Juarez Fonseca: “No Brasil e no Rio Grande do Sul, especificamente, as empresas são muito conservadoras. São pouquíssimas as que investem em cultura, dá para contar numa mão.”

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Juarez Fonseca

Um dos maiores nomes do jornalismo cultural do Rio Grande do Sul, Juarez Fonseca é um grande defensor da música gaúcha. Nascido em Canguçu, em 8 de setembro de 1946, começou a trabalhar como jornalista ainda no final da década de 1960. Durante 23 anos foi editor de cultura do Zero Hora, onde mantém hoje uma coluna sobre música. Além de ter sido jurado de dezenas de festivais musicais e premiações, trabalhou diretamente como produtor musical e capista de discos para vários artistas locais.

Nesta entrevista, Juarez Fonseca fala sobre a importância dos investimentos em cultura, a relação da identidade gaúcha com o resto do Brasil, a fraqueza do marketing cultural no País, além de relembrar um pouco da história musical do Rio Grande do Sul

A cultura parece ser uma coisa relegada a segundos, terceiros, quartos planos, seja no plano de mídia dos anunciantes seja no plano de programação das rádios, dos veículos de comunicação, dos espaços que se destinam nos veículos de comunicação. Por que a cultura, sendo algo tão essencial para a civilização humana, é tão relegada nas prioridades?
O Joseph Goebels já dizia “fale de cultura perto de mim que eu puxo o revólver”. Não é por acaso que ele dizia isso. Quer dizer, todos os artistas mais influentes e mais importantes da Alemanha tiveram que sair do país na época do Nazismo. Não tinha como tocar. Normalmente, o músico tem um tipo de sensibilidade, digamos assim, todo músico não, mas grande parte. O Brasil é um exemplo disso. Um tipo de sensibilidade social de observação da realidade que os governos não gostam. Que os governos normalmente não gostam.

A música é, em geral, de contestação…
Quem mais enfrentou a ditadura no Brasil? Foi a música. Teatro e música, principalmente. O cinema um pouco, mas o cinema precisa de muita grana, de muito financiamento. A música tu podes fazer sozinho, numa praça, na rua, no bar. Mas a cultura sempre foi prima pobre. Por exemplo, o Prestes Filho (que é o filho do Luiz Carlos Prestes e é economista) fez um estudo grande, na Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre economia da cultura. A partir do dado da música e da cultura brasileira de uma maneira geral o que ela significa para o país. Uma das especialidades do Brasil é a música. Todo mundo conhece a música brasileira. A Bossa Nova é uma música mundial. Tu vais hoje a qualquer lugar do mundo e ela é música ambiente. Então, ele (Prestes Filho) mostrou que os governos deveriam ter programas de economia voltados para cultura – como tem para feijão, carro, eletrodoméstico – e de exportação. Ele acha que a cultura deveria ser um item dentro do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério do Planejamento, também.

Cultura e turismo são os patinhos feios da política brasileira?
São os patinhos feios. E quando tem algum tipo de ação que, digamos, possa carregar isso mais para frente… As leis de incentivo, por exemplo, são atacadas agora, como se fossem leis de proteção de determinados artistas. Não é isso. As leis de incentivo à cultura no Brasil inteiro geraram muita coisa em termos de livros, de disco, de cinema, de artes plásticas.

Juarez Fonseca

Mas tem sentido incentivar o Cirque du Soleil, que vai cobrar um ingresso de R$ 350,00?
Sim, existem distorções que deveriam ser revistas. Não tem sentido financiar a vinda do Cirque du Soleil, que já tem patrocínio naturalmente. Não tem sentido isso. Precisa ser modificado, mas não para anular a lei. Se tem distorção, vamos acabar com a lei? Não. Eu acho que a periferia do Brasil (periferia para mim é tudo que não é São Paulo e Rio de Janeiro) se beneficiou muito das leis de incentivo à cultura. Até hoje recebo discos do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, com lei de incentivo cultural. Aqui temos duas leis que funcionam muito e fortemente que são as de Caxias do Sul e Pelotas, por exemplo. Porto Alegre caiu muito com o governo do Marchezan Júnior, digamos assim, o fornecimento de visibilidade à cultura. Ele não acredita muito nisso, ele não é um cara disso, embora o pai dele até fosse. Marchezan (pai) era um cara com quem se podia sentar à mesa e conversar, era uma pessoa agradável, afável e que discutia tudo isso. Mas esse menino, não. Esse menino não valoriza nada disso e não valoriza nem a cidade onde a gente vive.

