Na contramão do desmatamento

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O Brasil utiliza apenas 7,6% do seu território com lavouras – cerca de 64 milhões de hectares. Os dados são da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), apresentados neste ano e que confirmam a tese, defendida pelo Ministério da Agricultura, de que o agronegócio não é responsável pelo desmatamento no País.

Em 2016, a Embrapa Territorial já havia calculado a ocupação com a produção agrícola em 7,8% (65,9 milhões de hectares). Os números da Nasa datam de novembro de 2017, indicando percentual menor, mas segundo o chefe geral da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda, doutor em Ecologia, é normal a pequena diferença de 0,2% entre os dados brasileiros e norte-americanos.

Conforme Miranda, alguns dados comparativos entre o uso agrícola dos países, de acordo com a Nasa, merecem destaque. Os métodos empregados pela agência norte-americana foram homogêneos em todo o planeta. O Brasil protege e preserva a vegetação nativa em mais de 66% de seu território e usa 7,6% das terras para cultivo. “A Dinamarca cultiva 76,8%, dez vezes mais que o Brasil; a Irlanda, 74,7%; os Países Baixos, 66,2%; o Reino Unido 63,9%; a Alemanha 56,9%, e por aí vai”, explica ele.

O trabalho conjunto da Nasa, em parceria com o Serviço Geológico (USGS) dos Estados Unidos, fez o mapeamento e o cálculo das áreas cultivadas do planeta baseados em monitoramento por satélites. Durante duas décadas, a Terra foi vasculhada, detalhadamente, em imagens de alta definição por pesquisadores do Global Food Security Analysis, que comprovaram os dados antecipados pela Embrapa.

As áreas cultivadas variam de 0,01 hectare por habitante – em países como Arábia Saudita, Peru, Japão, Coréia do Sul e Mauritânia – até mais de 3 hectares por habitante no Canadá, Península Ibérica, Rússia e Austrália. O Brasil tem uma pequena área cultivada de 0,3 hectare por habitante, e situa-se na faixa entre 0,26 a 0,50 hectare por habitante, que é o caso da África do Sul, Finlândia, Mongólia, Irã, Suécia, Chile, Laos, Níger, Chade e México.

O levantamento da Nasa também detalha informações sobre a segurança alimentar no planeta, com a medição da extensão dos cultivos, áreas irrigadas e de sequeiro, intensificação no uso das terras com duas, três safras e até áreas de cultivo contínuo. Não entram nesses cálculos áreas de plantio florestal e de reflorestamento, que são as terras dedicadas ao plantio de eucaliptos. No Brasil, contaram-se apenas as lavouras.

De acordo com o estudo, a área da Terra ocupada por lavouras é de 1,87 bilhão de hectares. A população mundial atingiu 7,6 bilhões em outubro passado, resultando que cada hectare, em média, alimentaria 4 pessoas. Na realidade, a produtividade por hectare varia muito, assim como o tipo e a qualidade dos cultivos.

“Os europeus desmataram e exploraram intensamente o seu território. A Europa, sem a Rússia, detinha mais de 7% das florestas originais do planeta. Hoje tem apenas 0,1%. A soma da área cultivada da França (31,8 milhões de hectares) com a da Espanha (31,7 milhões de hectares) equivale à do Brasil”, relata Miranda.

As maiores áreas cultivadas estão na Índia (179,8 milhões de hectares), nos Estados Unidos (167,8 milhões de hectares), na China (165,2 milhões de hectares) e na Rússia (155,8 milhões de hectares).  Somente esses quatro países dominam 36% da área cultivada do planeta. O Brasil ocupa o quinto lugar, seguido pelo Canadá, Argentina, Indonésia, Austrália e México.

Miranda concorda que não procede a imagem do Brasil de nação despreocupada com a questão ambiental. Segundo ele, o País é e será cada vez mais reconhecido como uma potência agrícola e ambiental. “O total de áreas destinadas à preservação e proteção da vegetação nativa (unidades de conservação, terras indígenas, áreas militares, terras devolutas e imóveis rurais) representa 66,3% do território nacional. Quem protege e preserva isso no mundo?”, questiona ele.

Já Marcelo Vieira, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), credita essa imagem negativa aos competidores do Brasil no disputado mercado internacional de commodities. “Um dos nossos maiores problemas é a imagem, estamos começando a trabalhar isso no mercado internacional e internamente também. O Brasil é o país que mais preserva e tem a legislação ambiental mais rígida do mundo. Isso tem que ser mostrado”, afirma.

