Máquinas agrícolas começam a superar a crise

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O ano da retomada. Esse é o sentimento do setor de máquinas agrícolas em relação a 2018. Após fechar 2017 com uma alta tímida de 1,5% nas vendas (e que, mesmo assim, havia sido a primeira elevação após três anos consecutivos de baixas), os fabricantes de colheitadeiras, tratores e implementos esperam um fechar 2018 com crescimento superior a 10% nos negócios. E, para o próximo ano, as expectativas são de que esses bons números possam ser repetidos.

Os últimos dados disponíveis da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram que, no acumulado do ano até novembro, as indústrias do setor tiveram, em relação aos 11 primeiros meses de 2017, alta de 11,9% nas vendas internas. Nos primeiros onze meses foram comercializadas 43.351 unidades, ante as 39,757 do mesmo período de 2017.

Na verdade, o número de unidades comercializadas já superou as vendas de todo o ano de 2017 (42,4 mil). Segundo especialistas do setor, são grandes as chances das indústrias de máquinas agrícolas fecharem 2018 com níveis de comercialização semelhantes ou, até mesmo, superiores aos verificados em 2015 (45,7 mil unidades). “Foi um ano muito positivo, com crescimento de cerca de 10% nos 12 meses fechados em novembro. Acho que esse é um resultado muito bom para um País onde a maior parte da indústria ainda está sofrendo”, destaca Cláudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers).

“A retomada está acontecendo. Se 2017 foi um ano de estabilidade, em 2018 começamos a ver a recuperação”, afirma Alexandre Blasi, diretor de Mercado Brasil da New Holland Agriculture. “O clima ajudou a elevar a produção, o agricultor teve linhas de créditos e recursos disponíveis, e muitos conseguiram vender a safra com o dólar bem valorizado, além de conseguir ágio devido à guerra comercial entre Estados Unidos e China. Quem aguardou o melhor momento teve ótimas condições para investir”, destaca Blasi. Segundo o executivo, a empresa deve fechar o ano com um crescimento de vendas de 15% a 20%, variando de acordo com o tipo de produto.

Máquinas – colheitadeira New Holland – Divulgação CNH

Um dos indicadores do fortalecimento da demanda do setor surgiu na mais recente Expointer, que aconteceu entre 25 agosto e 2 de setembro. Durante a exposição agrícola de Esteio, as indústrias de máquinas agrícolas efetuaram vendas no valor de R$ 2,284 bilhões. Antes disso, a última vez que o setor havia comercializado montantes acima de R$ 2 bilhões na feira foi em 2014, antes da crise econômica se aprofundar no País. “Dos pedidos feitos durante a Expointer, 90% foram já confirmados”, comemora Bier.

As exportações do setor, entretanto, foram afetadas pela crise na Argentina, um dos principais mercados compradores. De janeiro a novembro, foram embarcadas 11.827 unidades, 6,7% a menos do que as 12.672 de idêntico período do ano passado. Mesmo assim, o volume já supera os totais exportados em 2016 (9,6 mil) e 2015 (10,2).

Em valores, as exportações até novembro alcançaram R$ 13,782 bilhões, uma queda de 5,2% ante os R$ 14,543 bilhões do mesmo período de 2017. No entanto, o resultado é superior à média dos 11 primeiros meses em 10 anos desde 2008 (R$ 12,079 bilhões).

John Deere – Crédito: Dani Barcellos /Palácio Piratini

Boa safra deve incentivar os negócios em 2019
Se 2018 já deu motivos para os fabricantes de máquinas sorrirem, 2019 é esperado com um otimismo ainda maior. O bom momento da agricultura, que prevê safra recorde de 238 milhões de toneladas, segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é apontada por representantes do setor como o principal motivo do expressivo crescimento que as indústrias de máquinas esperam registrar.

Recente pesquisa de hábitos do produtor rural, promovida pela Associação Brasileira De Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), apontou que 34,14% dos produtores pretendem adquirir novos maquinários no próximo ano. A disputa comercial entre EUA e China também deve favorecer a exportação dos equipamentos produzidos no País.

Um dos indicativos que o setor espera venda melhores em 2019 é o nível de produção de novas máquinas. De janeiro a novembro, segundo a Anfavea, as indústrias fabricaram 60,2 mil máquinas, um crescimento de 19,4% ante o mesmo período de 2017 (50,4 mil unidades). Na realidade, o número de máquinas produzidas nos 11 primeiros meses de 2018 já supera os totais de fabricação dos três anos anteriores (53 mil em 2017, 54 mil em 2016 e 55,9 mil em 2015). Somente o mês de novembro, que atingiu 6.619 máquinas, registrou um crescimento de 73,3% da produção no comparativo a idêntico mês de 2017.

Esse incremento de produção também se reflete na contratação de mão de obra das empresas. Ainda segundo a Anfavea, em novembro as indústrias de máquinas empregavam 19.533 pessoas no País, um aumento de 1,3% ante outubro (19.285 pessoas) e de 4,9% em comparação com novembro de 2017 (18.621 funcionários).

