Marcello Brito “Quem desmata é bandido, não agricultor”

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Formado em engenharia de alimentos, Marcello Brito preside, desde janeiro, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Fundada há 25 anos, a Abag tem contribuído para tornar o agronegócio brasileiro referência internacional e é uma das fundadoras do Agrishow, uma das maiores feiras anuais do setor, que ocorre no interior paulista, em maio. A entidade também realiza o Congresso Brasileiro do Agronegócio, que irá para a 18ª edição neste ano. Com especialização na Malásia, Brito possui experiência de 30 anos como executivo do setor de óleos vegetais. Na entrevista, o presidente da Abag destaca as perspectivas para o agronegócio brasileiro a partir de uma maior interlocução com o governo federal, na pessoa da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, alerta para as deficiências históricas de infraestrutura, salienta os ganhos de produtividade da agricultura brasileira e é taxativo ao afirmar que o produtor rural tem feito sua parte na preservação do meio ambiente: “o desmatador não é o agricultor, é o bandido, o grileiro de terras. Ele é que destrói a biodiversidade, que contamina rios. Chamar esse pessoal de agricultor é errado, são bandidos”, completa.

Qual sua expectativa, como presidente da Abag, para este governo e as mudanças que devem vir pela frente?
Estamos acompanhando, de perto, esse novo Brasil. É um País que surge com demandas novas, com um modelo econômico novo e que tem uma visão sócio-ambiental diferenciada. Creio que tudo isso foi corroborado pelo resultado das urnas no ano passado. Neste momento, a Abag está estudando essas mudanças – recentemente, passamos o dia em um workshop discutindo agricultura e sustentabilidade. Sem dúvida alguma, é um ano de transformações, um ano de cavalo-de-pau. Mudanças radicais em vários setores, principalmente no que diz respeito ao financiamento do agronegócio.

O Ministério da Agricultura já avisou, por meio da ministra Tereza Cristina, que pretende mudar o modelo do crédito rural. Qual sua expectativa?
O momento é adequado e até mesmo tardio, podemos dizer assim. Todos nós do agronegócio sabíamos que o crédito rural no Brasil, com um modelo mantido o mesmo durante décadas, não se sustentaria mais. Neste momento de crise, é necessário rediscutir o financiamento rural. Existem novas ferramentas de crédito que surgiram com a tecnologia e ainda precisamos criar a regulamentação necessária. As mudanças vão ocorrer, o que precisamos é permanecer vigilantes para que sejam alterações graduais. O agronegócio não comporta, agora, algo radical, tipo chegar e simplesmente dizer: “não tem nada (de crédito)”. O governo entende isso e recentemente fez uma liberação para complementar os recursos da safra 2018-2019. A mudança deve atender ao que precisam tanto o pequeno, quanto o médio e o grande produtor para financiar sua produção.

A greve dos caminhoneiros, quase um ano atrás, ainda repercute em diversos setores da economia. Como resultado, tivemos a criação da tabela do frete. Ela permanece em vigor?
Sim, e é um absurdo. Em pleno 2019 você ter um tabelamento de frete é extremamente nocivo ao setor produtivo. Lamentavelmente, a sensibilidade da Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT) e do Supremo Tribunal Federal (STF) quanto a este assunto é lenta. Não tem nada que impacte mais o agronegócio na atualidade do que o tabelamento do frete. Uma coisa absurdamente arcaica.

A reclamação quanto à infraestrutura precária no Brasil é histórica. Essa deficiência reduz nossa competividade?
A logística e a infraestrutura no Brasil são precárias e não é de hoje. A gente discute esse tema há 50 anos. O que ficou claro agora, após essa greve e que parece ser uma mudança de paradigma, é que o governo tem clareza que esses investimentos necessários em infraestrutura não virão dele, governo. Definitivamente, ele não tem dinheiro. Esse investimento deverá vir do setor privado, sendo ele nacional ou estrangeiro. Agora, é a velocidade da regulação desse investimento privado em infraestrutura que vai ditar como será o Brasil do futuro. Não é uma mudança para o agronegócio, é para o País. Não se esqueça que as cadeias são interligadas. Você produz o alimento, uma parte dele é processada no Brasil e outra parte é exportada diretamente. Você tem também os insumos, parte importada e parte feita no Brasil. O País continua crescendo mesmo com a infraestrutura deficiente que temos, mas o custo acompanha esse crescimento. Ou seja, aqui no Brasil, infelizmente, as deficiências pós-porteira estão matando quaisquer ganhos de produtividade e eficiência que tenhamos alcançado.

Da porteira para dentro, então, podemos dizer que o agricultor tem feito sua parte?
O produtor brasileiro fez um maravilhoso trabalho nesses últimos 20 anos na aplicação de tecnologia e na melhoria de produtividade. Isso nos permitiu incrementar muito a safra com baixo aumento na área utilizada. Vivemos uma revolução neste sentido, agora, da porteira para fora, estamos atrasados, no mínimo, 50 anos.

