O Boimate da Veja

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Em vários países é comum jornais, estações de rádio, canais de TV e sites participarem da tradição do 1º de abril como Dia da Mentira. Os veículos noticiam fatos ficcionais e escandalosos, enganando sua audiência.

Entre os casos mais famosos, em 1957, a BBC informou que fazendeiros suíços estavam tendo uma safra recorde de espaguete e mostrou imagens de agricultores colhendo macarrões de árvores – vários espectadores foram iludidos. Em 1985, a revista Sports Illustrated pregou uma peça em vários de seus leitores quando publicou um artigo sobre um arremessador de baseball novato chamado Sidd Finch, que podia lançar uma bola a 270 km por hora. Mais recentemente, em 2013, o Google anunciou o Google Nose, uma ferramenta que poderia transferir arquivos de cheiros entre usuários. Bastava aproximar o nariz da tela e aguardar alguns segundos até aparecer um botão com o nome do cheiro. Botões com os nomes “Cachorro molhado” ou “Fralda” fizeram muitas pessoas deixarem seu nariz estampado na tela.

No entanto, nem sempre o público é único enganado. Veículos também cometem “barrigas”, publicando brincadeiras como se fossem verdades. No Brasil, um dos casos mais lembrados relacionados com o 1º de abril foi o do Boimate da revista Veja.  O ” fruto da carne”, derivado da fusão da carne do boi e do tomate, batizado com o sugestivo nome de boimate, constituiu-se, sem dúvida, no mais sensacional ” fato científico” de 1983, pelo menos para a revista Veja, em sua edição de 27 de abril.   Tudo começou com uma brincadeira da revista inglesa New Science que, a propósito do dia 1º de abril, dia da mentira, inventou e fez circular esta matéria.

 A fusão de células vegetais e animais entusiasmou o responsável pela editoria de ciência da Veja que não titubeou em destacar o fato. E fez mais: ilustrou-o com um diagrama e entrevistou um biólogo para dar a devida repercussão da descoberta.  Para a revista, ” a experiência dos pesquisadores alemães, porém, permite sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica”.

No entanto, a revista inglesa deu inúmeras pistas da brincadeira: os biólogos Barry McDonald e William Wimpey tinham esses nomes para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald´s e Wimpy´s. A Universidade de Hamburgo, palco do “grande fato”, foi citada para que pudesse ser relacionada com ” hambúrguer”. A descoberta do engano foi feita pelo jornal O Estado de S. Paulo que, após esperar inutilmente pelo desmentido, resolveu ” botar a boca no mundo” no dia 26 de junho.

No entanto, o espírito brincalhão dos brasileiro não deixou por menos. Durante o intervalo entre a matéria da Veja e o desmentido do Estadão, cartas e mais cartas chegaram às redações. Uma delas que, maliciosamente assinada ” X-Burguer, Phd, Capital”, lembrava que no Brasil já haviam estudos para criação do Porcojão ou Feijoporco, cruzamento de porcos com feijões, que seria uma contribuição à tradicional feijoada paulista.

Domingos Archangelo escreveu ao Jornal da Tarde uma carta colérica contra a ” a violação das leis naturais”. Segundo ele, ” do alto dos meus 76 anos, não posso ficar calado ante tal afronta às leis divinas. Boi nasceu para pastar, para puxar os saudosos carros do interior e para nos oferecer sua saborosa carne. E tomate, além das notórias qualidades que se lhe imputam na cozinha, serve também para ser arremessado à cabeça de quem perpetra tal monstruosidade e, também, dos dão guarida e incentivam tais descobertas”.

Finalmente, com o objetivo de pôr fim ao caso que já divertia as redações, a revista publicou, na edição de 6 de julho, ou seja, depois de dois meses, o desmentido: ” tratou-se de lastimável equívoco”. E justificou-se, explicando que é costume da imprensa inglesa fazer isso no dia 1º de abril e que, desta vez, havia cabido à revista entrar no jogo, exatamente no ” seu lado mais desconfortável”.