O triste fim dos telefonemas

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Cada vez mais é comum ouvir pessoas dizerem que não atendem ligações. Pedem para seus para enviar mensagem em WhatsApp, no Messenger do Facebook, escrever um recado no Instagram, mas não telefonar. Mesmo em situações mais formais, como comunicação de fornecedores e clientes, jornalistas e fontes, consultórios médicos e pacientes, entre outros, vê-se um avanço da comunicação escrita através da internet, retirando o espaço da conversa telefônica.

Essa tendência se vê mais pronunciada nas novas gerações. Um estudo da Ofcom no ano passado revelava que, para 81% dos millennials (pessoas nascidas entre 1981 e 1996), era preciso criar coragem para atender a ligações telefônicas, e que preferiam simplesmente ignorá-las. No entanto, esse hábito também está também se disseminando entre gerações mais velhas.

Para quem viveu na época anterior à disseminação da internet, especialmente antes dos celulares, atender ao telefone era um ritual. O toque ruidoso, nada discreto, dos aparelhos discados gerava uma ansiedade de saber quem estava ligando. Era comum haver nas famílias, especialmente entre as crianças, uma disputa para ver quem era mais rápido em atender à ligação – isso quando os pais permitiam que atendessem, uma vez que telefonemas podiam ser considerados sérios demais e somente adultos podiam levantar o fone do gancho para ouvir quem estava falando.

Os telefones móveis permitiram a individualização desse ritual, mas não reduziu sua importância. Podíamos esquecer de atender às vezes por estar no mudo, mas, antes dos celulares virarem “smartphones”, ainda havia um sentimento de relevância das ligações: cedo ou tarde, seriam respondidas.

Embora muito disso possa ser relacionado à forma como as novas tecnologias estão alterando nossas rotinas, também pode-se apontar um culpado que não vê distinções de idade: o telemarketing. Estudo da Truecaller de 2018 aponta que cada brasileiro recebe, em média, 37,5 ligações “spam” por mês. Esse é o maior número entre os países da América Latina, e cresceu 81% em relação a 2017.

Diante de tanto “lixo telefônico”, quem ainda vai atender aquela chamada não reconhecida? Quando você sabe que a maioria dos seus amigos, familiares e demais pessoas que lhe são diretamente importantes tem seu WhatsApp ou Messenger, por que se importar com o que provavelmente vai ser uma mensagem gravada, ou uma oferta que não lhe interessa?

Eu mesmo me vejo seguindo essa corrente. Quando criança, corria para erguer o gancho do telefone e ser o primeiro a dizer “alô”. Depois, já na era da mobilidade, imediatamente ligava de volta para um número que não havia conseguido atender na hora, para não parecer rude.

Hoje, meu celular está quase sempre no mudo. A maior parte das ligações que recebo tem DDD de fora do Estado, o que indica telemarketing (embora também haja muito “spam” que comece com 51). Quando atendo, não raro o robô que executa a ligação sequer transfere para um atendente ou, como é cada vez mais comum, para uma mensagem gravada – fica mudo, como se ele mesmo estivesse tão surpreendido que alguém respondeu ao seu chamado que não faz ideia de como reagir. Meu fixo, que já desconectei, é como uma múmia egípcia, esperando calado uma futura ressurreição na minha sala. Desculpe telefone, mas não vai acontecer.