Metade do cérebro

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Os estudantes, profissionais e acadêmicos de Jornalismo terão de abandonar a zona de conforto da ideologia para encararem o Brasil, a América Latina e o mundo com suas contradições atuais, ambiguidades, individualismo exacerbado das novas gerações, capazes de ficarem milionários num piscar de olhos. Terrorismo, migrações, fanatismo religioso. A busca da liberdade, reação a tiranias, falso moralismo, à postura calvinista da tábua de salvação do politicamente correto, contra a mentira e a corrupção. Só assim conseguirão descrever e decifrar a sociedade do século 21.

 

Até agora, a faculdade desenvolveu só a metade do cérebro dos alunos. A mediocridade de professores é camuflada pela postura ideológica, o medo de encarar os colegas e os alunos. Uma leitura de esquerda de todos os fatos nas dissertações e proselitismo, sempre partindo de uma premissa sociológica para interpretar situações ambientais, humanas, agrícolas, industriais ou mesmo científicas. Uma postura que vem da União Soviética. Nas teses acadêmicas russas, a conquista espacial, à frente dos Estados Unidos, e o desenvolvimento tecnológico eram frutos do trabalho coletivo.

A vitória de Jair Bolsonaro expôs a precariedade da entrevista. As perguntas partiam sempre de premissas repetidas, barbaridades verbais cometidas pelo presidente eleito ao longo de sua carreira política no baixo-clero na Câmara dos Deputados, sem nenhuma relevância nacional. Até que a população viu nele o único capaz de fazer a ruptura. A maioria não queria mais do mesmo. E fez ouvidos moucos para os lugares-comuns e atrocidades de antigas declarações do candidato. E os repórteres, numa postura de inquisidores, semblante casmurro, voltavam aos mesmos temas que Bolsonaro inúmeras vezes já tentara explicar ou resvalar para o lado.

Roberto D’Ávila, da Globo News, deu uma aula ao entrevistar o general Hamilton Mourão, polêmico vice-presidente eleito. Com postura, educação, simplicidade simpatia e frases curtíssimas perguntou tudo o que quis e recebeu sensatas respostas. Arguiu até sobre seu sentimento, como general, de receber ordens e bater continência para um capitão.

Revista Time
A revista Time foi criada em 1924 num momento crucial da história da humanidade. O mundo tinha saído da Primeira Guerra Mundial totalmente diferente. Houve desenvolvimento científico e na medicina, com amputação de membros e morfina para aplacar a dor. Os soldados mutilados se tornaram viciados. Os homens dirigiam carros conversíveis de ternos claros, ao lado de lindas mulheres de cabelos ao vento. “Belos e Malditos”, como o livro de Scott Fitzgerald, um dos ícones da chamada geração perdida. Aviões cruzavam os ares. Eles haviam sobrevivido à Guerra, queriam aproveitar ao máximo a vida, até porque no horizonte havia a possibilidade de outro conflito mundial, o que acabou mesmo ocorrendo em 1939. Nas festas, bebiam até cair e se drogavam.

Jornalismo interpretativo
A revista norte-americana surge neste contexto com o objetivo de interpretar a realidade. Não bastava apenas noticiar. Era preciso entender o autoflagelo da geração perdida. Assim surgiu o jornalismo interpretativo. Explicar os fatos, analisar, contextualizar, aprofundar, questionar, sem cair na opinião fácil. É como caminhar num arame, braços abertos, equilibrando-se em suas convicções, informações objetivas, a leitura do ambiente, descrições e a espada pontiaguda da linha editorial. Quem não quer sofrer, não seja jornalista.

Mente aberta
O muro caiu, Marx está morto, podem matar em nome de Deus. Êxodo de famintos e refugiados de guerras, crianças mortas nas praias na busca da terra prometida. Um cenário apocalíptico como os relatos da Bíblia. O repórter tem de manter a cabeça aberta para entender e descrever. Até porque se ele desenvolveu apenas parte do cérebro pode não ouvir, falar, ver, perder o olfato, o paladar ou os movimentos.