Mário Filho – O Criador das Multidões

COMPARTILHAR

Dizer que o Brasil é o País do futebol já é um chavão clássico da imprensa. No entanto, na primeira metade do século XX, os esportes eram marginalmente cobertos pelos veículos, em geral com notícias rasas de última página. Um dos principais responsáveis por tirar o jornalismo esportivo da marginalidade foi Mário Leite Rodrigues Filho, ou simplesmente Mário Filho.

Embora seja muitas vezes lembrado apenas como irmão do grande jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, Mário teve grande importância no desenvolvimento da cobertura esportiva e como incentivador do futebol no Brasil, a ponto de ser chamado pelo irmão Nelson de “o criador das multidões”. Nelson Rodrigues também escreveria que “Mário Filho foi tão grande que deveria ser enterrado no Maracanã”.

Nascido em Recife, capital de Pernambuco, em 3 de junho de 1908, era o terceiro filho do jornalista local Mário Rodrigues e sua esposa Maria Esther. Além de Mário, o casal teve outros 13 filhos: Milton, Roberto, Stella, Nelson, Jofre, Maria Clara, Augusto, Irene, Paulo, Helena, Dora, Elza e Dulce. Em virtude de alguns problemas políticos de seu pai em Pernambuco, a família teve que se mudar para o Rio de Janeiro, em 1916, onde Mário Rodrigues acabou fundando o jornal “A Manhã”.

Seus filhos Milton, Mário, Roberto e Nelson o acompanhariam na carreira, trabalhando com o pai em seus veículos. Enquanto Nelson se destacava na cobertura policial e Roberto era um exímio desenhista, Mário resolver, a partir de 1926, investir na crônica e no jornalismo esportivo, um campo ainda inexplorado. Foi também nesta época, aos 18 anos, que Mário Filho casou-se com a namorada Célia, que conheceu na praia de Copacabana e foi o grande e único amor de sua vida.

Em 1928, dificuldades financeiras levariam Mário Rodrigues a perder o controle acionário de “A Manhã”. No entanto, poucos meses depois o jornalista já tinha aberto outro jornal: “A Crítica”, mais polêmico e sensacionalista. Um dia, encarregado do fechamento, Mário Filho conseguiu colocar o clássico entre Flamengo x Vasco na capa do “A Crítica”, que geralmente trazia temas mais voltados para política. Seu pai, um crítico do esporte (que considerava de malandros) ficou furioso até ver a vendagem no dia seguinte, quando não restou um exemplar nas bancas.

Combinando uma cobertura política apaixonada com vários relatos de crimes e mais destaque para esportes, “A Crítica” tornou-se um sucesso. Mas o veículo existiria por pouco tempo. Em 26 de dezembro de 1929, o jornal publicou uma matéria sobre a separação do casal Sylvia Serafim e João Thibau Júnior. Sylvia, que se desquitara do marido e teve o nome exposto na reportagem, invadiu a redação de “A Crítica” disposta a matar Mário Rodrigues. Acabou atirando em seu filho e ilustrador Roberto Rodrigues, que morreu alguns dias depois.

Mário Rodrigues, deprimido com a perda do filho, faleceu após poucos meses. Sylvia, apoiada pelas sufragistas e por boa parte da imprensa concorrente de “A Crítica” foi absolvida do crime. Finalmente, durante a Revolução de 1930, a gráfica e a redação foram empastelados e o jornal deixa de existir. Pouco afinados com o regime de Getúlio Vargas, a família Rodrigues mergulhou em decadência financeira.

Para Mário Filho, a saída da penúria só começou em maio de 1931, quando o jovem Roberto Marinho, que recém havia assumido a direção de “O Globo”, convidou Mário Filho – seu amigo e companheiro de sinuca – para assumir o caderno de esportes do jornal. Aos 23 anos, já era considerado um veterano do jornalismo esportivo.

No mesmo ano, Mário Filho fundou um dos primeiros jornais esportivos, “O Mundo Esportivo’. Ali moldou expressões usadas pela área até hoje. O estilo de Mario Filho era direto, sem rebuscamentos, o que lhe deu projeção. Foi ele que, na época, criou o termo: “Fla- Flu”, quando se referia a oposição que existia entre os dois maiores clubes de futebol da época, Flamengo e Fluminense. Essa paixão dividida se refletia na própria família: enquanto Mário Filho se tornou flamenguista, seu irmão Nelson era torcedor fluminense fanático.