Apenas em 2018, o agronegócio respondeu por US$ 101 bilhões em exportações brasileiras, valor que pode crescer ainda mais. Que setores devem puxar esse aumento?
Há vários setores em que podemos ganhar muito mercado internacional. Veja, por exemplo, a fruticultura. Vendemos muito pouco lá fora pelo potencial que o país tem neste segmento (o Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, mas somente o 23º em exportação). Podemos evoluir muito ainda nas carnes, nos alimentos processados. Há hoje barreiras sanitárias aos produtos brasileiros. Esse ponto deve ser visto com mais responsabilidade. A boa notícia é que essas questões estão no radar da ministra Tereza Cristina e de sua equipe. Temos confiança de um trabalho positivo neste sentido.

O senhor citou a preocupação com a sustentabilidade. Isso nos leva ao tema meio ambiente e à questão: é possível plantar grãos e respeitar a biodiversidade?
Essa visão também é histórica e não apenas do Brasil, é uma preocupação em muitos países. O problema é que aqui houve radicalização. Vamos ser honestos: no Brasil, uma parcela da população tem muito pouco respeito pela produção de alimentos. A maioria das pessoas respeita muito nosso trabalho, sabe que a agricultura é essencial. Essa discussão é cultural também e precisa de amadurecimento. Por outro lado, o tema representa uma oportunidade para o agronegócio mostrar como faz bem-feito o seu trabalho. Porque o que é mal-feito ganha mais divulgação do que o que é positivo. Está aí o desmatamento, um problema imenso que o país não consegue controlar, infelizmente. O rótulo de ser o maior destruidor de floresta do mundo é muito ruim para o Brasil, afeta nossa imagem e nossas exportações. E outra: o desmatador não é o agricultor, é o bandido, o grileiro de terras. Ele é que destrói a biodiversidade, que contamina rios. Chamar esse pessoal de agricultor é errado, são bandidos. O agricultor trabalha respeitando a terra, que é de onde ele tira seu sustento. São competentes também no respeito às áreas de preservação.

Essa competência se percebe, ainda, nos ganhos de produtividade. Teremos como seguir aumentando a safra sem explorar novas áreas de terras?
O modelo de produção mudou muito na maioria das culturas. Tecnologia no plantio, na colheita, novos equipamentos cruzando as lavouras. Tudo isso resulta em maior produtividade. O desafio agora é maior: não apenas de a tecnologia chegar no campo, mas de termos a conectividade dessas informações, desses equipamentos. Não adianta adquirir tratores operados por robôs, uma tecnologia avançadíssima, se não conseguimos conexão de internet. Veja que, em um estado teoricamente desenvolvido como São Paulo, há trechos de estrada entre a capital e Campinas em que o celular não funciona direito. São menos de 100 quilômetros. Essa dependência da conectividade é que será o próximo passo tecnológico que temos que priorizar. E veja, conectividade com custo acessível, senão o fazendeiro tem que fazer um baita investimento em rede para levar a conexão ao campo. Nossos competidores no mercado internacional têm escala de produção e ganham competitividade, em parte, porque têm a conectividade muito desenvolvida.

As startups estão impactando também o agronegócio…
Felizmente, a velocidade das transformações tem sido cada vez maior. A descentralização da pesquisa contribui para isso. Você tinha, um tempo atrás, pouquíssimas empresas que comandavam a evolução tecnológica. As startups estão distribuídas por todo o Brasil e todo dia temos uma novidade. Creio que levaremos cinco anos para modificar sistemas de produção que, antes, demorava 20 anos. Esse é o ritmo do futuro.

O futuro, por sinal, pede tecnologia menos poluentes como biocombustíveis. No Brasil, a soja é nossa principal matéria-prima. Teremos grão para tanta demanda em biodiesel?
Acho que o Brasil é um dos poucos países do mundo que tem a vantagem de ser um grande produtor de alimentos e também de biocombustíveis. Veja que o mercado do etanol não atrapalhou o mercado do açúcar. Somos o maior produtor de açúcar do planeta e não houve interferência no preço do etanol. No biodiesel, temos a mesma relação. Aumentamos a produção de óleo de soja e temos grande produção de biodiesel sem faltar grão, seja para o mercado interno ou para exportação. Sobre o aumento da mistura, é sempre o setor privado que vai empurrar o governo. Estamos na espera pelo B11 para o diesel (mistura de 11% de biodiesel por litro do combustível vendido nos postos) e temos condições de elevar mais rapidamente a produção, mas dependemos de autorização governamental. Faz parte do trabalho do nosso setor pressionar o governo para elevar a mistura do biodiesel. Temos condições para tanto, o setor agrícola está preparado e também a indústria.