Jornalismo político, fiador da democracia

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“O jornalismo deve ser considerado não só como uma instituição, mas também como instituição política; em outras palavras, os jornalistas são atores políticos.” Quando Timothy E. Cook, um dos maiores pesquisadores de comunicação social dos Estados Unidos, escreveu essa frase em seu livro “Governando com as notícias”, de 1998, ele alertava para a influência que o jornalismo exercia no processo democrático devido ao seu trabalho de informar o público sobre os fatos políticos.

A extensão da liberdade de opinião e de imprensa em um País é um dos parâmetros que definem se sua democracia é saudável. A atividade jornalística é considerada uma condição base para o sistema democrático, sendo fundamental no esclarecimento da opinião pública e nas ligações entre os cidadãos e seus representantes e governos. É através dos meios de comunicação social que se criam as percepções coletivas sobre a política.

No entanto, essa é uma via de mão dupla: se, por um lado, o jornalismo influencia a visão política das pessoas, por outro o público também julga os veículos de acordo com suas preferências. “O jornalismo político se parece muito com o esportivo, de certa forma, porque ambos lidam muito com a paixão das pessoas”, destaca Taline Oppitz, colunista política do jornal Correio do Povo e comentarista da Rádio Guaíba. “O público costuma responder de forma emocional a tudo o que publicamos, ficamos sempre sob um julgamento constante”, afirma.

Paula Coutinho, editora de política do Jornal do Comércio, concorda que o público tende a olhar os temas políticos de uma forma emotiva, como no esporte. “Existe até um termo usado aqui no Estado para isso, a ‘grenalização’ da política, pois são assuntos que o leitor tende a ver de um ponto de vista mais apaixonado”, lembra. Para Paula, esse comportamento pode gerar benefícios ao trabalho, uma vez que significa que a audiência está atenta a possíveis parcialidades. “Por outro lado, ver tudo de uma forma muito emocional pode prejudicar a leitura, o entendimento”,  alerta.

Entretanto, no Brasil, durante os últimos anos, o próprio interesse pela política parece ter declinado, junto com a crença na democracia. Segundo o último levantamento do Instituto LatinoBarômetro, com dados de 2017, na América Latina os brasileiros estão entre os povos que menos apoiam a democracia como sistema político: apenas 43%. A desconfiança no governo atingia 92% dos brasileiros, segundo a pesquisa. Além disso, outro levantamento, feito no início do ano pelo Instituto Locomotiva/Ideia Big Data, apontava que 96% dos brasileiros não se sentiam representados pelos políticos no País. Os estudos apontavam que possíveis causas para esse declínio eram os escândalos de corrupção no País e a crise econômica, bem como a ineficiência do setor público em atender demandas da população.

Essa descrença na democracia acaba se refletindo também em uma desconfiança da imprensa. Segundo a pesquisa Edelman Trust Barometer 2018, entre 28 países, o Brasil foi um dos que sofreram maior queda na confiança na mídia em um ano: cinco pontos percentuais, fazendo com que apenas 43% da população declarasse confiar nos veículos.

Carolina Bahia – Crédito: Omar Freitas

Diante desse quadro, os jornalistas que cobrem política enfrentam o desafio de informar a população sobre um tema que, apesar de tão importante para a sociedade, está sendo visto pelo público com desprezo. “A política hoje está sendo criminalizada, e isso acaba refletindo nos jornalistas. Se faço uma análise positiva de alguém, já criticam, acham que é apoio”, afirma Flávio Pereira, comentarista e colunista da Rede Pampa.

“A estigmatização da política não é benéfica, embora não ocorra sem razão”, alerta Paula Coutinho, do Jornal do Comércio. “Não podemos tomar a política como algo maculado, sujo. Bem ou mal, somos seres políticos. Além disso, nós jornalistas não podemos esquecer que prestamos um serviço à população. Para um jornalista, ao estar nesse espaço político é preciso essa capacidade de discernimento, essencial para nossos veículos possam servir ao público.”