A SRB lançou, recentemente, o projeto Reduzindo o Desmatamento na Cadeia Produtiva de Soja, também chamado de GEF Matopiba. O GEF (sigla em inglês para Fundo Global para o Meio Ambiente) investirá R$ 22 milhões nos próximos três anos para promover o desenvolvimento sustentável de commodities agrícolas na nova fronteira agrícola do Brasil, a região composta por partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (por isso Matopiba).

O programa visa reduzir o desmatamento e promover a produção sustentável de soja na região. Uma das maneiras de alcançar essa meta é incentivar as práticas mais sustentáveis na produção de commodities, por meio da articulação com stakeholders (governos, produtores, empresas) e desenvolvimento de atividades no campo nas regiões onde o programa terá projetos-pilotos. A expectativa, ao final do projeto, é ter 40% da região protegida em unidades de conservação, terras indígenas, reservas legais e áreas de preservação permanente.

São essas iniciativas que mudam, aos poucos, a visão que muitos têm do agronegócio. Miranda, da Embrapa, cita uma pesquisa recente, realizada nas principais capitais, em que 89% dos entrevistados concordaram que o Brasil é o país do agronegócio e 94% o consideram importante ou extremamente importante. “Basta aos críticos deixarem suas visões anacrônicas e pôr o pé na roça, para descobrir e desfrutar de todo o avanço ambiental da agricultura. Conhecer melhor o campo brasileiro é necessário. Aqui e no exterior. O papel da Embrapa é o de fornecer dados, números, mapas e fatos”, avisa ele.

O pesquisador salienta que a agricultura brasileira não admite generalizações ou simplismos. Seus complexos sistemas de produção são cada vez mais integrados, verticalizados, amigos da biodiversidade, sustentáveis, eficientes e diversificados. “E têm um papel fundamental, tanto na garantia básica da segurança alimentar dos brasileiros e do mundo, como na oferta farta e diversificada de produtos agropecuários para as mais variadas finalidades, caseiras ou industriais”, diz.

Para onde crescer?

Para Evaristo de Miranda, a prioridade da agricultura brasileira é ampliar sua produtividade e competitividade. Busca-se o crescimento vertical, e não horizontal, ou seja, utilizar as mesmas áreas para produzir sempre mais.“É possível ampliar a área cultivada em todos os estados da federação, de forma sustentável. O caminho principal é converter pastagens em áreas agrícolas, sem necessidade de novos desmatamentos”, destaca. Mas existem limites biológicos e fisiológicos nas plantas. “Ninguém produzirá 15 toneladas de soja por hectare. O aumento de área cultivada ocorrerá, tendo como prioridade as pastagens”, cita ele.

Presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Marcelo Vieira concorda que o Brasil tem uma área enorme de pastagem que pode ser convertida para a produção de grãos – a tendência é crescer nestas áreas. “O que percebemos, em muitas regiões, é que a produção de soja, de cana-de-açúcar, aumentou em áreas de pecuária”, relata.

Segundo Miranda, agricultores gaúchos, da região do Campos de Cima da Serra, foram pesadamente multados por converterem suas pastagens em áreas de cultivos, o que não deixa de ser um paradoxo. Esse processo ocorre desde meados do século passado.

Hoje, cerca de 40% do território dos Campos de Cima da Serra são ocupados com agricultura e 30% com pecuária e reflorestamentos. Os dados do Sistema de Cadastro Ambiental Rural (SICAR), em outubro de 2017, processados pela Embrapa Territorial registravam 46.909 imóveis rurais cadastrados ou 1.387.293 hectares.

Desta área, 452.062 hectares ou 33% da área cadastrada são destinados à preservação da vegetação nativa, incluindo diversos tipos de formações vegetais. As áreas referem-se principalmente às de preservação permanente (APP), reserva legal (RL) e às de vegetação nativa excedente. “Isso é muito mais do que o máximo exigido pela legislação ambiental a ser destinado à preservação da vegetação nativa em Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal (20%)”, afirma.

O Cadastro Ambiental Rural (CAR), outro elemento importante para quantificar as áreas de preservação no Brasil, foi novamente prorrogado – agora, o prazo final é 31 de maio deste ano. A base eletrônica de dados foi criada a partir do novo Código Florestal e contém informações das propriedades e posses rurais, além dos limites das posses com áreas de vegetação nativa e reservadas para preservação.

A inscrição no cadastro eletrônico é obrigatória para todos os imóveis rurais do Brasil. Conforme os últimos dados parciais, o CAR já ultrapassou a meta no País: de 398 milhões de hectares esperados para integrarem o cadastro, o sistema conta com 431 milhões de hectares registrados. No Rio Grande do Sul, dos 20,3 milhões de hectares estimados, entraram no CAR até dezembro 19,6 milhões de hectares (96,7%).