Miguel Otero “O que se tem hoje na Venezuela,é pior do que uma ditadura. É um regime que destruiu o país e está fazendo sofrer o seu povo”

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Desde 2015, o CEO do jornal venezuelano El Nacional, Miguel Henrique Otero, 71 anos, vive exilado em Madri, na Espanha, devido à perseguição política em seu país. Foi forçado a emigrar quando o então presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Diosdado Cabello, apresentou uma ação de difamação por haver reproduzido em seu jornal uma informação publicada no diário ABC, de Madri, que acusava o político de ser um narcotraficante. Hoje, ele está ameaçado de prisão caso retorne ao país.

Fundado em 1943 pelo escritor Miguel Otero Silva (pai de Miguel Henrique), El Nacional é o único jornal diário independente de tiragem nacional que restou na Venezuela. Os demais foram fechados ou cooptados pelo regime. Tendo inicialmente apoiado a campanha de Hugo Chavez à presidência da Venezuela em 1998, o veículo acabou se tornando a principal voz da oposição ao regime “bolivariano” no país, sofrendo diversas sanções econômicas e legais.

Nesta entrevista, o CEO do El Nacional fala sobre a situação do atual regime venezuelano e as condições do trabalho da imprensa no país. Para os jornalistas que têm que atuar sob governos autoritários, Otero dá um recado direto: “defendam a democracia”.

Como o senhor classifica o regime venezuelano atual?
É uma ditadura, porque não existe poder público independente, não existe Justiça. Todos os poderes estão sequestrados pelo Executivo. Violaram a Constituição, quando criaram a Assembleia Nacional Constituinte, que é o supra poder que conduz o país. Há 400 presos políticos, a maioria sem julgamento. Tomam-se decisões totalmente totalitárias e absolutistas. São todas as características de uma ditadura, mas eu digo que é pior do que isso, porque mais do que uma ditadura, é um regime que destruiu a economia, a capacidade produtiva. Não há alimento, não há medicina, destruiu-se a indústria farmacêutica, a indústria de alimentos, a agricultura. Então, é uma ditadura, mas uma ditadura que está destruindo o país.

Essa é uma ditadura mais aguda que as anteriores vividas na Venezuela?
São ditaduras distintas. Estamos numa ditadura pós-moderna, porque a ditadura tradicional – a ditadura militar – era uma ditadura que atuava sem nenhum tipo de respeito à legalidade. Esta, ao invés, cria uma legalidade para exercer a autoridade. Por exemplo, as eleições. Há muitas eleições, mas são fraudulentas. Nos anos 1950 não se permitia isso. Era um militar que tomava de forma arbitrária permanentemente. Há uma diferença entre uma ditadura militar tradicional, como a de Pérez Jiménez (ditador venezuelano de 1952 a 1958), Juan Vicente Gómez (presidiu a Venezuela por três vezes entre 1908 e 1935) ou a que aconteceu no Brasil, e as ditaduras pós-modernas, que derivam do populismo e criam um marco legal para atuar.

Acredita que havia um perigo de o Brasil se tornar como a Venezuela?
Eu não creio, porque a Venezuela é um extremo. Eu não consigo crer que um país pode cair em uma coisa assim. O que existe são populismos autoritários. É o caso da Nicarágua, Bolívia e o Brasil também trilhou parte desse caminho, mas é uma etapa anterior ao modelo venezuelano. O modelo venezuelano de destruição, absolutismo e repressão não tem em nenhum desses países.

