Legítimo, só ele

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Menos sapato de couro e mais mercado automotivo e moveleiro. É assim que a indústria coureira do Rio Grande do Sul (e brasileira) mudou de perfil nos últimos 20 anos. Com menos espaço na indústria calçadista, o couro hoje é mais utilizado em estofamentos de carros premium ou na composição de confortáveis sofás em lojas de primeira linha.

No caso dos gaúchos, os curtumes respondem por uma riqueza de US$ 1 bilhão por ano em processamento de couro. Dados da Associação das Indústrias de Curtumes do Rio Grande do Sul (AICSul), sediada em Novo Hamburgo, indicam que o Estado hoje exporta couro para 60 países, representando 22% do total do Brasil comercializado com o exterior. “São 218 estabelecimentos coureiros registrados conosco. Alguns apenas fazem o curtimento, outros industrializam o couro. São diversas etapas”, conta o presidente executivo da entidade, Moacir Berger.

Ele destaca que o setor mudou para sobreviver. Na década de 1980, 70% do couro era utilizado pela indústria de calçados, ficando os 30% restantes para artefatos, vestuário, estofamentos de carros e outros produtos. Já na década de 1990, apenas 45% do couro teve como destino os calçadistas, 35% nos estofamentos de carros e 20% nos artefatos, vestuário e outros produtos. A mudança ocorreu devido a vários fatores, como a redução nas exportações de calçados brasileiros a partir da década de 1990 e a invasão de sapatos chineses.

As vantagens do couro na indústria automotiva não são poucas: o material é mais confortável, fácil de limpar, deixa o interior elegante, é mais resistente e difícil de manchar. “Provavelmente você encontre, hoje, um Audi rodando nos Estados Unidos com bancos de couro de animal abatido em Alegrete”, afirma, orgulhoso.

Cerca de 70% do couro produzido no Brasil vai para o exterior, com destaque para a indústria automotiva europeia e norte-americana. A categoria couro acabado é um dos mais significativos para a exportação – sua demanda é responsável por 60% do valor faturado. Em seguida vem o chamado wet blue (que já passou por um processo inicial de curtimento), com 25,4% das vendas para o exterior.

Conforme Berger, a indústria coureira do Rio Grande do Sul tem uma capacidade instalada para processar 10 milhões de peles por ano (cada pele corresponde a um boi inteiro). Como o abate anual no Estado é de 2 milhões de cabeças de gado, o restante da capacidade é suprida por couro vindo de outras unidades da federação. “Onde se mata boi hoje? Goiás, Tocantins, Mato Grosso. Então, não estamos ociosos, mas somos abastecidos por couro destes estados”, conta o executivo.

E o potencial é muito grande. Fazendo as contas, Berger ilustra que o rebanho comercial brasileiro é o maior do mundo, com 220 milhões de cabeças. São abatidas 40 milhões de animais por ano – o que rende 40 milhões de peles para os curtumes. “Claro que o pecuarista abate o boi pela carne e o couro é um subproduto. Mas, para nós, tem muito valor. Imagina se não existissem os curtumes? Não haveria como reciclar esses 40 milhões de peles. Seria tudo enterrado”, destaca ele.

Embora o volume pareça grande, há imperfeições na cadeia produtiva, principalmente quanto à qualidade da pele que chega aos curtumes. Parte do couro do animal, ou é danificada no processo de abate e desosssa, ou fica inutilizável devido a um grande problema hoje no campo: os carrapatos. O parasita deixa uma marca, tipo cicatriz, no couro. “Isso é um pecado capital na indústria e ninguém quer esse produto”, afirma Berger.

Segundo ele, os curtumes já tentaram desenvolver um programa, junto aos pecuaristas e frigoríficos, com o objetivo de melhorar a qualidade do couro entregue nas indústrias. Não foi adiante, mas a questão persiste. “O couro que recebemos é barato porque é ruim. O couro americano, ao contrário, tem maior valor. Em outras épocas, a gente comprava couro selecionado no frigorífico, recortadinho. Hoje não, vem a pele inteira, com rabo, beiço e manchas. Isso é um problema recorrente”, reclama.

E quanto ao concorrente, chamado couro ecológico? Além de se parecer muito com o original, o preço é um atrativo forte: uma jaqueta ou um calçado feitos com couro ecológico, por exemplo,  pode chegar a custar até 60% menos que um outro feito com couro bovino. “Olha, não é couro, é plástico, sintético. É um nicho que se abriu, reconhecemos isso, mas não pode ser chamado de couro. Inclusive estamos fazendo campanha junto aos pontos de venda para auxiliar o lojista a diferenciar ambos, porque hoje é praticamente igual, visualmente, um ao outro. O que queremos é que o consumidor não seja enganado”, pondera Moacir Berger.