José Roberto Pires Weber “Temos padrão para fornecer carnes de qualidade, não é só no Uruguai e na Argentina. Com o Angus, temos essa carne hoje em qualquer estado do Brasil.”

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Quando o tema é a raça Angus, José Roberto Pires Weber fala com paixão da raça que conquistou mercados e paladares Brasil afora. Presidente pela segunda vez da Associação Brasileira de Angus (ABA), o criador de 700 animais da raça em uma propriedade em Dom Pedrito destaca o potencial da carne, considerada das melhores do Brasil. Ainda há percalços pela frente, como o desafio de aumentar a oferta do produto sem descuidar da qualidade da carne Angus, cujo processo de certificação começou há 15 anos. Na entrevista, o irmão da ministra Rosa Weber, do STF, fala também de Expointer, mercado internacional, de política, de sanidade animal e da greve dos caminhoneiros.

 O que é e o que representa o programa Carne Angus?
Tem sido um sucesso permanente. O projeto começou há 15 anos, e eu tive o prazer de iniciá-lo quando fui presidente a primeira vez da Associação Brasileira de Angus. Naquela época, o então Frigorífico Mercosul, de Bagé, nos chamou para conversarmos sobre uma carne diferenciada no mercado. Não se pensava muito em quê, mas buscávamos uma carne excelente, que se destacasse, até por isso o interesse deles na raça Angus. Mas não tínhamos condições de atender, naquele momento, e te digo o porquê. O grande problema de uma carne certificada por uma associação de raça é que tu deves “amarrar” várias pontas: um frigorífico interessado (o que tínhamos), mas também uma oferta adequada. Não basta ser Angus, tem que ser aquele Angus que cumpra requisitos pré-definidos para que a carne tenha um padrão. E, ainda, para que o produtor tenha interesse em fornecer essa carne diferenciada, deve ser remunerado melhor, ter um plus. Então, no início, não fluiu muito bem. Depois, fizemos um termo de cessão da marca para o grupo Eloy Tuffi, de São Paulo. Um empresário que, além de produtor rural, detinha a escola de informática Microcamp. Veio aqui e, numa reunião de diretoria da associação, mostrou cortes diferenciados de carne Angus. Começamos, então, a fazer esse trabalho com ele. Primeiramente, foi mais a cessão da marca Angus, mas fomos aos poucos.

O programa se espalhou pelo Brasil?
Temos em torno de 40 unidades frigoríficas no Brasil que certificam a carne Angus. Em cada uma existe um funcionário da associação acompanhando todo o processo de certificação da carne. A exigência quanto ao produto que recebe a certificação é rígida. Cerca de 90% desse pessoal tem nível superior – são zootecnistas ou veterinários. Acompanham o pré-abate, quando verificam a característica racial (no mínimo 50% de sangue Angus) e seguem no abate, momento em que analisa se a carne tem as exigências definidas pelo programa de certificação – espessura de gordura, acabamento, terminação, enfim, uma série de condições que resultam na carne de qualidade. Está registrado no Ministério da Agricultura, na Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA) e no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). É nossa marca, Angus, devidamente formalizada.

 Crédito -Carolina Jardine

A produção de carne certificada vem aumentando?
Tivemos um aumento constante ao longo desse período. Há dois anos, nossa previsão era chegar em 2020 com um abate anual de 1 milhão de cabeças – hoje, está em 500 mil cabeças. Foi assim nos últimos dois anos e, em 2018, vivemos uma incógnita, devido à essa instabilidade política que reflete no desempenho da economia. Percebemos que houve queda no poder aquisitivo do brasileiro, e isso pode impactar nos negócios.

Isso é motivo então de apreensão para o produtor?
Olha, de qualquer forma, temos uma situação consolidada. Somos o maior programa de carne certificada do Brasil e estamos sempre em busca de novos mercados. O que isso significa? A demanda é maior do que a oferta. Não estamos conseguindo oferecer a carne que nos pedem no mercado interno – o Brasil, no momento, é mais conveniente para os frigoríficos do que exportação. O dólar deu uma melhorada, mas ainda é mais vantajoso abastecer o mercado interno pela demanda que não conseguimos suprir. Tem compradores de São Paulo reclamando que não encontram carne Angus. Lembro aqui um detalhe importante: nós, Associação Brasileira de Angus, não compramos nem vendemos carne. Nós certificamos a carne mediante um contrato com cada frigorífico parceiro e eles fazem a comercialização do produto.

