rodovias, foi o modelo aquele do Goldman. No caso do Bndes, a concessão não obrigou os concessionários a usar toda a rede ferroviária. Mais recentemente, no governo Dilma, foi criada a Empresa Brasileira de Logística (EBL), que recriou um plano de modernização das ferrovias mas não deu certo. O programa permitia que pessoas comprassem do concessionário o direito de uso da ferrovia. Esse modelo também não vingou. Hoje, temos concessionárias que operam trechos que dão resultados e há outros desativados, sem uso.

É um setor que, talvez, não devesse então voltar a ser estatal? Há 20 anos privatizado e não avança…
O transporte ferroviário tem uma dificuldade: a implantação da infraestrutura é muito cara. Depois de pronta, o transporte até pode ter um custo menor, mas exige um longo investimento. Então, as manifestações de intenção de retomada são muitas, mas começa algo e não prossegue.

Hoje a inovação vem do setor primário, com a biotecnologia, a agricultura de precisão, o maquinário com altíssima tecnologia. Parece que há dois problemas hoje: pouco seguro rural e as dificuldades de escoamento. Essa não deveria ser a bandeira do setor?
Temos que separar um pouco o privado do público. Ambos conversam muito sobre essas questões federais, de conjuntura. Entretanto, o setor público é muito demandado pelo privado a respeito de políticas que são de incumbência do setor público. No caso específico da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação, hoje, a principal preocupação é defesa sanitária e fiscalização, saúde pública. Sempre brinco que falam muito em direitos humanos, mas o principal deles é a vida, e não existe vida sem alimento. É preciso investir em segurança, saúde, educação, mas o alimento é fundamental. Alimento, claro, tem que ter sanidade e qualidade. Dentro da estrutura que ficamos no Estado, com a divisão das secretarias, hoje, cerca de 80% das nossas atividades têm como foco a defesa sanitária e fiscalização.

E o projeto de fiscalização por meio da iniciativa privada?
É uma iniciativa nova, com um projeto de modernização da inspeção de produtos de origem animal, na qual se estabeleceu a possibilidade de empresas prestadoras de serviço neste segmento serem credenciadas pelo Estado. São cinco empresas, por enquanto, habilitadas. Adaptamos o modelo a partir de outros existentes em Santa Catarina e, principalmente, do Paraná. Basicamente para atuar em frigoríficos. Contratamos ainda duas instituições – Sindicato dos Veterinários e Senai – para ministrarem os cursos de capacitação para os profissionais que atuarão por meio das empresas privadas credenciadas.

Não estamos caminhando para uma “sojificação” da agricultura no Rio Grande do Sul?
Avançou muito, inclusive no Sul do Estado. Está se plantando soja até em “pedra”. No governo Rigotto, quando apareceram aqui os chineses querendo comprar dois milhões de toneladas de soja achamos que era balela. Naquela época, nossa produção era de sete milhões de toneladas de soja. Hoje, o Rio Grande do Sul dobrou essa produção. O que nós temos de avanço é a agregação de valor. Um programa que absorve muita soja e que as pessoas não se dão conta é o biodiesel. Ainda no governo Rigotto, quando pessoal começou a instalar usina de biodiesel e o governador perguntou qual seria a matéria-prima – preponderantemente “soja”, responderam – ele achou uma loucura. E eu também pensava isso, mas por que? Tínhamos mercado para o grão, com Lei Kandir, sem tributo. A soja dá 18% de óleo e 80% de farelo. O farelo já agrega valor, pois impacta na suinocultura, na avicultura e até na pecuária. O resultado disso tudo é mais valor na produção de proteínas animais. Aqui no Rio Grande do Sul, em que pese o avanço da soja na Metade Sul e na Fronteira-Oeste, o Estado ainda tem muita diversificação. Embora também importador, o RS tem diversificação na fruticultura, na olivicultura, nos hortigranjeiros, e uma outra área, em que atuei nacionalmente, que é o milho. Se olharmos para trás, a área diminuiu em quase metade, mas a produção se manteve. Aí entra uma coisa interessante para visualizar essa questão: a cadeia produtora e a cadeia consumidora não interagem. Em uma visita ao Canadá, uma indústria produtora de etanol, o sistema tinha produtores determinados, dos quais já compravam o milho antes mesmo que o agricultor plantasse. O produtor tinha o preço estabelecido do seguinte modo: metade da cotação na Bolsa de Chicago naquele dia e metade do valor era pré-estabelecido. Uma cadeia integrada.

E aqui, como funciona?
Temos uma cadeia integrada entre o produtor do frango ou do suíno e as indústrias, mas falta integração com o produtor de milho. O pessoal diz: “o governo tem que ter programas para garantir a autossuficiência do Estado no milho”. Tem época que, como o milho é commodity e o preço é estabelecido fora, ele recebe pouco. Então, mesmo não sendo autossuficiente, tem épocas que o consumidor compra milho barato e o produtor tem prejuízo. E tem muito mercado internacional, principalmente no Oriente Médio e alguns países asiáticos.

Qual é a matriz produtiva, então, que o Rio Grande do Sul deve priorizar para os próximos 15 anos?
É diversificação e agregação de valor. Mesmo quem reclama da industrialização, o pessoal não se dá conta que já ocorre isso dentro da porteira. Para produzir, precisa máquina, precisa defensivo, precisa semente, tudo isso é tecnologia e agrega valor. Então qual a matriz? Fomentar isso. As cooperativas são importantíssimas porque reúnem pequenas economias e dão um apoio importante para o produtor. Um outro dado: o Rio Grande do Sul comprava nos leilões 6% do diesel produzido no Brasil e vendia 30% do biodiesel. Não são cooperativas, nesse caso, são empresas privadas. Isso representa tirar do mercado grão que ia para a China e transformar em emprego nas indústrias. Na minha ótica, olhar para frente significa ter o objetivo de inovar, de cientificamente aumentar a produtividade e isso não é incompatível com a sustentabilidade. Não é um processo predatório.

Hoje, temos o status da carne com vacinação contra aftosa. Estamos prontos para a retirada da vacina? O que é necessário para isso?
Os técnicos são a favor da retirada da vacinação e já existe um calendário nacional para o Brasil cumprir. O País foi dividido em cinco lotes. O Brasil foi reconhecido agora em maio, pela Organização Mundial de Sanidade Animal, em Paris, como livre de aftosa com vacinação, o País todo. É um fato inédito pela extensão territorial e uma luta antiga desde 1965, quando houve o primeiro programa de controle da doença. O Ministério da Agricultura então dividiu o Brasil em cinco blocos e estabeleceu que, já em 2019, inicia a retirada da vacina. O primeiro bloco é o do Nordeste, que é uma estratégia natural uma vez que é onde há menos risco, onde produz pouca carne bovina. Além disso, os estados do nordeste não fazem fronteira com nenhum outro país. O Rio Grande do Sul e o Paraná buscaram auditorias para realizar exames e nos adequar à retirada da vacina junto com o primeiro bloco – assim, a última vacinação seria em 2019. O ministério colocou o RS no último bloco, em 2021. Juntos estão Paraná e Santa Catarina, este o único estado com status sem vacinação. A vantagem hoje é a mesma dos nossos vizinhos: Santa Catarina exporta suínos para grandes centros consumidores deste produto, como Europa, mercados que não acessamos. Essa condição de livre de aftosa sem vacinação nos daria condições de disputar mercados dominados por Estados Unidos e Austrália. No caso da carne bovina, o produto oriundo de um país sem vacinação pode custar 100% mais no mercado de destino, então – novamente – agrega valor.

Odacir Klein – Ascom/Seapi