O que acha do silêncio constrangedor que existe entre a esquerda do mundo e também de outras matrizes políticas com a tragédia humana que está acontecendo agora na Venezuela?
Alguns setores, que eram de esquerda e de centro, durante o governo de Hugo Chávez consideravam que Chávez era um reivindicador dos setores populares. Ele nacionalizou o setor petroleiro, num momento em aumentaram as cotações internacionais do petróleo. Num primeiro momento, ele conseguiu aumentar o padrão de vida dos setores populares, através de vários programas sociais. Mas esse benefício não teve nenhuma contrapartida produtiva. Era uma dádiva, um presente. Quando caiu o preço do petróleo, a quebra veio simultaneamente com o desmantelamento do setor produtivo devido ao seu nacionalismo, apropriação de empresas e a criação de cooperativas que não funcionaram. Então, o país entrou na crise que estamos vivendo atualmente. A esquerda do mundo e os partidos de centro falavam de Chávez como se fosse o grande reivindicador dos setores populares. Havia todo um discurso mundial de apoio ao Chávez. Mas os partidos de centro se deram conta do que estava acontecendo, os partidos socialistas também se deram conta progressivamente e só sobrou a outra esquerda, que o defende sem argumento, por razões ideológicas. Defendem o regime venezuelano porque o veem como um poder que combate o imperialismo, consideram que existe uma luta contra o capitalismo e têm que apoiá-la independentemente que mate pessoas. É uma coisa conceitual. Não é porque defendem Nicolás Maduro que se pode dizer que é um governo exitoso.

O que existe de resistência na imprensa venezuelana hoje?
Rádio e televisão estão totalmente controlados como uma concessão do Estado. Digamos que 40% do país só tem acesso a rádio e televisão estatais. Os outros 60% podem ter acesso a rádio e televisão privadas, mas elas estão autocensuradas. Criaram uma lei muito punitiva, que permite muito facilmente ao governo cancelar o sinal das emissoras. Entre os meios impressos, dois dos maiores jornais foram comprados com dinheiro público – El Universal e Última Notícia. Também entraram em contato comigo, tentaram comprar o El Nacional. Eu não vendi, mas criaram todo esse mecanismo que faz com que os periódicos impressos vão desaparecendo. Eles estão passando para a plataforma web. Nós somos os únicos que não somos unicamente plataforma web.

Como sobrevive o seu jornal?
Existe publicidade privada e a venda de exemplares. Isso não dá para comprar o papel em que somos impressos. Mas para o papel temos conseguido ajuda de outros jornais, por exemplo O Globo (Brasil), El País (Uruguai), El Mercurio (Chile), La Nacion (Argentina), El Comercio (Peru), El Tiempo (Colômbia), La Nacion (Costa Rica), El Universal (México) e El Nuevo Dia (Porto Rico).

Há uma resistência intercontinental?
Sim, claro. Existe uma solidariedade muito importante. Conseguimos papel e por isso nos mantemos no impresso. Claro, isso não é indefinidamente, porque essas coisas são temporárias.

Existem muitos jornalistas independentes na Venezuela?
É forte na plataforma web. Primeiro, tem os periódicos independentes impressos que não deixaram de existir, desapareceram do impresso, mas seguem na plataforma web. E existem agora os que são só da web. Muitos jornalistas estão trabalhando nessa plataforma. A web é muito forte na Venezuela, apesar de o governo tentar limitá-la, mas não pode fechá-los, porque são ponto com. Então, bloqueia-se e se desbloqueia, porque é um mundo globalizado. E, evidentemente, existem as redes sociais, que são muito poderosas. São dezenas de milhares de pessoas com smartphones que postam fotos de tudo que acontece. Claro que o governo reprime muitos que fotografam o que se passa. A força pública não pode ver-lhe ali com uma câmera porque vai tomar-lhe a câmera, destruí-la e muitas vezes a pessoa vai presa. Tem uma tuiteira que ficou um ano presa por usar o Twitter.

Vê uma saída para a Venezuela? Qual seria?
Eu acredito que tem saída, porque tem uma agitação muito forte nas forças armadas, tem um polo que protesta permanentemente, tem a comunidade internacional, que está no sistema de intervenção humanitária, e existe a oposição que está presente. Eu acredito na catástrofe do regime – existe uma fragmentação do regime, porque muitos chavistas se dividem também e já não o apoiam. Creio que o regime está com seus dias contados.

Quais são as perspectivas para as eleições de maio?
Essas não são eleições. Teríamos que chamar de outra maneira.

Teatro?
Mais ou menos. Os candidatos mais importantes estão presos ou inabilitados. Henrique Capriles, Antonio Ledezma e Leopoldo López não podem. O partido mais importante está inabilitado. As condições eleitorais, de registro e toda a estrutura eleitoral é conduzida pelo governo como lhe agrada. Existe um candidato que vai se lançar, que é um dissidente do chavismo, mas todo mundo crê que ele está atrelado com regime.