Além do sentimento antipolítica, a polarização ideológica atual do País também gera problemas para os profissionais que cobrem esse segmento de notícias, especialmente nos comentários do público. “Desde a eleição de 2014 existe uma forte polarização e crescimento de grupos de ódio. Eles vêm dispostos a ofender. Cheguei a perguntar uma vez: ‘você diria isso para um vizinho seu?’. Esse tipo de agressão cresceu muito”, afirma Carolina Bahia, colunista e comentarista política do Grupo RBS em Brasília.

Para Taline Oppitz, do Correio do Povo, as redes sociais facilitaram os comentários mais “raivosos”, mas o ódio na política e direcionado aos veículos sempre existiu. “Estamos num ano bem ímpar, com momentos muito irracionais, mas sempre tivemos belicosidade. Lembro de campanhas muito agressivas no passado, especialmente as campanhas municipais. A diferença é que as redes colocam tudo na vitrine”.

Contexto e confiança, as chaves para o trabalho
Para os profissionais que atuam com jornalismo político, uma das principais características desse segmento é ter de sempre ir além do fato puro, contextualizando todas as informações. “O jornalismo político se define por buscar o que está por trás do fato evidenciado. Por que esses personagens estão tomando essa decisão e o que isso vai resultar? Não se pode só fazer o que é superficial”, destaca Carolina Bahia, do Grupo RBS. A jornalista dá um exemplo: “O senador Romero Jucá (MDB-RR) deixou de líder do governo no Senado, alegando que não concordava com a política em relação aos venezuelanos em Roraima, sua base. Mas o que havia por trás daquilo, naquele momento? Interesse na reeleição (o que não conseguiu), interesse em se afastar do governo Michel Temer em um momento estratégico. Nós, jornalistas temos a missão de mostrar o que ele quer com aquilo, não só o fato.”

Flavio Pereira  – Crédito: Roberto Revoredo/Divulgação

“Política é contexto”, resume Taline Oppitz. “É preciso saber a história de cada informação antes de escrever sobre ela: o que aconteceu antes, qual o objetivo da informação passada, quais serão os efeitos… Escrever sobre política, antes de tudo, é interpretar o que está acontecendo.”

No entanto, para interpretar os fatos, é preciso de fontes confiáveis que possam trazer informações relevantes. “Quem não consegue fontes com quem estabelecer relação de confiança não sobrevive. E precisam ser fontes qualificadas”, afirma Flávio Pereira, da Rede Pampa. O jornalista, que desde 1980 atua com cobertura política, lembra que o profissional desse segmento não pode selecionar fontes de acordo com julgamentos morais, mas pela confiança na informação. ”Tenho fontes extremamente limpas, e outras que respondem a processos, mas não sou eu quem irá julgá-las. Não existem santos na política, mas também não no jornalismo.”

“Ouso dizer que ter fontes qualificadas é ainda mais importante do que em outras áreas”, afirma Carolina Bahia. A jornalista destaca da relação “olho no olho” com as fontes. “Como o ‘off’ é muito utilizado, é preciso saber levar a conversa”. No entanto, Carolina destaca que, hoje em dia, a necessidade da checagem é ainda mais forte. “Temos que ser extremamente criteriosos, checar e rechecar a informação com várias outras fontes. Não que isso não se fizesse antes. Mas é cada vez mais presente os interesses, os boatos, pois as redes sociais alimentam isso.”

Paula Coutinho – Crédito Ana Esteves

As dificuldades de assessorar políticos
Trabalhar com política também é um desafio para quem está “do outro lado do balcão”. Os assessores de imprensa que atuam com políticos e candidatos muitas vezes enfrentam dificuldades para atuar em suas profissões, tanto pelo desconhecimento de seus assessorados sobre a área de comunicação quanto pelas pressões de lidar com colegas dos veículos.