Nós sempre tivemos aqui no Rio Grande do Sul uma dificuldade de espaços nacionais para a nossa cultura. Em comparação, diz-se que um baiano toca numa caixinha de fósforo e já vira sucesso nacional. Por que isso?
É, diz-se que o baiano não nasce, estreia. Isso é uma coisa que se discute há anos, participei de inumeráveis, incontáveis seminários a respeito dessa questão da identidade do Rio Grande do Sul. A questão identitária do Rio Grande do Sul é estudada na universidade. Tu vais perguntar a qualquer antropólogo, sociólogo, e ele tem essa preocupação. É uma coisa que volta e meia vem à tona, que se discute. Mas existe esse sentimento isolacionista, meio separatista. Essa coisa vai se reproduzindo. Na literatura, os grandes escritores aqui do Rio Grande do Sul, como Érico Veríssimo, José Guimarães, Assis Brasil, Simões Lopes e vários outros, não são conhecidos no Brasil, exceto Érico e Mário Quintana. Por quê? Os caras dizem: nós temos aqui uma cultura, somos autossuficientes. Temos editoras que lançam livros dos gaúchos. Esqueci do Luiz Fernando Veríssimo, que é um cara super nacional, conhecido de ponta a ponta do Brasil. Mas lançando o maior sucesso dele por uma editora do Rio Grande do Sul, a L&PM. O Tárik de Souza, carioca, um dos jornalistas de música mais conhecidos que tem, sempre fala desse isolacionismo dos gaúchos. A gente tinha gravadora, teve por algum tempo, e os músicos lançavam discos independentes. Por exemplo, Nei Lisboa é um cara que quase aconteceu nacionalmente, mas ele se recusou a uma proposta da gravadora, que gravou o terceiro disco dele. A EMI-Odeon era uma multinacional, uma gravadora conhecida por manter músicos mais difíceis de chegar ao mercado, como Milton Nascimento, até esses músicos conseguirem reconhecimento suficiente para venderem. E ela propôs que o Nei gravasse uma música dos Beatles para entrar na trilha de uma novela. Deram a letra para o Nei e ele disse que aquela letra não gravava, se fosse uma letra do estilo que ele fazia. Aí, não quiseram. Ele se desentendeu com a gravadora. Bebeto Alves teve também gravadora e não deu certo. Hermes Aquino teve uma gravadora e vendeu milhares de discos no Brasil, mas depois nunca mais tentou coisa nenhuma.

Somos muito apegados ao regionalismo?
O regionalismo tem um mercado fantástico no interior do Estado. Tem um mercado impressionante em todo o Estado, porque eles têm por trás uma entidade chamada Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que se autoprotege e protege seus músicos, protege seus filiados, simpatizantes e não protege os outros.

Por exemplo, Vitor Ramil é um cara conhecido nacionalmente. Em todas as grandes capitais ele tem público. Não é público de lotar ginásio, mas é um público de botar 500 pessoas em um teatro. Todo mundo sabe que o Vitor Ramil é um dos músicos mais gaúchos entre os gaúchos. Morou no Rio de Janeiro, mas voltou para Pelotas. Ele faz milongas, é um cara que renovou a milonga. E nunca nenhum CTG jamais convidou o Vitor Ramil para cantar nas suas dependências, porque ele não usa bota e bombacha. Porque não faz apologia da história inventada pelo tradicionalismo. Dois dos fundadores do tradicionalismo com os quais eu convivi, Paixão Cortes e o Barbosa Lessa, que fizeram toda a sua obra em cima de pesquisa sobre a história do Rio Grande do Sul, cultura, folclore, música e tal, tiveram muitas divergências com a maneira absolutista com que o tradicionalismo pegou essas ideias e as manipulou. Em função de uma coisa quase religiosa. Parece que os centros de tradição são templos, não são casas de cultura, porque são fechadas. O MTG diz qual é a largura da perna da bombacha. Se tu for com uma bombacha mais estreita não entra porque não é a bombacha gaúcha e por aí vai a coisa. Isso é uma coisa de identidade que afasta, também. Ficamos num estado ilhado na verdade. O que ganhamos com tudo isso? A situação que vivemos hoje no Rio Grande do Sul. O Estado nunca esteve tão pessimamente em situação econômica e política do que hoje. É uma coisa terrível tu ver o Rio Grande do Sul em decadência, andando para trás. Crescendo como cola de cavalo, para baixo.

