Máquinas: O futuro é agora

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Não é apenas nos potentes telefones celulares e nos tablets que a tecnologia encontra eco na vida humana. Nas máquinas e implementos agrícolas, o conhecimento transformado em novos modos de operação, muitas vezes, é superior ao encontrado em automóveis de passeio. Não é exagero dizer que existem tratores ou equipamentos que parecem vindos do futuro.

É o caso de tratores completamente autônomos, talvez o mais vistoso produto dessa agricultura automatizada e que ainda está em fase de testes. Tudo isso converge para uma maior integração entre internet e campo, algo que ainda carece, muitas vezes, de infraestrutura adequada.

Drones podem sobrevoar imensas áreas e gerar relatórios, em minutos, sobre área plantada e tamanho das plantas, algo que uma pessoa levaria dias caso fizesse o mesmo trabalho percorrendo a lavoura.

Também existem softwares de gestão de informações geográficas com diversas aplicações em mapas e informações coletadas no campo. É possível “programar” a máquina, a partir de uma foto de satélite, para plantar em determinadas áreas e, em outras, não colocar sementes. Seria possível, neste caso, “desenhar” letras no solo.

Parte dessa ‘fazenda do futuro’, conectada e automatizada, já é realidade, o que não se traduz em redução do trabalho humano. Pelo contrário: segundo a indústria, máquinas e homens seguirão atuando juntos no esforço de alimentar o mundo.

Olhos no céu
Quando se pensa na agricultura, o primeiro foco é o solo, mas é preciso ir além. A Case IH desenvolveu um drone capaz de monitorar áreas extensas, permitindo, por exemplo, identificar pragas e doenças, além de mais rapidez no processo de captação e processamento de imagens para geração de mapas e relatórios. “O objetivo do serviço é agregar valor à máquina agrícola. Ou seja, mostrar como é possível aumentar a qualidade do plantio e da pulverização, além de reduzir a utilização de insumos”, conta Silvio Campos, diretor de Marketing de Produto da Case IH.

O equipamento pode ser usado nas mais diferentes culturas, como a de cana-de-açúcar e de grãos. Os mapas podem ser gerados para altimetria e curvas de nível; fornecer projetos de escoamento de água no terreno (drenagem); definir linhas de plantio de cana-de-açúcar (sulcação) e linhas de colheita; matologia (identificação de plantas daninhas); desenhar projeto de linhas de pulverização e aplicação em taxa variável.

Além disso, o drone da Case IH fornece relatórios sobre o processamento de imagem, o georreferenciamento, as possíveis falhas de plantio, população de plantas, a qualidade de espaçamento e a biomassa (saúde vegetal). “Se um relatório apresenta uma falha grande no plantio em uma determinada área, o produtor pode definir se vale a pena replantar no local ou não”, conta Campos.

Conforme o executivo, o equipamento também gera uma economia muito grande de tempo e de combustível. “Para fazer um mapeamento com um equipamento agrícola, o produtor tem gastos com operador, diesel e o desgaste da máquina, sem ter a garantia de que, desta forma, conseguirá fazer um trabalho completo”, diz Campos.

O drone é capaz de contar o número exato de plantas por área em um simples voo. A partir desta informação, consegue-se estimar a produtividade da lavoura e já pensar, inclusive, na comercialização dos grãos. É um avanço e tanto para extensas áreas. “O drone, obviamente, não elimina a visão aguçada que se tem a partir do solo, vendo de perto as plantas. Muitas vezes apenas um profissional irá identificar algum problema, então seguiremos dependendo da atuação humana”, complementa Campos.

No rumo da automação completa
Além do drone, as máquinas agrícolas hoje carregam soluções tecnológicas como telemetria e a conectividade no campo. A tecnologia que mais cresce em termos de demanda no campo é o piloto automático, principalmente por se mostrar viável já na primeira safra.

Além de ser item de série em modelos de alta potência de tratores e pulverizadores, é notável a procura e o crescimento da adoção em tratores menores e em colheitadeiras. Entre as vantagens estão eliminação de falhas e sobreposição, diminuição de consumo de combustível por hectare e aumento da eficiência operacional.

A Case IH estabeleceu que operações agrícolas diferentes em todo o mundo exigem níveis variáveis de automação. Essas necessidades se enquadram em cinco categorias de automação para aplicações agrícolas de campo. As categorias e tipos de atividade associados a elas incluem: orientação, coordenação e otimização, autonomia auxiliada por operador, autonomia supervisionada e autonomia total.

CASEIH – trator autônomo/ Foto grupo CNH

Essas cinco divisões começam com a automação de tarefas específicas em um equipamento. A primeira categoria utiliza piloto automático; a segunda, além do piloto automático, tem a atuação coordenada entre máquinas; a terceira engloba veículos autônomos com inteligência artificial; na quarta, eles são coordenados e não tripulados e a última é o veículo totalmente autônomo, focado em melhor produtividade e baixo consumo.

Conforme Silvio Campos, as categorias geram uma visão do que é possível fazer. “Elas não são lineares, e uma frota pode, inclusive, fazer parte de mais de uma categoria ao mesmo tempo. No momento, muitos de nossos clientes já operam nas categorias de orientação e/ou autonomia auxiliada por operador”, afirma o diretor da Case IH.

