O jornalismo entre o like e o dislike

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Se praticar o jornalismo na Internet é, ainda hoje, um desafio para os veículos de comunicação, a presença nas redes sociais não é menos desafiadora. Pelo contrário, canais que aproximam empresas jornalísticas da sociedade quebraram um paradigma histórico nessa relação.

Até pouco tempo, o jornal impresso ia para as bancas com uma variedade de notícias divididas em editorias tradicionais. O leitor comprava o jornal e era de sua escolha o conteúdo que seria lido na íntegra. Se algum texto desagradasse, bastava passar para o próximo ou, no máximo, enviar uma carta criticando a abordagem do jornal. Verificar instantaneamente a reação do público era impensável.

De repente, esses dois lados estão juntos, um diante do outro, nas redes sociais. A notícia é divulgada e, imediatamente, surgem as reações e os comentários. Agradar é uma necessidade, pois só assim o jornal atrai público para o site, gerando receita com anúncios ou conquistando novos assinantes. É aí que surgem as estratégias para fisgar o internauta. Uma delas é o clickbait (caça-clique).

Títulos que instigam, em vez de revelar, se tornaram comuns, contrariando tudo o que foi e é ensinado ao jornalista durante a graduação. Ao estudante em formação e nos manuais de redação, a orientação é clara: o título precisa ser tão conciso e informativo quanto o lead. Deve, portanto, apresentar a essência da notícia em uma frase curta. Nem sempre é o que acontece.

O que aparece, com frequência, são títulos com interrogações, como “A polícia já tem suspeitos do homicídio contra Marielle? Saiba como está a investigação”, publicado pelo UOL em sua página no Facebook, em 19 de março. A resposta à pergunta trazida no título é não, mas o leitor só saberá disso quando chegar ao décimo parágrafo do texto.

Um recurso comum é usar enumerações para chamar a atenção do usuário, como fez o perfil do G1 no Twitter, em 19 de março: “4 razões pelas quais a Rússia reelegeu Vladimir Putin presidente”. As postagens caça-cliques recorrem, ainda, a títulos no modo imperativo, para gerar senso de urgência na leitura. Foi o caso, por exemplo, da Zero Hora, no Twitter, no título “Entenda o que ficou definido na reunião entre Temer e Sartori” (15 de março).

Outro método é o uso de pronomes, omitindo algum elemento importante do lead: “Esta é a estratégia da Netflix para atrair mais audiência” (perfil da revista Exame no Facebook, em 17 de março). Todas essas abordagens fazem parte de estratégias de marketing de conteúdo. Compare o formato desses títulos com os que são utilizados em redes sociais e blogs de marcas. Os recursos para gerar o tráfego orgânico são os mesmos.

A necessidade de gerar receita a partir do acesso digital tem colocado o jornalismo em um caminho perigoso: vale tudo para sobreviver nesse ambiente? Se a preocupação é o clique, há espaço para uma análise sobre ética e critérios de notícias? O que prevalecerá: o interesse público ou o interesse do público?

O que os internautas buscam?
Para oferecer conteúdos que sejam atrativos para o público nas redes sociais, os veículos de comunicação precisam identificar, primeiro, o que esse público quer. Só que esse ambiente é caracterizado pelas bolhas de interação, em que os membros tendem a compartilhar dos mesmos gostos e posições ideológicas.

É possível verificar, na prática, que muitas ideias propagadas nas redes sociais podem, facilmente, destoar da realidade. Você acha, por exemplo, que o interesse pelo Big Brother Brasil está aumentando ou diminuindo?

Provavelmente, a resposta dependerá da sua própria bolha, mas é comum que a cada nova edição sejam feitas críticas à continuidade do programa nas redes sociais, dando a impressão de que o BBB já não tem um público tão expressivo quanto já teve no passado. Mas isso não é verdade. Em 2017, o interesse registrado, de acordo com pesquisas feitas por internautas no Google, foi o dobro do verificado em 2014.

A ferramenta Google Trends traz esses resultados, apresentando-os em uma escala de interesse que vai de 0 a 100. As buscas pelo termo BBB17 atingiram o pico em abril do ano passado. Na comparação, a pontuação máxima das pesquisas por BBB14 foi 51. Esses dados estão mais próximos da audiência registrada. De acordo com levantamento Kantar Ibope, a atual edição do reality show (2018) já atingiu a maior audiência desde 2012 na grande São Paulo. Quando a pesquisa foi feita, o programa ainda estava na metade da temporada.

