Nova etapa do Plano Safra garante mais recursos para o campo

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A metade do ano é, tradicionalmente, época de planejar financeiramente o próximo plantio. Com um ciclo do Plano Safra se encerrando e outro começando, a expectativa dos agricultores pelo crédito rural representa um dos mais importantes momentos do agronegócio, já que o financiamento é fonte dos investimentos no campo.

Para o ciclo 2018-2019, o governo federal anunciou R$ 194,3 bilhões em junho, com uma redução média de 1,5 ponto percentual nas taxas. Os recursos podem ser acessados entre 1º de julho de 2018 e 30 de junho de 2019.

De acordo com o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro-RS), Paulo Pires, em relação à inflação os juros poderiam ser menores, lembrando que os bancos já vinham praticando percentuais menores que os propostos para credores com pequeno risco e altos volumes, inclusive bem abaixo do que os juros do crédito rural do ano passado. “Isso é uma novidade no Brasil, porque talvez é uma das primeiras vezes que acontece, ou seja, os juros de mercado propostos para algumas empresas e, especificamente, cooperativas, mais baratos que os juros controlados do crédito rural”, observa ele.

Do total, são destinados R$ 151,1 bilhões para o crédito de custeio, sendo R$ 118,8 bilhões com juros controlados (taxas fixadas pelo governo) e R$ 32,3 bilhões com juros livres (livre negociação entre a instituição financeira e o produtor). O crédito para investimentos ficou em R$ 40 bilhões. O Plano Safra inclui, ainda, R$ 2,6 bilhões para o apoio à comercialização e R$ 600 milhões para subvenção ao seguro rural.

As taxas de juros de custeio foram reduzidas para 6% ao ano para os médios produtores (com renda bruta anual de até R$ 2 milhões) e para 7% ao ano para os demais. Já as taxas para os financiamentos de investimento ficaram entre 5,25% a.a. e 7,5% a.a.. Parte dos recursos captados em Letras de Crédito do Agronegócio será destinada ao financiamento complementar de custeio e de comercialização, com juros de até 8,5% ao ano.

Henrique Dornelles, presidente da Federação das Associações dos Arrozeiros do RS (Federarroz), avalia que a modalidade para construção de Armazéns (PCA) e o programa ABC, para a Agricultura de Baixo Carbono, continuam tendo um incentivo, mas com redução de juros maior. “Os demais programas de investimento tiveram diminuição de juros quase insignificante. Somente as taxas administrativas cobradas pelos bancos já correspondem a esta redução de 0,5%”, reclama.

Henrique Dornelles, presidente  Federarroz – Crédito AgroEffective

O plano ABC, conforme dados do Ministério da Agricultura, já resultou em modificações de 10 milhões de hectares – destes, 500 mil hectares com a utilização do sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). O ABC foi criado há oito anos e recebeu mais de R$ 15 bilhões de investimentos.

Os arrozeiros, por outro lado, representam um dos segmentos que mais estão demandando renegociação das dívidas devido a questões como o baixo preço. Segundo a Federarroz, a entidade tem solicitado aos agentes financeiros a prorrogação automática dos vencimentos das parcelas de créditos rurais previstas para as próximas semanas. O objetivo é evitar a inadimplência dos produtores.

No recente anúncio do Plano Safra, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, confirmou a criação de uma linha de crédito com o objetivo de viabilizar a repactuação de dívidas agrícolas, pelo prazo de até 12 anos, por meio do BNDES. A alegação da Federarroz é a de que o setor orizícola enfrenta a maior crise de sua história.

Para a pecuária, o prazo é de até dois anos no crédito de custeio para a retenção de matrizes bovinas de leite, suínas, caprinas e ovinas. Também foi aprovada linha de financiamento de até R$ 50 milhões para capital de giro às cooperativas de leite, com juros de 7% a.a. e 12 meses de prazo para pagamento. Pecuaristas podem, ainda, contar com empréstimos para aquisição de animais para reprodução ou criação, a juros controlados de 7% ao ano e limite de R$ 450 mil por beneficiário no ano agrícola.

Seguro agrícola com poucos recursos
Embora os analistas e executivos de bancos considerem positivos os números do Plano Safra 2018-2019, um dos pontos é alvo, historicamente, de reclamações: os poucos recursos destinados ao seguro agrícola. São R$ 600 milhões para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).

Presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), João Martins da Silva afirma que o valor é suficiente para segurar apenas 10% da área plantada no Brasil. “Em uma economia moderna, seguro é tão ou mais importante do que o crédito”, diz. A entidade havia solicitado ao governo pelo menos R$ 1,2 bilhão para o seguro.

Pires, da Fecoagro, ressalta que a expectativa era algo em torno de R$ 800 milhões. “O seguro rural é uma política pública muito interessante para o setor, pois é determinante até para o governo por se tratar de um bom investimento, uma vez que diminui bastante as prorrogações, os acertos de contas com os produtores depois quando ocorrem os problemas”, completa.

