Mercado do azeite em ascensão

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Há menos de 15 anos, ninguém imaginava encontrar no mercado azeite produzido no Rio Grande do Sul. Hoje, a realidade é outra. Ano após a ano, os empreendedores gaúchos colocam à disposição dos consumidores milhares de litros de azeite de oliva que — justiça seja feita, a julgar pelos prêmios internacionais recebidos e ao esforço dos produtores locais, em nada devem aos estrangeiros. Assim como no vinho, no azeite os gaúchos vão traçando um caminho vitorioso, mas que ainda tem seus percalços.

As oliveiras chegaram ao Rio Grande do Sul ainda nos idos de 1900, com os primeiros casais açorianos. A fruta, azeitona, sempre foi usada na alimentação, em conserva. O aumento na produção de oliveiras para se transformar no apreciado azeite só virou realidade há pouco tempo, na Metade Sul. Atualmente, as árvores (e o azeite) surgem de propriedades localizadas em municípios como Caçapava do Sul, Canguçu, Cachoeira do Sul, Bagé e Barra do Ribeiro, entre vários outros.

Na pesquisa, o setor ganhou atenção nos últimos anos. Caso da Embrapa Clima Temperado, de Pelotas, que tem trabalhado ativamente com a olivicultura. Entre os pontos já conquistados estão a formação de um banco de germoplasma, novas técnicas de manejo fitossanitário e as tecnologias que melhor contribuem para o desenvolvimento correto da planta. O objetivo final é dar suporte técnico aos produtores na busca por um azeite com qualidade superior.

A importância do segmento é tanta que já foi incluído nos segmentos atendidos por financiamento de bancos como Banrisul e Sicredi. A Expointer do ano passado, por sua vez, presenciou o lançamento oficial do Instituto Brasileiro da Olivicultura (Ibraoliva), que já conta com 80 associados.

Em solo gaúcho, a produtividade é similar à registrada na Europa – média de dez toneladas de azeitonas por hectare, resultando em 1,5 mil litros ou quilos de azeite. Contudo, é uma cultura de longo prazo. Apenas no quarto ano de vida a árvore começa a frutificar e assim continua por até 70 anos, se bem cuidada.

Com cerca de 3,3 mil hectares dedicados à cultura, o Rio Grande do Sul responde por quase 50% da produção brasileira – outros 3,6 mil hectares estão distribuídos por Minas Gerais e Rio de Janeiro. Segundo o presidente do Ibraoliva, Eudes Marchetti, em 2018 a produção de azeite no RS deve alcançar 70 mil litros – ano passado, foram 55 mil litros.

A área ocupada com oliveiras tem crescido ano após ano. Apenas de 2016 para 2017, conforme Marchetti, a cultura cresceu 40% em hectares. Mas por que tanto apreço pelo cobiçado fruto que origina o azeite? Simplesmente por que o mercado absorve toda a produção. “Ano passado, em setembro, já não tínhamos mais garrafas para vender”, informa ele, que produz o azeite Prosperato.

E isso que o azeite nacional supre apenas 1,5% da demanda dos brasileiros pelo produto. A maior parte vem de países tradicionais, como Espanha e Portugal. O Brasil é o maior importador mundial de azeite, segundo Marchetti. Não chega a ser um problema para o azeite brasileiro. “Temos mercado para nosso produto, um azeite extravirgem, puro. Se o Brasil suspendesse a importação, seriam necessários 70 mil hectares para suprir a demanda interna, impossível hoje”, avisa ele.

O problema, segundo o presidente do Ibraoliva, não é a importação, mas sim o produto vendido como azeite mas que não é azeite. “Há casos em que misturam óleo de soja ou de milho junto. Esse produto é engarrafado e comercializado em gôndolas de supermercados como azeite extravirgem, nada mais enganoso”, avisa.

Isso ocorre porque boa parte do azeite importado entra no Brasil em granéis com 200 litros. O envase final é feito no território nacional, um prato cheio para falsificações e que tem prejudicado a imagem do azeite extravirgem. “Uma de nossas metas no Ibraoliva é de que o governo permita a importação apenas do azeite já engarrafado”, pede Marchetti.

A favor do azeite gaúcho conta a juventude – ao contrário do vinho, quanto mais rápido o processo entre colheita e envase, melhor o resultado final do produto. “Então, ainda, no caso dos importados, além da questão do azeite a granel, tem muito produto vendido com mais de seis meses, um azeite velho. Aqui, em dois dias colocamos o nosso no mercado”, conta o presidente do Ibraoliva.

Para quem costuma reclamar que o azeite é caro, Marchetti abre as contas. Para extrair um litro de azeite são necessários 9 quilos, em média, de azeitona. Cada quilo custa R$ 4,50 – só aí o custo por litro já beira R$ 41,00 apenas em azeitonas. “Você deve adicionar os gastos com a garrafa, tampa, estocagem, o transporte, armazenagem. Então como você explicar um azeite vendido a R$ 15,00 no varejo? Não é extravirgem, é azeite misturado. Precisamos mostrar ao consumidor que o que vendemos vale o que custa”, destaca.