Para dar conta da demanda, falta animal ou falta frigorífico?
Falta animal de qualidade. Como o programa deu certo, houve uma tentativa, digamos assim, de que fôssemos mais liberais na certificação para atender ao mercado. Mas não abrimos mão da qualidade, pois é ela que garante o sucesso do nosso produto. Hoje, se tu comprares uma carne Angus em São Paulo, Rio Grande do Sul ou Paraná, podes ter certeza de uma carne de qualidade. Se relaxarmos nas exigências, vamos perder o que a gente sempre buscou: padrão, ou seja, uma carne sempre igual. Antes disso, a gente tinha que ter sorte na hora de fazer o churrasco. Outro ponto interessante é que começamos a trabalhar muito naquela carne que não se usava no churrasco, o que fez com que conseguíssemos aproveitar melhor o dianteiro do boi. Havia uma lenda de que carne boa era da parte traseira, como picanha etc. Estamos ensinando que o dianteiro é ótimo também.

Como o McDonalds entrou no programa?
Foi fundamental – eles criaram o McAngus, hambúrguer com a nossa carne que, infelizmente, saiu das lojas por questões de mercado. Era um produto com valor acima da média dos outros hambúrgueres, e com a crise econômica terminou. Inclusive, o hambúrguer era vendido em outros países – por uma estratégia do McDonalds, não existe mais no exterior também. Boa parte da carne utilizada no McAngus era do dianteiro, e era um grande volume. Após o fim do hambúrguer, conseguimos direcionar essa carne para países como Arábia Saudita. Outro ponto positivo é que pequenas hamburguerias passaram a solicitar carne Angus. Então o McDonalds, como mídia e marketing, foi fantástico.

Por que falta carne? É uma questão de manter o padrão racial?
Olha, semanalmente, pedem nossa carne, mais e mais. Não conseguimos atender, por que não basta, simplesmente, cruzar um Angus com qualquer animal. Não é assim, temos que usar um touro adequado, condição sanitária adequada e alimentação certa para atingir os requisitos mínimos de certificação. Hoje, o produtor que consegue a certificação vende a carne com ganho de 10% sobre o preço de mercado, então por isso a importância de manter o padrão.

E quando a carne não alcança o padrão exigido?
Nos frigoríficos onde o Angus não consegue alcançar essa certificação, nós vamos lá e nos reunimos com os produtores para informar como proceder para atingir os parâmetros mínimos necessários. É um processo lento, mas que deve ser cumprido.

Como é o Angus Gold?
Ano passado criamos o Angus Gold. Eu te diria que é o máximo da carne Angus. Claro que também é muito mais exigente na certificação, mas resulta em melhores ganhos para o produtor e para o frigorífico, que vende esse produto por um preço mais elevado. Essa iniciativa é feita com a empresa VPJ, de São Paulo, que realiza um trabalho quase artesanal e vende, hoje, picanha a R$ 140,00 o quilo. Claro que o mercado paulista é outra realidade, não podemos esquecer disso.

Mesmo com limitações de oferta e a questão econômica, a perspectiva é boa?
Sem dúvida. Estamos vendendo cerca de 4 milhões de doses de sêmen Angus por ano em todo o Brasil. É mais de metade de todo o sêmen de raça de corte comercializado no País. A grande maioria deste sêmen é usado nos cruzamentos com Nelore, a raça mais criada no Brasil. Temos aí um estoque grande de mercadoria que poderá ser certificada como carne Angus. Na minha primeira gestão na Angus, iniciada em 1998, a gente vendia 500 mil doses por ano e eu fazia festa. Um milhão de doses era a meta “maravilhosa”, nunca sonhamos chegar aos 4 milhões. Hoje, a carne Angus é reconhecida no mundo inteiro como de excelente qualidade.