Voltando ao Google Trends, desde 2004, a pesquisa pelo termo Big Brother Brasil no buscador atingiu o ponto máximo de interesse em março de 2010, com 100 pontos. O segundo pico de interesse ocorreu em março deste ano, com 76 pontos. As edições 2017 e 2012 atingiram a marca de 71 pontos.

Mesmo diante de contextos que parecem gerar uma grande mobilização, a noção sobre o que move o interesse do público pode não condizer com a realidade. Na semana em que a vereadora Marielle Franco foi assassinada, o tema tomou conta do debate em todos os canais de comunicação, gerando polêmicas e até críticas quanto ao excesso de cobertura do caso.

No Google, esse não foi o acontecimento que mais gerou buscas, no Brasil. Um dia antes da execução de Marielle, foi anunciada a morte do físico teórico Stephen Hawking, que gerou muito mais pesquisas no buscador. Na comparação entre os termos “Marielle Franco” e “Stephen Hawking”, a vereadora atingiu 39 pontos na escala de interesse do Google Trends contra 100 para o físico.

O estado que mais realizou buscas pelo termo “Marielle Franco” foi o Rio de Janeiro. Já “Stephen Hawking” foi mais pesquisado no Amapá. Se esses exemplos, tão pontuais, já surpreendem em relação ao interesse do público, o que dizer do amplo espectro de fatos noticiados todos os dias pelos veículos de comunicação?

Para o jornalismo, esse cenário é desafiador. Nunca se teve tanto acesso ao que gera o interesse do público e, menos ainda, a como esse público reage ao conteúdo. Soma-se a isso a dificuldade financeira enfrentada pelas empresas jornalísticas, que ainda estão em busca de um modelo de negócios que seja rentável na Internet.

Quem não se propaga, se trumbica
“O jornalista está cada vez mais pressionado”, define o professor Paulo Pinheiro, da ESPM-Sul. E em meio à pressão, precisa conciliar fatores que interferem diretamente na qualidade do conteúdo entregue, sobretudo, a rapidez na publicação da notícia e o formato, que precisa ser atrativo para repercutir nas redes.

A propagação, lembra Pinheiro, não pode ser ignorada. É o que defende o pesquisador Henry Jenkins, em seu novo livro, Mídia Propagável, no qual sacramenta: “aquilo que não se propaga está morto”. “Ele está certo”, opina o professor. A realidade, agora, é a cultura do “curtir e compartilhar”. E o jornalismo terá que se adaptar a ela.

“Se não se propagar, o jornalista escreveu para nada, para o vazio”, pontua Pinheiro. O grande dilema está nos mecanismos que serão usados para gerar essa propagação. É fácil perceber que é mais provável que uma controvérsia do BBB seja mais compartilhada do que uma notícia de economia ou política.

O professor da ESPM-Sul reforça, ainda, que outro modelo de grande repercussão são as notícias falsas. “Uma pesquisa recente mostra que uma fake news tem 70% de chance de se propagar mais do que as notícias verdadeiras.” A matéria falsa tem um título sensacionalista, apela para polêmicas e acaba se espalhando mesmo quando a intenção é alertar para a mentira.

A saída, então, é se render ao sensacionalismo e ao interesse do público? Pinheiro reforça que não. As matérias de impacto tem um potencial enorme de propagação. “O que eu acho mais importante é que os grandes valores continuam, independentemente da rede social.” O professor salienta que as barreiras que dificultam a repercussão do conteúdo jornalístico, como os algoritmos do Facebook, não são suficientes para conter uma boa reportagem investigativa, por exemplo.

Quanto à pressão do tempo, o consultor e pesquisador de marketing digital e influencer marketing, Gabriel Ishida, aponta que nem sempre a agilidade é determinante. “O Nexo (jornal digital) não tem essa preocupação de ser real time. O artigo sai no dia seguinte, mais profundo sobre tudo o que ocorreu.”

Para Ishida, veículos como o Nexo e Huffington Post, que já nasceram no ambiente digital enfrentam desafios que são menores dos que estão colocados à mídia tradicional. É o caso dos jornais impressos, que tentam replicar o modelo com o qual estão habituados ao online. “A Editora Abril sofreu bastante com isso. Só sobreviveram as revistas que já tinham uma proximidade maior com o digital, como a Capricho.”

