O passado que nos eterniza

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Estou completando 30 anos de jornalismo e lembro de como eram as coisas no início da minha carreira. O sétimo filho de uma ninhada de oito do seu Alcebíades e a dona Maria era o primeiro a chegar à universidade (pública) e o primeiro a obter um diploma superior. O mundo era um mapa a ser esquadrinhado.

Jornalismo sempre foi a minha meta de vida. Nos anos 80, quando me formei, a profissão, o mercado de trabalho e a realidade da imprensa era outra, completamente diferente do que temos hoje. Vivíamos, ainda, o reinado dos grandes jornalões, das rádios tradicionais, do telejornalismo hegemônico da Globo, de algumas poucas revistas locais e, claro, sem o universo todo da internet, que viria a explodir somente na década seguinte.

As referencias locais para os profissionais de imprensa da época eram Zero Hora e Correio do Povo, este tendo que se reinventar após a grave crise da Companhia Caldas Jr., que culminou com a sua venda para o empresário Renato Ribeiro. Zero Hora dominical chegava a circular com mais de 300 páginas, dois terços disso eram de anúncios classificados.

Em nível nacional, as referências eram a Folha de S. Paulo, o Estadão, O Globo, Gazeta Mercantil e o Jornal do Brasil. Os três primeiros remanesceram, ainda que com números de circulação e faturamento muito inferiores aos de três décadas passadas. A Gazeta fechou. O JB ainda buscou uma recuperação, ao ser vendido pelos Nascimento Brito para o empresário Nelson Tanure, que tentou de tudo um pouco para reativar o título, até mesmo o formato tablóide. Em 2010, foi anunciado o fim da edição impressa. Pois agora, depois de ser adquirido pelo empresário Omar Resende Peres Filho, o JB voltou a circular impresso, apenas no Rio de Janeiro.

Isso me faz pensar sobre a necessidade que temos de manter o passado vivo, como testemunha de épocas que vivemos, como que a avalizar os bons tempos. Eu mesmo coleciono um monte de coisas antigas, como uma tevê portátil, preto e branco, do mesmo modelo que eu consertava quando trabalhava como técnico da Philco; alguns tipos móveis em madeira, do tempo em que fui tipógrafo, na adolescência, em minha cidade natal;  e exemplares de vários jornais e revistas em que publiquei artigos ao longo dessas três dezenas de anos desde a minha formatura na Fabico-UFRGS.

Essas coisas servem como marcadores da nossa história, como âncoras que lançamos sobre nosso passado para lembrar quem somos e de onde viemos — o “para onde vamos” é bem mais complicado, não é Gauguin?

Como diz o filósofo Lulu Santos, “nada do que foi será, do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo passará”. Então, porque teimamos em manter, ou ressuscitar algumas coisas? É certo que o JB não vai mais ser um jornal impresso de circulação nacional, como já foi em seus áureos tempos. É certo que os discos em vinil não voltarão a ser a principal mídia de música da humanidade, nem as fitas de VHS voltarão a ser nosso ponto de contato com o cinema. Nossa nostalgia tem muito menos a ver com as coisas em si do que com o que elas representaram e testemunharam em nossas vidas.

O que não muda é nossa vontade de driblar a morte e o sofrimento da existência. Para isso recorremos a exercícios físicos, medicamentos, cirurgias plásticas, ao photoshop e outros quetais que nos fazem sentir mais novos. E, paradoxalmente, recorremos a amuletos do passado, para afirmar que viemos de longe, que temos uma longa história. Nisso se encaixam a tevê preto e branco e a ressurreição do JB.