Tem como aumentar as exportações?
Embora a exportação hoje não registre grandes volumes, por aqueles motivos que já citei da demanda aquecida no mercado interno, há, por parte dos frigoríficos exportadores de carne, uma vontade de mostrar a raça Angus. É o caso de JBS, Minerva, Marfrig, Frigol, enfim, grandes exportadores de carne. E temos ganhado também prêmios no exterior. Em parceria com a Associação Brasileira de Exportadores de Carne (Abiec) e com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex), participamos de feiras internacionais. Fizemos churrasco de carne Angus em Dubai, fomos ainda à SIAL, em Paris (maior feira do mundo com foco na alimentação). Também andamos pela Rússia.

O Brasil é hoje o maior exportador de carne do mundo…
É evidente, mas precisamos vender não apenas carne commodity, aquele produto do Nelore. Queremos mostrar que temos padrão para fornecer carnes de qualidade, não é só no Uruguai e na Argentina, nós também conseguimos. Com o Angus, temos essa carne hoje em qualquer estado do Brasil.

O estrago causado pela operação Carne Fraca, ano passado, foi superado?
Ainda resta alguma coisa, porque o Brasil sofre as consequências de ser um país muito grande. Se isso tivesse ocorrido com algum país menor, sem relevância em um setor tão pressionado como da carne, não ocorreria repercussão nenhuma. Como o Brasil é o maior exportador de carne mundo, os outros competidores sempre querem achar problema por aqui. Isso esconde uma jogada comercial: usar a questão sanitária ou um escândalo para justificar redução de preço no mercado internacional. Tipo, “ah, eu volto a comprar tua carne, mas quero pagar menos do que antes”, entende?

Neste ano eleitoral, como a questão política repercute nos negócios? Alguma expectativa?
Sempre que tem eleição no Brasil, vem aquele sentimento de esperança renovada. Este ano, isso não existe. Estou sem esperança por que não vejo nada que possa nos ajudar. Realmente não parece haver uma saída. Tem quase dez candidatos – ou muito radical, ou sem densidade, ou maluco ou corrupto. Tem de tudo. É um ano diferente, mas sem aquela perspectiva de mudança pós-eleição.

E o Brasil com questões fiscais muito graves…
O país tem um déficit muito grande e o tamanho do estado só aumenta. Chegamos a um limite de tributação, não tem mais como tributar. Teríamos que reduzir despesas, algo que eu faço na minha casa, tu fazes na tua, todo mundo faz. Mas o Brasil gasta mais do que recebe e não parece haver alguém com a pretensão de mudar isto. Quanto ao imposto, não se reclama tanto dele, mas da falta de retorno. Se eu tivesse saúde boa, educação de qualidade, estradas boas e segurança, eu estaria feliz da vida. Agora, tiram o pedágio e a estrada fica esburacada. Prefiro pagar o pedágio a ter que me arriscar em uma rodovia cheia de buracos.

Crédito: Fagner Almeida

A greve dos caminhoneiros paralisou o país e repercutiu no agronegócio mais do que se esperava?
O Brasil é um país esdrúxulo. Nós acabamos com as ferrovias. Na minha região, em Dom Pedrito, arrancaram trilhos e dormentes, hoje não tem mais nada ali. Por isso somos reféns do transporte rodoviário, com péssimas estradas e frete caríssimo. Agora, o governo inventou essa tabela de frete absurda. Ela não tem relação com a realidade, e sempre pagamos o pato pela incompetência do governo. Ao mesmo tempo, quem coloca o governante lá somos nós. Então, somos corresponsáveis pelo que acontece. Já que estamos falando de política, teria que renovar o Congresso. Esse presidencialismo de coalizão, com 30 e poucos partidos, não há um presidente que possa resolver as coisas por duas razões. A primeira, porque é difícil fazer os deputados votarem em algo que gere perdas para si mesmos. Em segundo, porque, para conseguir apoio, o governo tem que pagar. E paga com cargos, vantagens, licitações.

O consumidor entendeu que vale a pena pagar mais por uma carne melhor? Como está o varejo?
Hoje temos carnes de qualidade, em balcões diferenciados, com selo da raça. Os supermercados acompanharam essa evolução. E veja que interessante: falta Angus no mercado, não tem a carne lá, os consumidores nos cobram isso, mas a explicação é simples. O Angus vende mais, por isso falta. O varejo funciona muito bem. A maior dificuldade que temos hoje é na churrascaria, no restaurante que não consegue a carne certificada. Mas é uma questão logística do frigorífico, do distribuidor e do restaurante. Às vezes, o volume é pequeno e não compensa, então o frigorífico prefere negociar com um grande supermercado. Ele compra, digamos, três toneladas de carne e vende rápido. Compensa o custo logístico e os ganhos. Isso é uma escolha comercial da indústria. A Associação Brasileira de Angus não vende carne, vivo explicando isso. Ela atesta a qualidade do produto e certifica, este é nosso trabalho na cadeia.