 

Vida de músico, de artista, no Brasil, ainda é uma vida de miséria?
De miséria eu não diria. Para alguns, talvez, possa ser. Por exemplo, em Porto Alegre, é difícil para músicos como Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, o próprio Nei Lisboa. Eles têm que estar em constante movimentação, pegando migalhas, aqui e acolá, para conseguir se segurar. São migalhas, na verdade. Nenhum desses fez fortuna ou construiu patrimônio, nada disso ainda. Mas o grosso dos artistas de MPB, assim, não vive só da apresentação, da composição, do disco. Eles dão aulas, eles têm vários caminhos para conseguir resolver a questão econômica. E, às vezes, não conseguem. Vou citar o nome de um, porque ele botou no Facebook, que é o Oly Jr., um grande sujeito, grande músico. Ele é um blueseiro, mas ele inventou um negócio chamado milonga blues, que casa direitinho blues com a milonga. Ele toca milonga com instrumentação de blues, fazendo aquele tipo de guitarra do blues. Gravou música do Bebeto Alves, Vitor Ramil, Mauro Moraes. E ele estava desistindo, dizendo que ia parar de tentar conseguir viver de música. Ia começar a dar aula não sei aonde, porque não estava dando. Tem que sustentar mulher e filho e não estava conseguindo. E é um cara bem conhecido.

O Ecad não é uma grande caixa preta no Brasil que arrecada e o dinheiro não chega na ponta?
Este é um outro assunto discutido e rediscutido ao longo do tempo. O Ecad pertence às sociedades arrecadadoras. Então, são, digamos, 20 sociedades do Brasil que mantêm o Ecad. Essas sociedades são sócias ou mantenedoras do Ecad, que é o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição. O Ecad fiscaliza e repassa para essas entidades. Elas repassam para os seus associados, que são os músicos. Têm umas maiores, umas menores, umas antigas, umas mais recentes. Aqui em Porto Alegre as duas mais fortes são a UBC (União Brasileira de Compositores) e a Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes). A Abramus uma vez chegou a fazer uma varredura do dinheiro que era devido aos seus associados, por que antes dessas associações chegarem esses recursos, que eram devidos pelo uso das músicas, estava em bancos, guardados, e ninguém sabia nada. Na época conseguiram juntar um bolo grande e distribuíram bem para os artistas, mas depois ficou no pinga-pinga.

Por que os ingressos para shows são tão caros?
Os de fora daqui. Por que os músicos daqui cobram R$ 20,00, R$ 30,00, R$ 50,00, no máximo, para espetáculos locais. Eu fiquei uma fera com o show do Caetano e Gil que tinha dois caras no palco, lotando o Araújo Viana, com ingressos nessa base de R$ 600,00, R$ 700,00. Não era o público deles. O público verdadeiro deles não é o público que tem R$ 600,00. É diferente. Lei da Oferta e da Procura. Ontem, abriu uma terceira data para o show do Chico Buarque no Araújo Viana. Um show extra. Ele vai fazer três shows. Os dois anunciados anteriormente esgotaram os ingressos, e vai ser em agosto. R$ 740,00 é o mais caro. Mas tem de R$ 200,00 a R$ 740,00.

Por que essa dificuldade dos gaúchos em se colocar nacionalmente?
O Papas na Língua é um bom exemplo dessa coisa meio esquizofrênica do Rio Grande do Sul com o meio. Papas na Língua lançou o primeiro disco por uma gravadora multinacional, Sony. Era um primeiro disco bem interessante, mas não vendeu o que a gravadora esperava. E os outros discos foram por gravadoras menores ou independentes, até aparecer o Jayme Monjardim, diretor da Globo, que tem interesses no Rio Grande do Sul, um haras, um negócio com cavalos. Numa festa aqui no Rio Grande do Sul, tocou o Papas na Língua. Ele adorou. Não conhecia. Uma música, especialmente, ele botou na trilha da novela. E explodiu. Vendeu milhares de discos. Essa música, “Eu sei”. Quando aconteceu isso, eles assinaram com a EMI-Odeon. Fizeram um disco ou dois, e não mais. Depois, sem novela, a coisa não deu. Precisou o Jayme Monjardim ouvir o cara, botar na novela para o Brasil.

