Na contramão da estiagem

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Já vão dez anos desde que o governo estadual implantou uma política para fomentar o uso da irrigação no Rio Grande do Sul. A partir de 2008, com a criação de uma secretaria especial de irrigação no governo Yeda Crusius, houve grande expansão nas ações que visam reduzir os impactos negativos de uma eventual estiagem em diversas áreas do Rio Grande do Sul.

Depois, em 2012, o Programa “Mais água, mais renda” surgiu com o objetivo de aumentar a área irrigada no Estado. “Isso veio muito a partir de uma crise que tivemos com o abastecimento de milho naquele ano”, relembra José Enoir Daniel, técnico estadual em irrigação da Emater-RS.

Antes dos programas estaduais, a área irrigada no Rio Grande do Sul era de 70 mil hectares. Hoje, são cerca de 170 mil hectares. Muito além do incentivo financeiro para aquisição dos equipamentos, Daniel explica que a facilitação do licenciamento ambiental para o segmento é uma das medidas que tem ajudado o agricultor. “Hoje em dia é online e mais rápido. Em um passado recente, se esperava até dois anos pela licença. Não leva, atualmente, dois meses”, pondera.

Boa parte das lavouras irrigadas em solo gaúcho são de milho – cerca de 70%. Depois, cerca de 20% utilizam irrigação em áreas de soja e o restante para pastagem. É justamente neste último produtor o foco de atuação da Emater. Atualmente, são 3.400 projetos de irrigação monitorados pela instituição no Rio Grande do Sul. “O agricultor com pasto irrigado tem garantia de retorno rápido na alimentação do gado. O problema é o calor do verão e, com a irrigação, conseguimos tirar esse vazio climático”, conta Daniel.

Um alerta é que o produtor rural não se preocupe com a irrigação apenas em momentos de estiagem. “Avisamos todo mundo que deve-se fazer os projetos enquanto chove porque, se esperar a seca, o prejuízo já veio. E mesmo com chuva a irrigação também ajuda”, relata.

Segundo Daniel, há estudos indicando que o Rio Grande do Sul tem potencial de água para irrigar mais 700 mil hectares – mas o que dificulta esse aumento de área não é a falta de água nem de financiamento, mas algo bem mais prosaico: energia elétrica.

“Seria necessário investir R$ 1 bilhão em energia no campo para termos condições apropriadas para ligar uma ordenhadeira, por exemplo, ou um pivô”, ilustra Daniel. Grande parte da rede existente hoje nos rincões é monofásica, suficiente para ligar bicos de luz e equipamentos menos potentes.

Brasil está entre os líderes em área irrigada
Estudo divulgado recentemente pela Agência Nacional de Águas (ANA) indica que o Brasil está entre os dez países do mundo com maior área irrigada. De acordo com o Atlas Irrigação: uso da água na agricultura irrigada, atualmente o país, tem 6,95 milhões de hectares, que produzem alimentos utilizando diferentes técnicas de irrigação.

Em 1960, eram apenas 462 mil hectares. A pesquisa mostra ainda que o número atual representa apenas 20% da área potencial para a atividade. A expectativa é alcançar 10 milhões de hectares até 2030. O potencial de expansão apontado acentua a necessidade de um esforço crescente de planejamento e gestão a fim de evitar ou minimizar conflitos pelo uso da água.

Na Região Sul são 1,7 milhão de hectares; o Sudeste lidera, com 2,7 milhões de hectares irrigados. No Nordeste, a área irrigada alcança 1,1 milhão de hectares; no Centro-Oeste, são 1 milhão de hectares e, no Norte, apenas 194 mil hectares com sistemas de irrigação.

O estudo da ANA destaca quatro métodos de irrigação em utilização: por superfície, subterrânea, por aspersão e localizada, especialmente usadas no agronegócio. Arroz (com 22% da área total irrigada, responde por 38% do consumo de água da produção irrigada hoje no Brasil), cana-de-açúcar, feijão, milho e soja são as culturas que concentram boa parte dos sistemas no Brasil.

De acordo com a agência, a irrigação contribui para a estabilidade e o aumento da oferta de alimentos e o consequente aumento da segurança alimentar e nutricional da população brasileira. “Tomate, arroz, pimentão, cebola, batata, alho, frutas e verduras são exemplos de alimentos produzidos sob alto percentual de irrigação”, afirma o relatório.

Conforme a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), os líderes mundiais são a China e a Índia, com cerca de 70 milhões de hectares cada, seguidos dos Estados Unidos (26,7 milhões de hectares), do Paquistão (20 milhões de hectares) e Irã (8,7 milhões de hectares). O Brasil aparece no grupo de países que têm área entre 4 e 7 milhões de hectares, que inclui a Tailândia, o México, a Indonésia, Turquia, Bangladesh, o Vietnã, Uzbequistão, a Itália e Espanha.