“Nosso setor está trabalhando. Não só há um aumento de fronteira agrícolas, mas nossas máquinas contribuem para gerar mais produtividade, o que anima os agricultores a renovar sua frota”, afirma Cláudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers). Para o dirigente, além da boa safra de grãos, as expectativas positivas em relação às políticas econômicas do novo governo federal também animam os produtores.

Cláudio Bier, presidente do Simers

Uma das empresas que está otimista em relação a 2019 é a New Holland. “Há um otimismo gerado com o novo governo, de que veremos o PIB (Produto Interno Bruto) crescer, o que alavanca as vendas. A safra também será maior, o que requer mais investimentos em maquinário”, explica Alexandre Blasi, diretor de Mercado Brasil da empresa.

Alexandre Blasi, diretor comercial NHAG/ Credito: Vinicius Ferreira

Além disso, segundo Blasi, o dólar deve ficar estável, o que ajuda na compra de insumos, e os conflitos entre China e Estados Unidos ainda devem gerar bônus de preço para quem vender a safra em março. “Isso tudo melhora as condições para investir na frota”, afirma o executivo da New Holland.

Fabricante de marcas como Massey Ferguson e Valtra, a AGCO também reforça o clima de confiança no cenário agrícola do País. Em visita ao Brasil, o presidente e CEO Global da AGCO, Martin Richenhagen, afirmou que empresa espera um crescimento de 12% nas vendas da América Sul em relação a 2017. O resultado, impulsionado principalmente, pelo mercado brasileiro, também leva a uma previsão de que 2019 será um ano de mais crescimento.

Trator AGCO MF 8737 – Divulgação AGCO

“Mesmo com as incertezas na economia e política brasileira, alcançamos números positivos e apresentamos crescimento em relação ao ano anterior. As expectativas para os próximos anos são as melhores possíveis, por isso temos investido tanto na renovação do portfólio das nossas marcas e como na alta tecnologia das nossas fábricas da região”, disse Richenhagen. Em 2018, a AGCO destinou um aporte R$ 112 milhões em investimentos, sendo R$ 60 milhões apenas para modernização e aplicação de novas tecnologias na planta da companhia em Santa Rosa (RS).

Eduardo Martini, gerente Regional de Vendas da John Deere, informou que os resultados da empresa estão seguindo a tendência do mercado. O executivo acredita que o mercado de máquinas agrícolas continuará em franco crescimento em 2019, por conta do bom momento da agricultura brasileira e do perfil atual do produtor, que está voltado a aplicar cada vez mais a tecnologia no campo e também na renovação do portfólio de equipamentos. “Investir em máquinas agrícolas e também em tecnologias é fundamental para o sucesso produtivo da agricultura brasileira”, destaca Martini.

Eduardo Martini, gerente Regional de Vendas da John Deere

Moderfrota gera apreensão no setor
Mesmo com otimismo generalizado em relação a 2019, o setor de máquinas agrícolas apresenta uma preocupação com os recursos destinados para o programa Moderfrota, que oferece linha de crédito para o financiamento de máquinas, equipamentos e implementos agrícolas novos e usados, acessada principalmente por pequenos agricultores. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), os recursos disponíveis não chegarão até 31 de março de 2019, três meses antes do fim do ciclo agrícola 2018/19, em 30 de junho.

Dados do setor atualizados pela Abimaq apontam que a linha, fomentada pelo BNDES e com juros de 7,5% a 9,5% ao ano, já consumiu R$ 5 bilhões dos R$ 8,9 bilhões destinados para atual safra, de acordo com João Carlos Marchesan, presidente da Abimaq. “Além de menos recursos, houve um crescimento de 58% no desembolso”, disse. “Estão todos informados e espero que haja o remanejamento de verbas de outros programas suplementar”, concluiu.

João Carlos Marchesan, presidente da Abimaq

Segundo Marchesan, o saldo que está sobrando, de menos de R$ 4 bilhões, não chega até o final de março. “Não vai ter dinheiro para o financiamento nas principais feiras de máquinas do País, que começam justamente a partir desse mês”, afirmou o presidente da Abimaq.

Essa falta de recursos antes do fim do calendário agrícola 2018/2019 preocupa os fabricantes de máquinas. “Pode faltar financiamento e atrapalhar as vendas em um momento de colheita em boa parte do País”, destaca Alexandre Blasi, diretor de Mercado Brasil da New Holland Agriculture.

Para solucionar esse problema, a direção da Abimaq pediu à equipe do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro – especialmente a futura ministra da Agricultura, deputada federal Tereza Cristina (DEM/MS), o remanejamento de recursos financeiros para a suplementação do programa Moderfrota. “O governo não pode parar o Moderfrota”, afirma Cláudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers). “É um programa muito importante para os pequenos agricultores, e não pode ficar paralisado por falta de recursos. Uma solução vai ter que ser encontrada.”
Destaque:  Colheitadeira AGCO MF 9895 e plataforma draper 45 pés – Divulgação AGCO