Não sou bela para a tela

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Assunto batido, sei. Mas cada vez que reflito sobre porque as novas gerações abandonaram a televisão, algumas revistas e jornais, além dos impulsos óbvios da publicidade, entre os fatores, a falta de representatividade e de narrativas honestas vem no topo da lista.

A morte matada dos tradicionais “ibopes” me soa como uma devolutiva da agressão que a indústria da comunicação e entretenimento desferiu contra as pessoas ao longo do tempo. A publicidade, então, julgou, debochou e classificou pessoas e tipos, objetificou mulheres e meninas e quase sempre, imperativa, ousou determinar o que você precisava ter para ser. Não me surpreende que a moçada abaixo dos 25 anos não entenda a força do plim plim, não mexa um músculo da face quando falamos em WBrasil ou ainda, só conheça o ex âncora do Jornal do Almoço pelo vídeo do choque na festa da uva, viralizado pelo youtube. Eles chegaram desligando os canais que conhecemos.

Eu não acredito que o movimento de abandono das velhas mídias seja ocasionado apenas pelo On Demand. As linguagens da comunicação andam distantes da verdade há tempos.

Enquanto a novíssima geração anda leve e solta em conceitos menos binários traduzidos por um comportamento livre quanto à postura estética, roupas e cabelos; a publicidade ainda está preocupada em retratar mulheres de 40 anos usando modelos com menos de 30.

Sem contar que para onde quer que a gente olhe existe algum tipo de mensagem dizendo como deveríamos ser para nos tornarmos belos, para sermos aceitos pelos outros e por fim, por nós mesmos. Tem ainda aquela pressão pela juventude, pela beleza, pela magreza. Uma narrativa enfadonha do que poderia ser sucesso. A gente já comprou este papo alguma vez. E pagou caro por isso. Mas as “gurias” de 20 anos não estão nem aí se não são belas para a tela. Elas criam janelas e contam suas histórias.

A busca pelo conteúdo próprio é uma resistência da nova geração sobre a imposição de uma narrativa pouco autêntica em que o que pensamos sobre nós mesmos é tratado como irrelevante. E a velha guarda assimilou esta versão da vida. Tanto que, a medida que as redes sociais envelheceram e foram tomadas por pais e avós, os jovens foram caindo fora. Eles estão mais livres que do que nós do endosso dos likes.

Essa tribo que julgamos “não querer nada com nada” está começando a dar trabalho as gigantes do mercado, incluindo a comunicação. Eles não só desligaram a TV. Eles não querem carro, não estão dispostos a entrar em calças menores que seus corpos, não tem cartão de crédito e não gostam de (hiper) supermercado. O lugar deles é a feirinha do bairro, o “visa” deles está no escambo ou na compra coletiva. Ah, possivelmente não pensam em mudar a cara com que nasceram e não irão parcelar próteses de silicone em 12 vezes.

Desconectados das velhas mídias e abandonando redes e aplicativos que insistem em narrativas impositivas, a turma parece um pouco mais livre para identificar e viver suas próprias versões.  Para eles a tela é muito pequena para o que é bela de verdade.

 

Marta Dueñas