O financiamento é importante, uma vez que a safra tem registrado recordes sucessivos sem avançar em regiões de preservação ambiental. Conforme o Ministério da Agricultura, a partir da safra 1991/1992, a produção de grãos cresceu 3,4 vezes, passando de 68,4 milhões de toneladas para 232,6 milhões de toneladas. O total de área plantada aumentou apenas 1,6 vezes, indo de 38,5 milhões de hectares para 61,5 milhões de hectares no mesmo período.

Outros destaques são o maior apoio para o financiamento de construção de armazéns com capacidade de até 6 mil toneladas nas propriedades dos pequenos e médios produtores rurais e à recuperação de reserva legal e de áreas de preservação permanente no âmbito do Programa ABC. Para essas finalidades, os juros estão em 5,25% ao ano.

BRDE: 60% da carteira no agronegócio
Armazenagem é um dos segmentos de maior demanda hoje por crédito rural, conforme explica Maurício Mocelin, superintendente do BRDE no Rio Grande do Sul. “Maior produtividade no campo e, consequentemente, elevadas safras, são fatores que vão continuar exigindo mais espaço para armazenamento”, relata.

Conforme ele, desde 2012 a safra gaúcha tem crescido mais rápido do que a capacidade para guardar os grãos, fator que impulsiona essa expectativa. Esse impulso ganha força com a expansão da soja pela Metade Sul, região antes dominada pela pecuária e pelo arroz.

O agronegócio representa 60% da carteira de investimentos do BRDE no Rio Grande do Sul. “São contratos em áreas como frigoríficos, processamento de leite, suinocultura, máquinas e equipamentos. O banco, historicamente, se voltou para esse setor que tem registrado uma boa rentabilidade”, conta Mocelin.

A expectativa do BRDE é manter ou até mesmo elevar o volume de R$ 300 milhões financiados com o último Plano Safra. “Tem potencial para crescimento porque muitos produtores, no início do ano, seguraram investimentos na expectativa de redução dos juros do Plano Safra recém-anunciado, o que se confirmou”, avalia Mocelin.

BRDE – Maurício Mocelin /divulgação SDECT

Um dos pontos fortes da carteira da instituição é o BRDE – PCS – Agronegócio Sustentável. O subprograma foi um dos destaques do ano passado, com R$ 34,9 milhões aplicados em 34 projetos. Ele oferece apoio a projetos que adotem as melhores práticas de sustentabilidade no agronegócio, com o objetivo de reduzir impactos ambientais.

Pode ser direcionado a sistemas de tratamento ou aproveitamento de dejetos, incluindo aproveitamento para geração de energia e compostagem, ou, também, para recuperação de pastagens degradadas. Também permite a implantação de sistemas de integração lavoura-pecuária, lavoura-floresta, pecuária-floresta ou lavoura-pecuária-floresta. O BRDE — PCS – Agronegócio Sustentável pode auxiliar, ainda, na regularização ou adequação das propriedades rurais quanto à legislação ambiental, inclusive da recuperação de áreas de preservação permanente.

Nos momentos bons e ruins
Principal financiador do agronegócio, com 60% do mercado, o Banco do Brasil tem R$ 20 bilhões em contratos da carteira agrícola apenas no Rio Grande do Sul. “Somos um banco que está junto do cliente nas horas boas e também nas ruins, como o problema recente no arroz”, ilustra Anderson Quevedo, gerente de mercado agronegócio do BB no Rio Grande do Sul.

Conforme Quevedo, o arrozeiro hoje tem possibilidade de prorrogar o contrato da safra 2017-2018 e, assim, tentar garantir um melhor preço. “As dificuldades de comercialização estão previstas nas normas, mas não é um apoio importante do banco”, relata.

 No Plano Safra 2016-2017, o BB emprestou R$ 8,5 bilhões para os produtores gaúchos. No atual, que está encerrando, a expectativa é ultrapassar um pouco esse patamar, chegando a R$ 8,6 bilhões. Para 2018-2019, Quevedo conta que objetivo é ultrapassar esse montante.

Um dos clientes mais relevantes no segmento rural é a agricultura familiar. Apenas o Banco do Brasil tem R$ 7 bilhões emprestados para os pequenos produtores do Rio Grande do Sul. São 350 mil contratos, com um valor médio de R$ 20 mil.

Segundo Quevedo, metade das contratações aconteceu por meio de correspondentes bancários. Um dos principais parceiros é a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do RS (Fetag-RS) e seus sindicatos filiados. “O produtor leva lá seus documentos, encaminha a proposta, que é enviada para o banco. Aprovada, tudo volta para o sindicato, que imprime e é assinado pelo agricultor”, explica.