“Quem trabalha com isso precisa matar um leão por dia, tem que provar a todo momento, ao assessorado e à imprensa, que está fazendo o melhor possível”, afirma Sergio Araujo, sócio da empresa de consultoria política NS2. Com uma experiência de mais de 30 anos como assessor de imprensa de autoridades públicas e de candidatos – “fiz campanha de vereador a presidente da República”, lembra -, Araujo destaca que um dos principais desafios é estabelecer relações de confiança com o assessorado. “É preciso respirar o assessorado 24 horas por dia. Tem que saber tudo o que acontece na vida pessoal e profissional dele para prestar um serviço de qualidade. E para isso é preciso confiança. A única maneira de ter respeitabilidade no mercado é não dar bola fora, não ser pego na mentira. Depois que perde a credibilidade, é difícil recuperar.”

Sérgio Araújo – Arquivo pessoal

Outra dificuldade relatada por Araujo é a falta de entendimento de alguns políticos da função do seu profissional de comunicação. “O assessor não pode jamais abdicar de ser um jornalista. No meio político, é muito arraigada a ideia de que quem trabalha para uma autoridade ou um candidato é como se fosse um cabo eleitoral ou servidor dele. Mas não podemos perder de vista o fato de que somos profissionais de imprensa”, destaca.

Para Soraia Hanna, sócia-diretora da Critério, empresa de assessoria estratégica de comunicação, trabalhar com políticos apresenta diferenças importantes em relação à assessoria no mundo privado e institucional. “Há questões comuns, como bom planejamento, boa pesquisa para fazer diagnóstico adequado para o trabalho. Mas, com políticos, existem os fatores emocionais do assessorado, e é preciso ter sensibilidade para lidar com isso”.

Soraia Hanna – Crédito Lucas Dalfrancis

Soraia, que já trabalhou na Assembleia Legislativa e para assessorias governamentais e do Banrisul em quatro gestões do governo do Estado do Rio Grande do Sul, afirma que em empresas, fatores mais racionais preponderam ao trabalhar com a imagem. Já alguns políticos tendem a puxar para a desorganização pelo lado pessoal. “Dependendo do caso, é como lidar com uma gestão de crise ambulante”, explica. “O candidato tem que se sentir seguro, é quase um trabalho de coaching.”

A assessora Magali Beckmann, que desde 1998 trabalha com políticos e campanhas do PSDB no Estado, alerta que, muitas vezes, há pouca preparação de profissionais para atuar nessa área. “A formação acadêmica é muito focada na iniciativa privada. Ninguém sai da universidade preparado para atuar com política, é preciso aprender na prática”, destaca. No entanto, Magali acredita que o bom profissional precisa também buscar uma formação que vá além do trabalho diário. “Leitura é muito importante, preparação, aperfeiçoar-se nessa área, fazer cursos, tudo para pode desenvolver um serviço de melhor qualidade.”

Diante do desgaste atual da classe política, Magali aponta que conseguir pautar a imprensa de forma positiva para o assessorado é um forte desafio. “A forma como os políticos aparecem nos jornais mudou. Antes era mais fácil conseguir espaço. Mas nosso papel segue o mesmo, aproximar as duas partes, ajudar o jornalista e divulgar nosso assessorado”, afirma.

Para Soraia Hanna, quem atua nessa área precisa ter em mente que é preciso mostrar para os veículos que o assessor é um aliado. “Sempre tem os ‘tranca ruas’, mas precisamos nos colocar no lugar do outro. Nosso papel é dar credibilidade e auxiliar, e o político preparado já sabe que não pode viver sem um bom assessor de imprensa.”

Entretanto, Sérgio Araujo destaca que é preciso deixar claro que os papéis profissionais nas relações com os assessorados e o resto de sua equipe. ‘Nas campanhas, aprendi que assessor assessora, e o político decide. O assessor é um planejador de comunicação, dá as opções. Mas, quem decide a estratégia é o candidato. Se perder, ele vai culpar a equipe, e se ganhar assume para si o bônus da vitória. Então, tem que sempre colocar que a decisão final é dele.”