Facebook, uma rede hostil
A decisão da Folha de S.Paulo, que optou por parar de alimentar sua página no Facebook, é um dos fatos recentes que levanta questionamentos sobre a forma como a principal rede social está agindo em relação ao conteúdo informativo. Os algoritmos, agora, vão priorizar o conteúdo entre amigos e parentes. Os usuários já notam a diferença: as publicações dos mais próximos é a que aparece com destaque.

Essa mudança, explica Gabriel Ishida, já havia sido adotada em relação às páginas corporativas. As marcas, que antes utilizavam a rede social para atrair e gerar tráfego orgânico para seus sites ou mesmo para vender, diretamente, seus produtos, perderam visibilidade. “O Facebook não quer que as empresas usem o alcance orgânico. Antigamente, eles desvalorizavam as marcas, mas continuavam valorizando o informativo. Agora, a situação chegou também ao conteúdo noticioso.”

No caso das marcas, houve a reclamação na época, e a saída foi começar a investir para conseguir destaque ou utilizar o marketing de conteúdo como forma de aparecer na rede como material informativo. Agora, visibilidade só com anúncios.

O professor Paulo Pinheiro passou quatro anos e meio estudando os algoritmos da rede, a principal usada pelos brasileiros. “O Facebook é um território hostil para o jornalismo”, revela. Essa característica não vem de hoje, mas com a mudança recente, as barreiras aumentaram. Sobre a decisão da Folha, Pinheiro diz que é difícil avaliar o impacto, “O que a Folha está fazendo é proteger seu conteúdo. Está entregando menos do que está produzindo.”

Ishida aponta que o modelo priorizado pelo Facebook “é, na verdade, um modelo para tirar dinheiro de todo mundo”. O anunciado pelo fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, é que a revisão terá o efeito de coibir a propagação de fake news. Esse ponto é controverso e, até agora, não se pode dizer que o propósito será bem sucedido.

Para Pinheiro, na medida em que as pessoas ficam restritas ao conteúdo que circula em suas próprias bolhas e deixam de ter acesso às apurações jornalísticas, as notícias falsas podem ter maior alcance. Ishida aponta para outra possibilidade: como o formato das fake news replica o modelo do conteúdo noticioso, também tendem a ser barrados. Mas e quando esse conteúdo passa como memes ou postagens dos usuários?

Depois do embate, o amadurecimento
Mais um estigma que é derrubado pelos fatos é o de que os internautas brasileiros não estão interessados em notícias. O Brasil é o país que registra o maior crescimento no uso das redes sociais para obtenção de informações, de acordo com pesquisa do Instituto Reuters de Estudos sobre Jornalismo. O levantamento foi feito com 26 países e mostra que 72% dos brasileiros afirmam usar redes sociais para ler notícias.

Engana-se quem pensa que esse interesse está concentrado no público mais velho. Outro estudo – da Agência Pública em conjunto com alunos da ESPM-Rio e o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da Universidade de São Paulo – revela que o maior grupo de leitores das páginas de imprensa no Facebook são os jovens.

A pesquisa considerou a principal faixa etária em três tipos de páginas de informação: as de orientação esquerda, as de posições de direita e as de imprensa. O maior grupo de seguidores das páginas de esquerda tem mais de 50 anos. No lado oposto, as páginas de direita congregam maioria entre 41 e 50 anos. Já os seguidores das páginas de imprensa têm idade entre 20 a 30 anos.

Essa revelação confirma a perspectiva de Gabriel Ishida: a fase atual das redes sociais é marcada pelo amadurecimento. “Todos os meios passam por três fases: criação, testes e maturidade”, ensina. Estamos caminhando para a última, pontua.

“O usuário médio já tem muito mais consciência de como funciona a rede social. Essa maturidade é boa para todo mundo, porque ele começa a se engajar mais e a ter um maior controle.” Algumas questões começam a despertar a atenção, como a privacidade e as fake news.

Um período em que é possível notar as mudanças de comportamento dos usuários deve ser a eleição, aposta. Segundo Ishida, é possível que no pleito deste ano a principal mudança em relação às últimas eleições esteja na maior vigilância das pessoas quanto aos boatos e matérias mentirosas. “Vai ter uma busca por fake news e denúncias mais fortes. Vai ter mais controle.” É um processo natural, sinaliza. Com o tempo, as pessoas aprendem a usar melhor as redes sociais. Ishida prevê que essa maturidade vai levar os usuários a se informarem e se engajarem mais.

Gabriel Ishida

Paulo Pinheiro