Chávez, quando conquistou o poder foi eleito democraticamente. Como acontece a transição de uma democracia normal, funcional, para a ditadura?
Ele ganhou de maneira limpa, mas criou um mecanismo de mudança nas eleições. Quando ganhava, ganhava, quando perdia, inventava algum modo de burlar as regras. Ele começando como alguém prometendo algo como uma Terceira Via, inspirado nos trabalhistas de Tony Blair, na Inglaterra, mas foi se tornando um regime autoritário. O primeiro passo foi sequestrar as instituições. Depois, passou a reformar tudo, inclusive a Constituição, para possibilitar a reeleição indefinida. Foi aplicando sequestros das instituições para construir um regime totalmente autoritário. E isso começou com o parlamento.

Aqui no Brasil aconteceu uma tentativa semelhante com o Mensalão, em que os deputados eram pagos para votar com o governo e havia a intenção de fazer uma nova Constituinte, para perpetuar interesses do grupo governante. Isso que aconteceu no parlamento, também ocorreu depois na Justiça?
Claro. Começou controlando as instituições, depois a produção, depois utilizando a polícia para reprimir, não permitir a resistência, controlando as eleições. Foi se controlando em todas as instâncias a participação democrática para que não se promova nenhum tipo de modificação.

O que pensa do momento que o Brasil enfrenta? O juiz Sérgio Moro é popular porque é visto como alguém que fez justiça. É um momento novo ou é mais do mesmo?
Eu vejo como um momento novo. Não é somente porque Lula foi preso. Uma quantidade de gente foi presa. Existe um processo contra a corrupção, que é geral. A corrupção é uma fonte de alimento do populismo. Esse sistema corrupto gera um tipo de condição eleitoral. E a economia brasileira necessita de um caminho fundamental, porque é uma economia gigantesca mas muito fechada ao mundo. Se o Brasil não se abrir vai colapsar internamente.

A crise na Venezuela criou uma outra crise que é uma crise humana, com refugiados venezuelanos em toda América Latina, criando problemas para os outros países, como aqui no Brasil, até com ondas de xenofobia em alguns lugares. Como vê esse problema dos refugiados?
Nos últimos anos, saiu 3,5 milhões de pessoas da Venezuela, o que é 15% da população. É uma coisa brutal e acelerada. Claro, no princípio, saía a classe média, os profissionais que tinham recursos e para todos os países onde iam eram um benefício. Mas quando a situação se massificou, começaram a sair setores populares, passando fome, o que se tornou um problema grave para os países em que chegam. Na Colômbia é uma coisa caótica. Eu estive agora em Cúcuta, na Colômbia, e é uma coisa horrível que acontece com os refugiados lá. O Brasil passa por uma situação parecida, especialmente em Roraima. Há duas questões graves no cenário regional latino-americano que têm a ver com a Venezuela. Até algum tempo, era só uma questão de solidariedade. Hoje, temos o narcotráfico – pois a Venezuela se transformou quase em um narcoestado – e a questão da imigração gigantesca da população.

América Latina tem um movimento pendular: hora é esquerda, hora é direita. Parece que agora, pela debacle da esquerda, parece que o pêndulo tende, novamente, à direita. O senhor acha que viveremos uma nova onda da direita em toda América Latina?
Sim, é o que está se passando no caso latino-americano, mas não há um melhoramento da distribuição da riqueza. A esquerda não resolveu o problema, mas aparece como oposição de uma direita que também não resolve o problema da pobreza. A essência é que tanto a esquerda quanto a direita têm deixado o pobre continuar pobre. E quando a esquerda está no governo, ainda mais pobre. Esse é um grave problema no nosso país.

O senhor vive exilado em Madri há três anos.Tem esperança de voltar à Venezuela brevemente?
Claro. Não só ainda tenho esperança de voltar, mas de colocar na manchete do jornal El Nacional que a Venezuela voltou para a democracia. Comandar um jornal do exílio é um problema grave, não é só pela distância. Eu viajo muito, não estou isolado em Madri. Felizmente, o governo espanhol me deu nacionalidade, então posso viajar, porque o regime venezuelano cassou meu passaporte.