Qual é o fenômeno que alguns conseguem ir adiante e outros não?
Veja o Renato Borghetti. Em 1984, ele lança o primeiro disco que gravou, pagando do bolso dele. O Ayrton dos Anjos (o Patinete) estava começando o negócio da RBS discos. Pegou a fita, botou na RBS discos, a capa do disco fui eu quem fiz, com foto do Tude Munhoz. A RBS discos era associada da Som Livre, a gravadora da Globo. De repente, em menos de um ano, ele tinha vendido mais de 100 mil cópias. Ele vendeu mais de 250 mil cópias. Ele ganhou o primeiro disco de ouro para a música instrumental brasileira. Ninguém mais ganhou depois dele. Só ele ganhou. O Borghetti foi uma explosão. Um dia, eu estou no laboratório da Zero Hora e os caras estavam ligados na Rádio Cidade, era uma rádio pop. De repente, está tocando uma música do Borghetti na Cidade, que era uma rádio de cadeia nacional. Instrumental tocar numa rádio dessas, entendeu?! De repente ele estava no Free Jazz, na noite, tocando com Stephane Grappelli, que é uma relíquia do jazz francês.

 

Foi sorte? Foi momento histórico?
Foi sorte, momento histórico, a estampa dele, simpatia. Quem empurrou as vendas foi aqui, né?! O disco saiu e já estava todo mundo querendo comprar, porque já estava chamando atenção nos festivais, um garoto, cabeludo, de bombacha, chapéu tapando os olhos, bonito, então, uma série de fatores levaram a isso. E ele é um cara que toca em todo Brasil, hoje. Toca em todo mundo. Faz duas a três excursões anuais. Está consolidado. Ficou rico. Ficou bem de vida. Outro exemplo de sucesso é os Engenheiros do Hawaii, a banda, ao lado de Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, são as três mais populares da explosão do rock brasileiro dos anos 1980. O Humberto Gessinger lota ginásio do Amazonas até Jaguarão. Ele conseguiu, e com uma identidade daqui. A Adriana Calcanhoto é uma artista de super sucesso nacional. Só outra cantora gaúcha fez sucesso como ela, Elis Regina. E acho que, por unidade, a Adriana vendia por disco mais do que a Elis vendia no tempo dela. Mas a Adriana só é gaúcha porque nasceu em Porto Alegre. Ela é nacional. Não tem nenhum tipo de identidade, não remete a coisa nenhuma para cá. Já o Teixeirinha, que misturou gauchismo com sertanejo, também foi um herói nacional em termos de sucesso. A gente pode pegar muitos gaúchos que saíram e nunca mais voltaram. Por exemplo, o maestro Radamés Gnattali, que é considerado mestre de Tom Jobim, mestre de vários artistas e era um cara super importante na rádio, na televisão, nas trilhas sonoras.

Yamandu Costa é um nome nacional?
É um gênio internacional. Ele foi para São Paulo, depois para o Rio de Janeiro, se enturmou nas patotas da Lapa, do choro e como super instrumentista, todo mundo ficava embasbacado de ouvi-lo tocar. Mas ele não é um grande vendedor de disco. O negócio dele é show, é se apresentar, é viajar.

Não falta no Brasil empresas que usem de verdade o marketing cultural? Porque hoje parece que marketing cultural é incentivar um show, pagar o artista, compensar com imposto a pagar e deu.
No Brasil e no Rio Grande do Sul, especificamente, as empresas são muito conservadoras. São pouquíssimas as que investem em cultura, dá para contar numa mão. Braskem, que investe no Teatro São Pedro e Porto Alegre Em Cena. Gerdau, que investe em artes plásticas, construiu o Museu Iberê Camargo, investiu no Multipalco do Teatro São Pedro, assim como a Vonpar, e na Feira do Livro, que é um evento de muita visibilidade. A Ipiranga uma época investiu em cultura e saiu fora. O Zaffari, que também é uma coisa bem dirigida, não se espalha. Não tenho visto muita coisa da Colombo, quase nada. Mas no Brasil também são poucos. Alguns bancos: Banco do Brasil, Bradesco e Itaú. Esses três. O Banrisul não investe em cultura no Rio Grande do Sul. Ele investe em eventos do Interior. Festas disso e daquilo. Tu não vês discos com carimbo do Banrisul.