E não são apenas os produtores locais que ressaltam a qualidade do nosso azeite. Marchetti conta que, nos últimos anos, os gaúchos já receberam mais de 30 prêmios internacionais que referendam a excelência do azeite que sai dos campos do Rio Grande do Sul. “Estamos ainda no início de um mercado promissor, que exige investimentos, claro, mas que gera um produto final de qualidade e com consumidor disposto a pagar por ele”, completa o presidente do Ibraoliva.

Colhendo os frutos

Se a olivicultura é relativamente nova na economia gaúcha, mais ainda são os fabricantes de azeites. Muitos estão desbravando, apoiados por técnicos especializados, este mercado. Um deles é o empresário Leo Fuhrmann, que comanda a Verde Louro Azeites, de Canguçu, juntamente com a esposa, Mita Fuhrmann.

O casal está indo para a terceira colheita este ano – tem oliveiras espalhadas por 300 hectares no município do Sul gaúcho e processa ali mesmo as frutas. A expectativa, neste ano, é aumentar em 20% a produção de azeite, atingindo 15 mil litros.

“A minha marca é bem nova, vamos conquistando mercado aos poucos. Basicamente, o consumo é todo interno, não exportamos. Ainda temos um trabalho de conquistar o consumidor para o azeite gaúcho, uma vez que ele está acostumado a consumir o importado”, avalia Furhmann.

Ao contrário do vinho (“quanto mais velho, melhor”, diz o ditado), o azeite “novo” é o que tem as melhores propriedades de sabor. Quanto menor o tempo entre colhida a azeitona, processada na fábrica e envasado o azeite, melhor o resultado final. “Dependendo, em dois dias conseguimos produzir o azeite. É um grande diferencial competitivo frente ao produto espanhol, por exemplo, que passa meses estocados antes do envase”, pondera ele.

Fuhrmann é empresário da área calçadista, com negócios em Três Coroas, onde reside. Em viagens a trabalho pelo exterior, leu uma reportagem sobre o sucesso da produção de oliveiras no Sul do Brasil. Vislumbrou, a partir de então, uma oportunidade de investir em um setor completamente diferente.

“Isso era 2009. Eu tinha que tomar uma decisão: ou aumentar a fábrica de calçados ou participava de outro negócio. Optei pelas oliveiras e não me arrependo. Foi o caminho certo”, relembra. Uma vez por semana, ele percorre os 370 quilômetros que separam os dois municípios para cuidar dos seus olivais e dos azeites.

No início, tudo era novo. A partir de pesquisas da Embrapa, que já tinha mapeado a olivicultura gaúcha, Fuhrmann encontrou terras disponíveis em Canguçu. Começou do zero, amparado por engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas e consultorias. Hoje, a Verde Louro produz três azeites extravirgens a partir de diferentes variedades de azeitona (arbequina, arbosana e koroneiki), mais um blend das variedades.

Os produtos da marca são encontrados em mercados especializados e pequenas lojas em diversos pontos do Brasil. Uma dificuldade comum a muitos produtores locais de azeite é encontrar espaço nas gôndolas das grandes redes varejistas. “O varejo quer preço competitivo e escala, e nós trabalhamos com qualidade. Se eu reduzir a qualidade para ter preço, perco no produto. Então prefiro seguir assim”, pondera.

O processo é rápido. Após a colheita, as azeitonas são limpas, lavadas e pesadas. O tempo médio entre a colheita e o processamento dos frutos é de cinco horas. Logo após vem a termobatedura, etapa em que as azeitonas começam a virar o azeite.

A extração é feita através de pressão a frio, cuidando para não alterar o sabor único do azeite com compostos que podem ser encontrados na polpa e caroço do fruto. A massa de azeitonas tem sua temperatura controlada, nunca passando de 28º C, preservando assim seus compostos voláteis, responsáveis pelo aroma e sabor. O próximo passo é o envase.

Um dos parâmetros químicos de avaliação do azeite de oliva é sua acidez. Quanto menor a taxa, melhores são as indicações da qualidade das azeitonas e que os processos realizados a preservam. Uma acidez baixa indica a ótima qualidade do fruto, o processo correto na extração e o controle total na plantação.

“Tudo inicia lá na produção das mudas. Temos um agrônomo que vive na região e controla esta parte. Produzir azeite tem uma semelhança com o vinho: cada safra depende do clima, podendo até mesmo alterar o sabor final do produto. Por enquanto, nossas três primeiras safras foram muito boas. Esperamos seguir neste ritmo”, completa.

Nativa do Oriente Médio

A oliveira (Olea europea L) é nativa do Oriente Médio e foi introduzida no Brasil no século XIX. Seu fruto, a azeitona, era usada, geralmente, na alimentação humana. Dele são consumidos a polpa macia, que reveste o caroço, e o azeite, óleo produzido a partir do esmagamento da polpa.

Cada oliveira leva cerca de quatro anos para atingir o ponto considerado ideal para colheita da azeitona e produz de 2 a 3 litros por safra. Rica em minerais como o fósforo, cálcio, potássio e ferro, a azeitona também contém a vitamina E, substância antioxidante que age contra doenças cardíacas, tem ação anti-inflamatória e auxilia no aumento do colesterol bom, por exemplo.

O azeite de oliva, derivado da azeitona, e seus benefícios nutricionais são recomendados por seus fatores que inibem o risco de doenças cardiovasculares e no processo digestivo. Os tipos extravirgem, puro ou refinado são aplicados nas diversas formas na alimentação e no preparo de receitas de alimentos.