Sílvio Campos,
iretor de marketing de produto da Case IH

A marca, por sinal, desenvolveu o primeiro trator completamente autônomo existente hoje. O modelo foi criado a partir do trator Magnum, da marca, do qual foi retirada a cabine e instalado sensores e componentes que fazem leitura do solo, do ambiente, e transmitem as informações coletadas.

Atualmente, o trator autônomo está em fase de testes nos Estados Unidos, segundo Campos. A perspectiva é oferecer o modelo comercialmente em um horizonte de cinco anos. “Se, por um lado, são necessários vários testes devido à parte técnica, o trator autônomo tem outro desafio: ainda não existe uma legislação para veículos sem piloto em muitos países, o que acaba provocando uma discussão a respeito”, pondera Campos.

Enquanto ele não chega, o executivo destaca que hoje, no mercado, a marca oferece produtos com sistemas de automação embarcados, como transmissões automatizadas, item importante por ‘conversar’ com o motor e, assim, encontrar um ponto ótimo de performance, reduzindo o consumo de combustível.

O trator pode funcionar 24h, oferecendo mais eficiência operacional para tarefas como preparo do solo, plantio e pulverização. Seu design, sem a cabine do operador, se caracteriza pelo equilíbrio entre linhas fluidas e pela demonstração de robustez e força.

O sistema a bordo leva automaticamente em consideração os parâmetros estabelecidos pelo software de planejamento do computador ou tablet para avaliar as larguras dos implementos e estabelecer o percurso mais eficiente, dependendo do terreno, obstruções e demais máquinas em uso no mesmo campo. Remotamente, o operador pode supervisionar e ajustar, a qualquer momento, os caminhos e parâmetros.

A Valtra é a primeira fabricante brasileira a produzir máquinas com transmissão CVT (transmissão continuamente variada)

Com o uso do sistema LIDAR (tecnologia ótica de detecção a laser), sensores de proximidade e câmeras de vídeo a bordo, o veículo pode perceber os obstáculos parados ou em movimento no seu caminho e parar sozinho até que o operador, notificado por alertas sonoros e visuais, especifique o que deve ser feito.

Ganho de produtividade com o piloto automático
O piloto automático é uma realidade de mercado. As máquinas produzidas pela John Deere contam com o sistema, além de possuir outros recursos de agricultura de precisão opcionais. A linha de agricultura de precisão da John Deere (AMS – Agriculture Management Systems) apresenta também a possibilidade de instalar o piloto automático em campo, seja em máquinas mais antigas da própria John Deere ou na maioria dos equipamentos de outras marcas presentes no mercado brasileiro.

Conforme explica Felipe Santos, gerente de Marketing de Produto para Agricultura de Precisão da John Deere para América Latina, o piloto automático representa a base para qualquer projeto de tecnologia de agricultura de precisão em todas as culturas. “De forma geral, seu funcionamento baseia-se na utilização de um dispositivo GNSS (receptor), que envia informações de posicionamento georreferenciadas ao sistema de direção da máquina, fazendo com que a mesma siga um caminho pré-determinado, sem a interação do operador”, informa ele.

Os monitores de agricultura de precisão oferecem outros recursos importantes, como desligamento de seções, controle de aplicações em taxa variável e documentação das atividades que, atuando em conjunto com o piloto automático, trazem inúmeros benefícios ao produtor na execução das operações agrícolas com qualidade. “O uso do GNSS é a base para podermos fazer o gerenciamento da variabilidade espacial dos atributos da cultura e solo”, explica o executivo da John Deere.

Já o sistema AutoTrac aumenta a produtividade do operador, conseguindo otimizar seu tempo ao fazer análises dos dados fornecidos pelas máquinas para tomar decisões assertivas, no momento correto. Além disso, a ferramenta também permite limitar o tráfego entre determinadas linhas e utilizar as mesmas linhas de tráfego ano após ano.

As vantagens são inúmeras. No plantio, por exemplo, o piloto automático permite a instalação da cultura com paralelismo de alta qualidade e com maior eficiência, respeitando o planejamento para implantação. “Já na etapa de aplicação de defensivos, o piloto automático ajuda a reduzir o pisoteio durante a operação, bem como diminuir os custos com insumos, quando atrelado a outros recursos como desligamento de seções e taxa variável”, conta Felipe Santos.

No mundo atual, segundo ele, as máquinas agrícolas têm muito mais tecnologia do que os automóveis. Há inúmeros exemplos, como o próprio piloto automático, o controle de aplicação de sementes e fertilizante na quantidade, local e profundidade adequada, a automação completa das manobras, que são feitas na cabeceira dos talhões e o sensoriamento de clima externo para melhor decidir sobre a operação de aplicações, entre outras.

Se a indústria faz sua parte, desenvolvendo produtos com alta tecnologia adaptáveis à realidade brasileira, Santos destaca a necessidade de o agricultor contar com internet de qualidade no campo. “Boa parte das máquinas que desenvolvemos precisam de conexão à internet para serem utilizadas em todo seu potencial. Esta é a maior demanda do campo hoje em dia”, relata.

