Natal antecipado

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Todo ano parece que segue a mesma reclamação: o Natal está chegando cada vez mais cedo. Não que a Igreja esteja constantemente mudando a data de nascimento de Jesus Cristo (algo que o pessoal de Capricórnio iria protestar), ou que Papai Noel esteja adiantando trabalho para poder tirar uma folga em Jericoacoara esse ano. Mas as queixas de que estamos tendo que lidar com propagandas e decorações voltadas para as comemorações – e as compras – natalinas antes do período considerado normal são bastante comuns.

Exceto que esse fenômeno não tem nada de novo. No século XIX, anúncios de lojas nos Estados Unidos já avisavam consumidores e revendedores sobre promoções para produtos de Natal em outubro. Em 1954, os jornais britânicos noticiavam que comerciantes do Reino Unido estavam se queixando de concorrentes que estavam usando decorações natalinas nas vitrines cada vez mais cedo. Uma loja de Birmingham chegou a montar um Papai Noel em setembro. “Quando chegar o Natal, as crianças vão estar enjoadas de Papai Noel”, reclamava um lojista.

No entanto, se as crianças deveriam ficar enjoadas com decorações antecipadas, isso não parece que está acontecendo – e muito menos com os adultos.. Em 2006, a Federação Nacional do Varejo norte-americana já apontava que 40%dos consumidores planejava comprar presentes ainda em outubro. Desde 2010, tem crescido no mercado mundial uma tendência de grandes redes começarem seu merchandising de fim de ano a partir da metade de setembro, com marcas como  Walmart, Sam’s Club, Kmart, Costco, J.C. Penney, Sears, e Lowe’s começando vendas de Natal antes de 1º de outubro.

A antecipação de vendas não é um fenômeno exclusivo do Natal. Muitos supermercados no Reino Unido começam a vender ovos de Páscoa antes mesmo do Natal. Nos Estados Unidos, é comum lojas venderem produtos relacionados ao Dia da Independência, 4 de julho, antes mesmo da Páscoa, e cada feriado é tem seu marketing iniciado tão logo ou mesmo antes de anterior ter chegado.

É claro que no Natal as lojas têm um incentivo ainda mais forte para buscar a atenção do público cada vez mais cedo, tendo em vista a importância econômica da data. Segundo o SPC Brasil, as vendas de Natal movimentam mais de R$ 50 bilhões na economia nacional. Isso é aproximadamente 25% de todos os recursos injetados na economia pelo 13º salário dos trabalhadores brasileiros (um dos grandes alvos da publicidade natalina antecipada).

E o consumidor também demonstrado que gosta de adiantar as compras quando pode. Estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) em parceria com a Ferraz Pesquisa de Mercado mostra que pouco mais de um terço (37%) das compras da Black Friday, que acontece na quarta sexta-feira de novembro, são antecipação de aquisições de Natal. No caso de itens de vestuário, essa fatia é bem maior e chega a 53% do faturamento da megapromoção.

Mas, se o leitor acha negativo esse “incentivo ao consumismo”, é bom lembrar de uma das principais razões das pessoas gostarem dessa época do ano: elas ficam felizes. Um estudo norte-americano do Journal of Environmental Psychology apontou decorar a casa para o Natal e comprar presentes faz as pessoas terem emoções felizes e nostálgicas, muitas vezes remetendo à infância. Quanto mais cedo as decorações começam, por mais tempo dura esse sentimento.

Talvez o melhor, ao invés de reclamar da festividade antecipada, seja apenas aproveitar o espírito natalino. Ao contrário do que diziam os comerciantes britânicos da década de 1950, parece que as pessoas não enjoam tão facilmente do Natal. Por mais consumista que a data se torne, as emoções que ela causa ainda são mais fortes do que qualquer repulsa provocada por sua exploração. Feliz Natal e um ótimo Ano Novo a todos!