Anderson Quevedo do Nascimento – gerente agronegócio do BB/divulgação

De acordo com Quevedo, 80% dos contratos de crédito rural do Banco do Brasil já têm seguro agrícola contra problemas climáticos. Um outro produto também cobre riscos com estiagem e chuva em excesso, mas com uma inovação: garante renda para o agricultor. “De certa forma, este seguro supre aquela expectativa que se tem todo ano com o preço após a colheita. A procura tem crescido bastante”, explica.

Foco na agricultura familiar
Confiante nas perspectivas do agronegócio, o Sicredi disponibiliza, para o Plano Safra 2018-2019, R$ 6,9 bilhões para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Desse total, R$ 5,9 bilhões vão para custeio, comercialização e investimento em linhas do Pronaf e do Pronamp. E R$ 1 bilhão será operacionalizado com recursos do BNDES.

A expectativa é realizar cerca de 114 mil operações. No fechamento do ciclo anterior (2017-2018), as contratações de crédito rural junto ao Sicredi somaram R$ 4,9 bilhões nos dois Estados do Sul. Conforme o diretor executivo da Central Sicredi Sul Sudeste, Gerson Seefeld, juntos, Santa Catarina e Rio Grande do Sul respondem por 43% do total liberado pelo Sistema Sicredi no País.

Seefeld relata que o agronegócio é o ponto de origem de muitas das cooperativas que integram o sistema. “Estamos presentes em 92% dos municípios gaúchos, somos muitos próximos também da agricultura familiar”, conta. Aliás, a agroindústria e a agricultura familiar representaram 92% dos contratos fechados no ciclo anterior do Plano Safra – cerca de R$ 4,5 bilhões em financiamentos, com um valor médio de R$ 25 mil.

Gerson-Seefeld/divulgação

A forte capilaridade é importante, uma vez que dois terços dos municípios gaúchos têm menos de 10 mil habitantes. “Há cidades em que todos se conhecem, então temos um nível de confiança mais elevado. Isso auxilia na concessão do crédito”, pondera Seefeld. O resultado é que o Sicredi tem uma das mais baixas taxas de inadimplência do Brasil – cerca de 0,15%.

O executivo destaca que um dos fatores que permitem o crescimento do crédito rural é a forte captação da poupança. Cerca de 48% dos R$ 6,9 bilhões previstos para o plano safra 2018-2019 têm como fonte a poupança. Apenas essa modalidade de investimento registrou alta de 44% nos últimos 12 meses no Sicredi (junho 2018 sobre junho 2017).

Fundo Clima: a aposta do Badesul
Jeanette Lontra, Presidente do Badesul, destaca que 40% dos recursos do banco estão direcionados para o agronegócio. “Trabalhamos com projetos de armazenagem, de irrigação, também de máquinas e equipamentos. Acreditamos que a procura irá aumentar após a divulgação recente do novo Plano Safra”, pondera.

Um dos destaques do Badesul é o Fundo Clima, programa gerenciado pelo Bndes destinado a apoiar a implantação de empreendimentos, a aquisição de máquinas e equipamentos e o desenvolvimento tecnológico relacionados à redução de emissões de gases do efeito estufa.

No caso da agricultura, é uma linha que pode financiar sistemas de energia fotovoltaica. “Isso beneficia também os pequenos produtores pessoa física, que precisam hoje de força para funcionar seu pivô lá no campo, por exemplo, mas não têm energia suficiente”, conta Jeanette.

Jeanette Lontra, Presidente do Badesul

A modalidade permite aos consumidores reduzirem gastos com a conta de luz, já que passarão a comprar menos energia da concessionária e poderão, dependendo de sua região, fazer até uma conta corrente de energia vendendo o excedente para a distribuidora. Os limites do Fundo Clima alcançam 80% dos itens financiáveis.

Safra anterior: volume de R$ 132 bilhões
Conforme balanço divulgado pelo Ministério da Agricultura, a contratação do crédito rural por médios e grandes produtores rurais atingiu R$ 131,6 bilhões, em onze meses, de julho do ano passado até maio deste ano. O montante equivale aproximadamente ao total do volume contratado em toda a safra 2016/17.

A modalidade de custeio é a de maior destaque. Somou, no período, R$ 72,2 bilhões (aumento de 2% no valor das contratações), com aumento do valor médio das operações de custeio, ou seja, operações com valores maiores.

As finalidades de industrialização e de comercialização tiveram incrementos percentuais semelhantes, na faixa de 35%. O investimento também apresentou variação positiva de 28,6% em relação ao mesmo período da safra passada, sendo a segunda finalidade a demandar maior volume de recursos, com R$ 27,2 bilhões.

Linhas direcionadas para investimento, como o Moderfrota (Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras), o Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural) e o ABC (Programa para Redução da Emissão de Gases de Efeito Estufa na Agricultura) foram os mais demandados pelos médios e grandes produtores rurais.

Enquanto o Pronamp e o ABC tiveram crescimento em torno de 50%, o Moderfrota teve variação positiva de 5,3%, em relação à safra 2016/17. Outro forte destaque foi o PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns), com alta de 113% nas contratações.