Trator Massey Ferguson

Para minimizar este empecilho, a John Deere criou o projeto Conectividade Rural, que consiste na instalação de torres de transmissão de acordo com o perfil de cada produtor. Assim, ele estará conectado à internet mesmo em locais onde as operadoras de telefonia móvel não alcançam.

E como será a fazenda do futuro? Para Santos, da John Deere, a propriedade será totalmente conectada, com integração entre sistemas e utilização da internet para tomar as melhores decisões. A gestão baseada na análise de dados é hoje a realidade de vários setores da economia e será o ponto principal do futuro na agricultura, pois, com isso, os agricultores poderão melhorar os resultados e produzir com mais eficiência. “Com a maior automação, acreditamos que vamos conseguir deixar a execução do trabalho do campo mais simples e com maior qualidade e produtividade. O foco não é a diminuição de pessoas, mas possibilitar o uso humano para a tomada de decisão e para trabalhos em que uma máquina não consegue executar”, completa ele.

A realidade do mercado brasileiro
Alberto Toledo, coordenador de marketing de tratores da Valtra, destaca que tanto o trator autônomo quanto o piloto automático têm suas especificidades. O piloto automático guia automaticamente o trajeto da máquina no campo em passadas paralelas, e funciona como uma tecnologia auxiliar para o operador. Já o autônomo é um conceito em que a máquina se locomove e se regula sem operador.

Alberto Toledo, coordenador de MKT de tratores da Valtra/divulgação

“Entretanto, acreditamos que essa tecnologia, que ainda não é comercializada por nenhuma marca, possuiria baixa aplicabilidade para o mercado brasileiro. Nosso País é dominado por propriedades menores, com a maioria da frota de tratores tendo potência entre 80 cv e 100 cv, enquanto o conceito de trator autônomo existente possui potência muito alta, sendo recomendado para grandes extensões de terra, o que representa apenas 10% do cenário brasileiro”, pondera Toledo.

No caso do piloto automático, a tecnologia melhora a qualidade das operações e o rendimento dos equipamentos, evitando sobreposição de passadas ou falhas de aplicação, por exemplo. “Entretanto, mesmo nas máquinas equipadas com piloto automático, o operador é o responsável por executar as manobras, sendo mais ágil do que o recurso tecnológico”, relata o executivo da Valtra.

Trator H 145 da LS Tractor

Segundo ele, a maior demanda hoje por tecnologia é na transmissão. O produtor rural sabe que uma boa transmissão pode ser o maior diferencial na qualidade da operação, superando até mesmo um bom motor.

A Valtra é a primeira fabricante brasileira a produzir e comercializar máquinas agrícolas com a transmissão CVT (transmissão continuamente variada, em inglês), de fácil operação e livre de falhas operacionais.

Dessa forma, o trator demanda pouco tempo de treinamento para o operador, aumentando a produtividade na lavoura. Produzido na fábrica da Valtra em Mogi das Cruzes (SP), a Série T CVT estará disponível para compra com financiamento baseado em recursos do Finame, linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltada para aquisição de máquinas e equipamentos novos de fabricação nacional.

Astor Kilpp, gerente de produto da LS Tractor

A força da transmissão
Eder Pinheiro, coordenador de marketing de tratores da Massey Ferguson, concorda que uma grande mudança na tecnologia disponível hoje nos tratores é, justamente, a transmissão. “O trator é uma fonte de potência e precisa de implementos acoplados para gerar uma força de trabalho. Cada implemento necessita de uma velocidade ideal, por isso a transmissão é tão importante”, conta ele.

Eder Pinheiro, coordenador de MKT de tratores Massey Ferguson/divulgação

Uma transmissão com melhor escalonamento ou com trocas automáticas de marchas resulta em melhor rendimento para o agricultor. Ele cita a cultura do milho, mais suscetível à variação de velocidade na colocação de sementes. “Uma variação de meio quilômetro por hora na velocidade varia também a produção. Se você tiver um trator com câmbio que permite manter essa velocidade, consegue melhor rendimento”, avalia Pinheiro.

E isso não se traduz apenas em aumento de produção, mas também naquilo que sobra, em economia nos custos. “Produz mais em menos horas, com isso pode liberar o operador para outro serviço na propriedade”.

Também economiza em combustível, hoje um dos insumos mais caros na agricultura. Pinheiro pondera que, há 15 anos, provavelmente o diesel nem entrava nas planilhas de custo de muitos produtores. Hoje, é o segundo ou terceiro item com maior peso, atrás de adubos e defensivos agrícolas.

Pinheiro lembra que, no auge do programa Proálcool, a Massey Ferguson chegou a comercializar um trator movido a álcool, mas que, assim como o programa terminou, não foi mais vendido.

O momento, agora, é do biodiesel. Atualmente, a mistura com o diesel é de 7%. “Nossos motores com a tecnologia ecopower permitem, caso necessário, que o trator funcione apenas com biodiesel. Isso é importante em um momento que o setor está se adequando a normas de missão de poluente”, completa.