Jornal dos Sports

Nas páginas do “Mundo” deu também uma contribuição para outro movimento popular carioca e brasileiro: o carnaval. Foi ele que promoveu e organizou, em 1932, o primeiro desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro, vencido pela Mangueira. O concurso se tornaria um marco da festa carioca e se espalharia para o resto do Brasil. Mas o jornal fecharia antes do carnaval de 1933, quando a organização do desfile foi assumida pelo “O Globo”.

Em 1936, com a ajuda financeira de alguns amigos – e novamente com o aval e a participação direta de Roberto Marinho no negócio – tornou-se proprietário do “Jornal dos Sports”, que havia sido fundado em 1931. Mário Filho até o final da vida, em 1966 iria exercer o posto de jornalista esportivo, proprietário e editor-chefe do periódico especializado e se dedicaria ao desenvolvimento dos esportes e de outras manifestações culturais, como os desfiles de escolas de samba.  Ali ele criaria os “Jogos da Primavera” (1947) e os “Jogos Infantis” (1951), além do “Torneio de Pelada” no Aterro do Flamengo. Além do futebol, Mário enfocava outros esportes, como regatas e turfe.

Mas a grande campanha que lhe traria fama aconteceria no final dos anos 1940. Em 1946, o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 1950. O compositor Ary Barroso, então vereador no Rio de Janeiro e amigo pessoal de Mário Filho, apresentou um projeto para que um estádio fosse construído no bairro do Maracanã, no terreno do antigo Derby Club, onde se realizavam corridas de cavalo. A proposta enfrentou a reação do então deputado federal Carlos Lacerda, que criticava o custo de construção e o local, e pretendia que um projeto mais modesto, com 60 mil lugares, fosse desenvolvido para Jacarepaguá. Mário Filho iniciou a publicação de uma série de artigos que defendiam a construção do Estádio Municipal no Maracanã, com pelo menos 150 mil lugares, e que deveria ser o maior do mundo.

O movimento ganhou a adesão popular, que culminou com a aprovação da proposta na Câmara dos Vereadores e o apoio do prefeito Ângelo Mendes de Morais. As obras foram concluídas em 12 de junho de 1950, 12 dias antes do início da Copa do Mundo.

Após a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950, Mário Filho trabalhou para a retomada do Torneio Rio-São Paulo (que havia sido realizado sem sucesso em 1933, 1934 e 1940). Posteriormente o torneio passaria a incluir clubes de outros estados e seria renomeado para Taça Roberto Gomes Pedrosa, que originou o atual Campeonato Brasileiro.

Entre 1955 e 1959, produziu com o irmão Nelson Rodrigues a revista Manchete Esportiva, editada pela Bloch Editores. Mas até a paixão pelo futebol tinha lá os seus limites. Quando o filho Mário Júlio anunciou que tinha sido aprovado para jogar no time do Botafogo, Mário Filho foi contra. Para ele, ninguém podia romper com a tradição da família, na qual os homens, sem exceção, eram todos jornalistas.

Foi também um escritor de sucesso. Entre as obras que merecem destaque está “O Negro no Futebol Brasileiro”, de 1947, em que descrevia como a entrada dos afro-descendentes no esporte havia contribuído para o jeito único de jogar que se desenvolvia nos campos do País. No livro, ele resgata o surgimento de estrelas como Arthur Friedenreich, Leônidas da Silva e Domingos da Guia. Outra importante obra é “Viagem em torno de Pelé”, onde retrata o início daquele que viria a ser o maior jogador do mundo. Escreveu, ainda, outras obras como “A Copa do Mundo de 1962”, “Histórias do Flamengo”, “Copa Rio Branco”, “Romance no Futebol”, “Infância de Portinari” e “O Rosto”. Em 1994, foi publicado postumamente “Sapo de Arubinha”, que reúne uma coleção de artigos de Mário Filho documentando o futebol da primeira metade do século XX no Brasil.

Mario Filho morreu de ataque cardíaco em 17 de setembro de 1966, aos 58 anos, pouco depois de retornar da Copa do Mundo da Inglaterra. Um mês depois, em sua homenagem, o antigo Estádio Municipal do Maracanã passou a se chamar Estádio Jornalista Mário Rodrigues Filho. Sua viúva Célia Rodrigues assumiu o controle do Jornal dos Sports, mas suicidou-se no ano seguinte. A publicação passou para o filho Mário Júlio Rodrigues. O jornal deixaria de estar sob o controle da família em 1980, e fechou em 2010.
No destaque: Mario Filho nas obras do Maracanã