O setor rural se prepara para a retirada da vacina contra aftosa. Como o senhor vê a questão?
A Associação Brasileira de Angus entende que a retirada da vacina é um risco desnecessário. Não há motivos para isso, Primeiro, não conseguimos abastecer todo o mercado disponível com nossa carne. Falta produto. Teríamos o que a mais? Japão, Coreia do Sul e mais algum país que compre carne de país sem vacinação. Mas a vacina não é um atestado de saúde? Em nome do que retirar a vacina, se o País não consegue nem manter uma fiscalização eficiente? Temos fronteiras enormes. Não temos como e nem nunca conseguiremos impedir o avanço de outros animais em nosso território. Veja agora a questão do javali, infernizando nossa vida no campo e que é também vetor de doença. Em Dom Pedrito, na fronteira, tu não sabes onde começa o Brasil ou o Uruguai. Os animais andam de um lado para o outro, livremente. Retornei recentemente da exposição de Palermo, na Itália, e conversei com produtores do Uruguai, da Argentina, do Paraguai. Nenhum sequer cogita deixar de vacinar. Por essas razões que citei. Tem muita coisa para fazer para conseguir suprir a demanda de mercado.

Hoje, um novo caso de aftosa seria mais desastroso que 2001…
Claro. Naquela época, eu presidia o Sindicato Rural de Dom Pedrito. Tivemos uma propriedade com febre aftosa. Embora todos os animais sejam abatidos, aquela propriedade não é a que sofre mais porque o produtor é indenizado. O problema é o raio no entorno daquela propriedade que fica “congelado”. Significa que o cidadão não pode mexer naquele gado – vender, comprar, fazer nada. Esse foi o grande problema em Dom Pedrito. A fazenda infectada foi indenizada e repovoou o rebanho depois. Os vizinhos ficaram completamente paralisados por meses.

Para quem investe em bovinocultura de corte, qual a maior preocupação?
O custo de produção. O preço do boi hoje está estagnado. O que tem nos salvado, nesse ano, é a venda de terneiros para a Turquia. Esse tema, aliás, tem colocado contra a pecuária os ativistas sem compreender a importância da atividade para o Brasil. Anos atrás o tema era desmatamento, agora a preocupação é o bem-estar animal, o que é uma falácia. Ninguém gosta mais dos nossos animais do que nós. Teve até projeto de lei em São Paulo para impedir transporte de gado em navio. Um absurdo. Há pouco tempo, aqui na Assembleia Legislativa, teve audiência pública sobre isso porque, na visão de alguns, causaria maus tratos aos animais. Isso não se sustenta por uma informação óbvia: não é admissível que um país pague R$ 6,50 o quilo do terneiro (quando o boi vale menos de R$ 5,00) e, durante uma viagem de 16 dias até a Turquia, o animal seja maltratado e chegue liquidado no destino. A carne perde valor. E os turcos são dos importadores mais exigentes. Então é um absurdo esse pensamento.

A Expointer é mesmo uma vitrine para a carne?
Sempre foi um grande mercado para a carne Angus. Ao longo dos anos, se tornou mais uma mostra de marketing. Quando fui presidente a primeira vez – e essa é a vantagem de dois mandatos, tu podes analisar os períodos – eu criei o remate Golden Angus, com os animais premiados na exposição. Ao longo dos anos, os produtores se deram conta que era mais negócio vender seus campeões em remates de Primavera, pelo interior, do que comercializar em Esteio. Isso porque, num remate, o comprador pode se interessar por outros animais da propriedade além daquele campeão. Por isso não fazemos mais leilão na Expointer, por essa mudança de postura. O marketing, as vitórias, são celebradas em Esteio, mas os negócios ocorrem nos leilões do interior.
Destaque –  Crédito: Carolina Jardine