É por que o marketing cultural não dá retorno de marca para as empresas? Por que as empresas não sabem explorar todas oportunidades do marketing cultural? Por que não tem agentes culturais para criar projetos relevantes? Um Santander Cultural não acrescenta à marca Santander?
Acrescenta, sim. O Santander é um caso. É um banco espanhol, que vem com uma ideia europeia, com aporte diferente. Mas a questão do Santander é o espaço físico deles trazendo shows, exposições de artes plásticas e fazendo oficinas de chorinho, de música e tal. O Itaú Cultural tem o espaço físico deles, um prédio na Avenida Paulista, onde tem teatro, sala de exposição, cinema, e este ano vão investir R$ 16 milhões para o programa Rumos Itaú Cultural que abrange todas as áreas. Antes eles investiam a fundo perdido. O banco financiava e tchau, mas agora já estão usando as leis de incentivo também. Natura Musical, que é a Natura que investe muito em música e usa as leis de incentivo nos estados. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, o projeto aprovado pela Natura é aprovado pela LIC, tem abatimento do ICMS dela ou coisa parecida. Outra que investia muito era a Petrobras, que depois que do episódio todo da roubalheira se resguardou, mas tem alguma coisa ainda. E que mais de grande empresa brasileira?

Banco do Brasil?
Pois é, o Banco do Brasil é uma coisa que eu estava pensando hoje, vendo um anúncio de uma página inteira da Shakira, que vai se apresentar em novembro. Primeiro que aparece do anúncio é “Apresentação Banco do Brasil”. Ou seja, o Banco do Brasil está botando grana numa atriz internacional, com vários outros copatrocinadores. Tem meia dúzia de empresas ligadas a isso aí, à vinda dessa artista. Tu vês muito pouco o Banco do Brasil investir na questão brasileira. Eu desconheço um projeto do Banco do Brasil como o Rumos do Banco Itaú ou como a Natura.

Mas o marketing cultural dá resultado de marca?
Se não desse, eles não fariam. Eu não sei em outros estados como funciona a coisa, regionalmente. Sei que aqui, para os caras dos festivais nativistas, que têm LIC, assim, precisam bater em 30 portas para fechar, sabe?! Não conseguem um patrocinador master, tem que ser tudo pingadinho. Tem que montar um pool de empresas para fazer uma coisa. Custa caro montar um festival desse.

Os festivais nativistas ainda têm importância?
Na década de 1980 chegou a haver 80 festivais. Fui jurado em muitos. Era mais de um por semana.Tem muitos que se mantêm, com relativa força e significação. Claro que a significação estadual todos perderam.

Um baiano gostaria de ouvir essa música nativista? É só uma questão de falta de costume?
Desgarrados (letra de Sergio Napp e música de Mario Barbará), por exemplo, foi gravado pelo Quinteto Violado, de Pernambuco. Assim, por exemplo, em seus primeiros discos a Fafá de Belém gravou três músicas do Rio Grande do Sul: Cordas de Espinho, do Luiz Coronel e Marco Aurélio Vasconcelos; Gaudência Sete Luas, dos mesmos autores; e Vento Negro, do José Fogaça. Uma paraense. Porque ela veio na Califórnia da Canção cantar e se encantou e gravou.

Então, falta nos vendermos melhor?
Uma das edições da Califórnia foi transmitida ao vivo para todo Brasil pela Rede Bandeirantes. Fogaça, inclusive, foi um dos comentaristas dessa transmissão ao vivo. Essa música tem muita força, porque não é forte só no Brasil. É uma força que vem do Uruguai e da Argentina. Mistura. É uma coisa que junta. Milonga tem nos três lugares. Chamamé tem nos três lugares. Há uma rede de influências, mas os festivais nativistas revelaram um monte de gente e muitos gravaram discos. Muitos têm caminhonetes e ônibus para fazer shows. Revelaram Elton Saldanha, João de Almeida Neto, Mário Barbará, Cesar Passarinho, Noel Guarani, muitos outros.

Existem jingles que a propaganda eternizou ligadas a marca das empresas, como os jingles de final de ano da Varig. Como vê essa relação entre marketing e música?
Usando o exemplo da Varig. O Conjunto Farroupilha, que era ligado à rádio Farroupilha, gravou o primeiro LP em 1953, que foi o segundo ou o terceiro LP lançado no Brasil, estava chegando naquela época. Ele ficou de garoto propaganda da Varig. Então, eles iam para todo mundo cantando as músicas daqui. E passaram a gravar nos discos, músicas dos lugares onde eles iam. Eles gravaram os primeiros discos só com músicas regionais e depois começaram a gravar músicas brasileiras. Depois, colocaram música regional no contexto de música brasileira, não num contexto de música regional, só. Esse é um problema dos nossos músicos, também, não se colocam num contexto de música brasileira, nos mantemos como os regionalistas, os tradicionalistas. Somos muito fechados em nós mesmos, e esse isolacionismo, às vezes levado às raias do separatismo, nos afasta do resto do Brasil.

Entrevista: Julio Ribeiro e Marcelo Beledeli
Fotos: Jefferson Bernardes/Agência Preview