Mas eu nem gosto de política!

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Uma das frases mais escutada na época em que o grande problema parecia ser a paralização dos estudantes pelo 0,21 acrescidos nas passagens do transporte coletivo municipal. Naquele período, foram as ruas, sem partido, livres, gritando que política era tudo igual e que a revolução se daria pelo povo. A sequência foi terceirizar os demônios no mundo no PT e alguns poucos partidos de esquerda. Sem autocrítica, sem revisar processos e sem expulsar partidários que certamente não estavam pela construção coletiva: a esquerda brigou, rachou e ruiu. Minha análise partidária não tem sofisticação. Tenho meus limites, me falta tempo e paciência para ler tudo que deveria para entender melhor o que ocorreu e vinha se mostrando ainda em 2010, 2011. As primaveras que em parte floriram, mas em outras, acabaram até com as sementes.

Fomos construindo uma nação que se diz “apolítica” num país com 35 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Fiquei pensando nessa idiossincrasia e na verdade ela tem lógica, ela é lógica. Somente quem não gosta da política e transforma política numa seara de interesses privados poderia ter 35 partidos que disputam atenção em diferentes graus para representar questões bastante centrais: desenvolvimento social, econômico, infraestrutura, saúde, etc.

Se vamos ter que voltar alguns capítulos da nossa história para bem definir o que é ditadura, feminismo, machismo e, principalmente, direitos humanos, voltemos a refletir sobre o que é política. Política não é politicagem e tampouco resume-se a atividade de governar (caso alguém tenha corrida dar um google na palavra).

Política é a ciência de governar Estados e Nações mas é, também, habilidade e ética de negociação e compatibilização de interesses da sociedade, do público, do espaço público.

E quando falamos em espaço público sempre penso o lugar de todos. Mas o que é todos? Tudo é nada, todos, ninguém. É preciso representar todos. Daí chegamos em maioria. Fica difícil, ainda. Mas a maioria pode ser traduzida por quem está em maior número. Quantas pessoas na sociedade precisam de transporte, por exemplo. E quantas delas dependem do transporte público. Se a maioria depende desse, política pública seria, portanto, pensar a cidade de maneira que atenda as necessidades da maioria: fluxo, mobilidade e estrutura para que transitem os coletivos. Política está nas empresas. Quando não há planos de crescimento salarial ou regras para admissão e demissão fica claro que a empresa não tem política de Recursos Humanos. Quando ética (que é valor de 100 entre 100 empresas grandes no mundo) está listada junto resultado, um precisará estar subalterno ao outro. A definição do que for mais importante a esta corporação traduzirá como ela se relaciona, qual sua política enquanto empreendimento.

Nós, afinal gostamos de política? Me parece que sim. Mas nos falta maturar o exercício dela em comunidade. Nos falta entender que numa negociação coletiva, sistemática, complexa e frequente não se ganha todas e, muito menos, sempre. No exercício de negociar o bem comum uns recuam para o avanço de outros. Isso não é ser Cuba. É preciso entender que direito privado (propriedade ou o que quer que seja) está sob o guarda-chuva do bem comum, dos direitos da coletividade, nos EUA é assim! Política exige sapiência e na falta dela, impõem-se a violência. Sai de campo a negociação entra em cena a violação e a aniquilação. Matamos a política porque gostamos dela (quase) sempre a nosso favor. E assim vamos dando espaço a esta ideia de que mais vale um gerentão na governança para ter resultados. Então me diga lá: qual resultado deve ter uma nação? Essa reflexão me leva a um pesadelo: mercado impondo-se a sociedade. Mercado não me representa, sociedade sim. Mercado PRECISA da sociedade. Somos nós que, por meio de nossas trocas comerciais, culturais, artísticas, empresariais e sociais constituímos uma rede que se pode chamar mercado. Somos uma sociedade e somente a partir dela resultamos num mercado que gera riquezas. Qual a política do nosso mercado? Ele negocia a favor de qual maioria?

A questão daqui para frente não vai se resumir em “ditadura com Bolsonaro” x “corrupção com PT”. A questão transcorrerá por nós. Qual visão de mundo temos, que cidadão eu sou e o que eu penso de espaço público, serviços públicos, direitos, deveres.

Quando jornalismo vai falindo e fake News vai subindo temos uma leve noção do quadro que estamos pintando. Algo, não por acaso, nos trouxe até aqui. Resultado da nossa politica como nação.