Marcelo Vieira – De olho no futuro do agronegócio

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Produtor de café e de cana-de-açúcar no Sudeste do Brasil, Marcelo Vieira é o atual presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), entidade que completa 100 anos em 2019. Administrador de empresas agrícolas há mais de 40 anos, Vieira irá comandar a SRB até 2020 e destaca, na entrevista abaixo, as expectativas com o novo governo federal e as prometidas reformas, como a previdenciária, considerada essencial para o Brasil voltar a crescer. Vieira ainda fala sobre comércio internacional, produção de grãos e sucessão rural, entre outros assuntos.

Com a mudança de governos, tanto em Brasília quanto nos Estados, 2019 começa com expectativas positivas?
Estamos saindo de um dos períodos mais difíceis dos últimos governos. O Brasil só andou para trás. E o novo governo, que parece montar uma boa equipe, principalmente no Ministério da Agricultura, uma das melhores que já tivemos, está com disposição para realizar as reformadas administrativas e regulatórias que tanto precisamos. Elas são essenciais para reduzir o custo-Brasil. É verdade que temos uma das agriculturas mais eficientes do mundo, mas temos também um ambiente de negócios com custos burocráticos tremendos. Não queremos facilitar a legislação, mas sim reduzir custos e trâmites.

As reformas ajudariam a tornar o agronegócio do Brasil mais competitivo?
Com certeza, discutimos isso já no Congresso Nacional e acreditamos que o novo presidente terá um ambiente favorável para avançar nessas reformas.

O ano terminou com o frete rodoviário, reflexo ainda da greve dos caminhoneiros, impactando os custos da agricultura. Isso precisa ser revisto?
É um absurdo ter uma tabela de fretes. A solução para isso é retomar o crescimento econômico, permitindo assim que os transportadores ganhem mais, também. Essa greve dos caminhoneiros ocorreu muito mais pela redução na oferta de trabalho aos motoristas de caminhão do que qualquer outra coisa.

Por outro lado, começamos a rediscutir a não adoção de outros modais de transporte, como as ferrovias…
Isso é uma das prioridades do agronegócio brasileiro, reduzir os custos logísticos. Hoje é um dos maiores do mundo e um dos fatores de reduz a competitividade do Brasil no exterior. Tem um número que é chocante e ilustra bem esse absurdo: dois terços do custo da soja produzida no Mato Grosso e exportada para a China correspondem ao transporte daquele estado até o porto, ainda no Brasil. O restante é o custo para levar até o outro lado do planeta, na Ásia.

Por falar em mercado exterior, o Brasil é um importante player do agronegócio mundial, mas também pode ser uma ameaça? Existe essa visão?
Somos vistos pelos principais mercados que demandam alimentos como um dos países em que é possível crescer a produção para o futuro. Há países que estão saindo de situações de fome, com a população melhorando renda, e que precisam mais carnes e alimentos. Então o Brasil tem oportunidades sim. Agora, produtores de locais onde a agricultura é subsidiada, como Estados Unidos e Europa, veem o Brasil como um concorrente e tentam, sim, bloquear nosso acesso a outros mercados de diversas maneiras.

Agora temos uma disputa comercial entre Estados Unidos e China, que analistas comentam que podem beneficiar o Brasil. Isso é verdade ou é preciso cautela?
Isso não é bom para ninguém, pois cria um ambiente de tensão enorme nos principais mercados de commodities, resultando em fortes variações nas cotações. Em um primeiro momento, a China pode comprar menos dos norte-americanos e comprar mais do Brasil, mas daqui a pouco o Donald Trump vai lá, conversa com o presidente chinês Xi Jinping e a China deixa de importar do Brasil e retoma com os Estados Unidos. São parceiros comerciais gigantes, então uma tensão entre eles causa reflexos no mundo todo. Ao longo prazo, pode gerar inseguranças no produtor.

Temos aqui perto o Mercosul, que funciona bem para a indústria brasileira exportar bens de maior valor, mas é alvo de reclamações do nosso agronegócio porque importamos leite e trigo, por exemplo, afetando o produtor local. Essa relação deve ser revista?
Não é um parceiro comercial tão importante como Ásia e Europa, mas temos sim uma relação importante, principalmente com a Argentina, mas alguns pontos devem ser rediscutidos sim.

A volatilidade do câmbio, que pode aumentar custos de produção e reduzir preços para exportar, tem como ser amenizada?
Este é outro importante desafio do agronegócio brasileiro, ter novos mecanismos financeiros que garantam mais segurança ao produtor. Assim reduz riscos na oscilação do dólar, também na variação de preços no mercado interno.

O volume anual de crédito rural tem sido suficiente para a agricultura e com juros adequados?
Nos últimos anos o governo oferece aquilo que consegue. O que precisamos é buscar junto a organismos internacionais outras fontes de financiamento, muitas vezes com custo mais interessante para a agricultura. Falta, ainda, um seguro agrícola adequado às necessidades de cada região.

O último nome confirmado da equipe do governo Bolsonaro foi de Ricardo Salles, que irá comandar o Ministério do Meio Ambiente. Qual a expectativa do agronegócio para manter diálogo em um setor tradicionalmente visto como “empecilho” à produção rural, o do meio ambiente?
Olha, meio ambiente e agricultura já convivem em harmonia no Brasil. Todos os acordos internacionais que o Brasil participa neste sentido demonstram isso, e a implementação do Código Florestal será feita pela agricultura, isso já foi acordado. Em 2012, após uma negociação tensa no Congresso Nacional, temos hoje um Código Florestal plenamente assumido pelo agronegócio. E digo mais: o agronegócio é, hoje, o maior incentivador do meio ambiente. Segundo a Embrapa, hoje, 25% das terras preservadas no Brasil estão localizadas em propriedades rurais. O principal ambientalista é o produtor rural brasileiro. Ele dedica uma parcela substancial de seu patrimônio em meio ambiente.

E o Brasil tem uma das legislações ambientais mais severas do mundo…
Exatamente. Não tem nada parecido em países como Europa e Estados Unidos, é apenas no Brasil. Aliás, a legislação trabalhista no campo também é das mais benéficas do planeta. O trabalhador rural brasileiro, comparado ao de Europa e EUA, onde imigrantes são submetidos a condições de trabalho pesadas, tem tudo regularizado conforme manda a lei.

Uma das particularidades do Brasil é o enorme número de pequenos empreendimentos familiares, justamente os que mais têm dificuldade em planejar a sucessão rural. Como lidar com esse problema?
Temos que levar para o pequeno produtor a oportunidade de se inserir em mercados de maior valor, como a fruticultura e a produção de hortaliças, que são os que chegam aos grandes mercados consumidores do Brasil, as cidades. Sem melhorar a renda não tem como segurar o jovem na propriedade rural.

Para o Brasil seguir produzindo safras recordes, a chave é aumentar produtividade ou produzir em novas áreas, como o Matopiba, que inclui estados do Norte e do Nordeste?
A nossa agricultura tende a crescer em áreas hoje já utilizadas ou em áreas com pastagens degradadas e que estão sendo recuperadas. Ainda existem algumas áreas do Matopiba disponíveis para o cultivo comercial, mas o que tinha de terra boa destinada à agricultura no Brasil já é utilizada. Inclusive existem áreas usadas décadas atrás e que hoje não são mais, seja por questões de solo ou de topografia. Deixaram de ser economicamente viáveis e ocorre uma restauração natural da paisagem