Maio de 1968 na Imprensa

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Protestos populares nunca faltaram na história da grande maioria dos países. No entanto, os protestos de maio de 1968 na França, que completam 50 anos, marcaram uma geração, para a qual a frase “É Proibido Proibir”, um dos slogans dos manifestantes, tornou-se parte da memória coletiva. Algo que iniciou como um movimento estudantil, em poucos dias, evoluiu para uma greve geral de mais de 9 milhões de trabalhadores, quase dois terços da força de trabalho do país.

Tudo começou com uma série de conflitos entre estudantes e autoridades da Universidade de Paris-Nanterre. No dia 2 de maio de 1968, a administração fechou a escola e ameaçou expulsar vários estudantes acusados de liderar o movimento. Isso provocou a reação dos alunos da Universidade de Sorbonne, em Paris, que se reuniram no dia seguinte para protestar. A polícia reprimiu os estudantes com violência e durante vários dias as ruas de Paris viraram cenário de batalhas campais. A reação do governo só ampliou a importância das manifestações: o Partido Comunista Francês anunciou seu apoio aos universitários e os sindicatos convocaram uma greve geral para o dia 13 de maio.

Diante do movimento, o papel da imprensa não pode deixar de ser destacado. Os meios eletrônicos eram muito fracos na França da época: o país tinha dois canais de TV, ambos estatais, três estações de rádios públicas e duas estações privadas, mas sob grande controle do Estado. O principal meio de informação era a imprensa escrita. Os jornais nacionais chegavam a 5 milhões de exemplares por dia. Os regionais chegavam a 8 milhões de exemplares diários.

Os jornais franceses não escondiam suas posições políticas. No Le Figaro, identificado com a direita, o cronista Jean Papillon escreveu: “Estudantes, esses jovens? Eles pertencem à prisão, não à universidade”. Os periódicos ligados ao Partido Comunista também se colocaram contra os estudantes, inicialmente. No jornal esquerdista L’Humanité, Georges Marchais falava dos “falsos revolucionários a serem desmascarados”. O veículo só mudaria o tom quando começaram as greves operárias. Já os jornais de maior tiragem, o France-Soir (880 mil exemplares) e o Le Parisien libéré (750 mil), ambos dirigidos por gaullistas ferventes, eram veículos de cunho popular, e investiram na dramatização dos eventos, com fotos chocantes e manchetes sensacionalistas.

Poucos procuraram fazer uma cobertura mais analítica dos eventos. Entre eles, o destaque foi o Le Monde, então considerado um competidor mais fraco do Le Figaro. O veículo investiu em fazer múltiplas reportagens, testemunhos e análises. Seus jornalistas se mobilizaram para produzir até 10 páginas por dia sobre os protestos, o que cobrir um terço de todo o jornal.

Os protestos só terminariam quando, no dia 30 de maio, o presidente De Gaulle convocou eleições antecipadas para junho. Com a manobra política (que desmobilizou os estudantes) e promessas de aumentos salariais (que fizeram os operários voltar às fábricas), o governo retomou o controle da situação. As eleições foram vencidas por aliados de De Gaulle e a crise acabou.

No entanto, as jornadas de maio de 1968 já tinham seu lugar marcado na história. Talvez a revista Paris Match, cujas fotos mostrando os conflitos entre policiais armados e jovens bem vestidos foram reproduzidas em todo o mundo, tenha destacado da melhor forma a importância do evento em sua edição especial de junho de 1968. “Aconselhamos a nossos leitores que conservem essas páginas para eles mesmos e seus filhos”, solicitou a revista, a fim de que não se esqueçam daquele momento. A maioria deles não deve ter esquecido.