O seu pai, Miguel Otero Silva (1908-1985), fundador do seu jornal, era um escritor conhecido pelo apoio à esquerda, e teve que viver no exílio por sua atuação política. Já imaginou essa conversa com ele? Esse acaso histórico de pai e filho viverem no exílio?
Meu pai viveu no exílio muito jovem, nos anos 1920/1930, no período do General Juan Vicente Gómez. Ele foi exilado quando preparou uma invasão à Venezuela pela Ilha Curaçao. Ele os companheiros dele chegaram a tomar o quartel do exército holandês na ilha Curaçao, para pegar armas, mas foram derrotados pelas tropas do governo quando desembarcaram na Venezuela, e ele teve que ficar novamente no exílio, na Colômbia. Mas nunca imaginei que iria passar pela mesma situação dele, de ser obrigado a viver fora de meu país.

Como vê o tratamento que a Venezuela recebe da imprensa internacional? Há muita condescendência ou fazem um retrato fiel do que acontece agora?
Cada vez mais um retrato fiel do que acontece. Os jornalistas que são de esquerda não compactuam com um regime tão opressor como o de Maduro. E o resultado desse regime é o empobrecimento de sua defesa, uma vez que poucos jornalistas ainda defendem o governo venezuelano. A imprensa internacional tem tomado consciência do que é a Venezuela e tem retratado cada vez mais a situação em que o país se encontra.

Acredita que possa haver uma solução militar na Venezuela ou uma intervenção externa?
Bom, alguma coisa tem que mudar. Eu não tenho problema com isso. Vamos supor que ocorra uma solução militar. Quem substituir o regime atual vai necessitar reconstruir a Venezuela, e não há recursos governamentais para reconstruí-la. Vai necessitar que as empresas multinacionais – porque o setor privado venezuelano está falido – façam investimentos, e as multinacionais não levarão dinheiro para uma ditadura militar. Então, se os militares tomarem o poder na Venezuela, teriam que entregar o poder imediatamente para os civis, porque senão não há dinheiro no país. Isso é um ponto. Por outro lado, uma invasão internacional não deve ocorrer. O que existe é o caso da realidade da Venezuela, que vive uma situação de caos, uma explosão social. Então, se houver uma intervenção externa, seria uma intervenção humanitária. Mas a Venezuela é um tema tão grave que qualquer coisa que signifique uma mudança é bem-vindo.

Passou do momento da ONU e outras entidades internacionais tomarem uma posição dura?
A ONU (Organização das Nações Unidas) é um organismo relativamente ativo, mas não tem grande influência direta atualmente. A OEA (Organização dos Estados Americanos) é mais importante, devido à sua carta democrática e às críticas constantes, a Venezuela chegou a sair da OEA. E hoje muitos países estão estão se pronunciando e adotando sanções, por exemplo, Suíça, Panamá, União Européia, Canadá.

E a posição dos Estados Unidos?
Os EUA têm uma posição muito forte contra o Maduro, que não era assim no tempo do Barack Obama.

Hoje, quase toda produção petrolífera da Venezuela é vendida para os Estados Unidos. Não poderiam tomar uma solução mais dura, como um embargo?
Os americanos não estão muito convencidos de que esse tipo de embargo funcione, porque tem recordação do embargo cubano. Embargaram Cuba e os cubanos utilizaram o argumento do embargo americano como propaganda interna. Então, os americanos não usam mais esse tipo de coisa. Fazem algumas sanções, mas não acredito que vão impedir a importação do petróleo venezuelano.

O que diria a outros jornalistas que vivem e trabalham sobre regimes opressores?
Diria que lutem, que é preciso lutar sempre! Que defendam a democracia! Isso é fundamental. Eu creio que os jornalistas que estão em países autoritários têm que defender o princípio do jornalismo, que é fornecer informação à população. Eles têm que defender o direito de informar. Para uma ditadura, o simples ato de informar é um inimigo. Jornalistas tem que ser, por consequência, defensores desse princípio básico.

Entrevista: Julio Ribeiro e Marcelo Beledeli
Fotos: Divulgação