Taline Oppitz – Reprodução YouTube

Coronelismo eletrônico: o rádio e TV nas mãos dos políticos
A mídia eletrônica e a política no Brasil andam de mãos dadas, ferindo o que prevê a Constituição Federal. Na atual configuração do Congresso Nacional, são 40 parlamentares com participação direta ou indireta em concessões públicas de rádio e televisão (confira a relação). O número de congressistas está presente na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) número 379, proposta pelo PSOL e que está em análise no Ministério Público Federal.

No documento estão listados oito senadores e 32 deputados federais, o que equivale a 10% do Senado Federal e a mais de 6% da Câmara dos Deputados. Esse dado contraria o que está previsto na Constituição Federal, que em seu artigo 54 determina que desde a posse, deputados e senadores não podem “ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada”.

Pessoas jurídicas de direito público são todas as empresas concessionárias de serviços públicos, incluindo, as de radiodifusão. É com base nesse dispositivo da Constituição que o Tribunal Regional Federal da 3ª Região solicitou o cancelamento das concessões de cinco emissoras de rádio que têm como sócios-proprietários os deputados federais Luiz Felipe Baleia Tenuto Rossi (PMDB/SP) e Paulo Roberto Gomes Mansur (PRB/SP).

A determinação, entretanto, não avançou. No mesmo ano, o presidente Michel Temer, por meio da Advocacia-Geral da União (AGU), solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a uniformização dos entendimentos em relação ao tema. Só que a solicitação de Temer é para que a participação de parlamentares nas concessões públicas de rádio e televisão seja permitida.

A ação recorre a outro artigo da Constituição Federal, o artigo 222, que define que a “propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sede no País”. Segundo a AGU, não há “qualquer referência ao fato de determinado sócio ser detentor de mandato eletivo”, sustentando que “se não há restrição constitucionalmente estabelecida nesse sentido, não pode sequer a lei fazê-lo”. O Supremo ainda discutiu o tema.

Uma relação histórica
Enquanto a discussão sobre a legalidade ou não da participação de parlamentares nas concessões públicas, outros aspectos devem ser analisados. Até que ponto essa relação fere princípios democráticos?

Para analisar essa questão é necessário observar a histórica relação entre poder político e mídia no Brasil. De acordo com Suzy Santos, professora e pesquisadora da UFRJ, as concessões de rádio e TV sempre tiveram papel importante na política brasileira. Isso está registrado na história do país desde a Era Vargas e se mantém até hoje.

Mesmo depois da redemocratização, avalia, a prática permanece. “Você verifica claramente que desde os tempos do PSD, os partidos governistas sempre se mantiveram como os partidos dos políticos donos de radiodifusão.”

Suzy destaca que a prática é o que se pode chamar de coronelismo eletrônico. É inquestionável que o controle da mídia é uma das formas mais evidentes de exercício do poder. Nesse sentido, a pesquisadora avalia que a participação de políticos nas concessões fere a democracia.

É uma distorção em um país que segue o modelo de estado democrático. Retomando a quantidade de políticos que participam de concessões de radiodifusão, Suzy ressalta que observando os quadros políticos por Estado fica evidente a concentração de meios de comunicação nas mãos de parlamentares eleitos. “No caso de alguns estados como o Rio Grande do Norte, Roraima ou Santa Catarina, a propriedade de canais de rádio e TV por políticos ultrapassa 50% do total”, aponta.

Senadores e deputados listados na ADPF 379

Senadores
Acir Marcos Gurgacz  (PDT-RO)
Aécio Neves da Cunha (PSDB-MG)
Edison Lobão (PMDB-MA)
Fernando Affonso Collor de Mello (PTB-AL)
Jader Fontenelle Barbalho (PMDB-PA)
José Agripino Maia (DEM-RN)
Roberto Coelho Rocha (PSB-MA)
Tasso Ribeiro Jereissati (PSDB-CE)

Deputados
Adalberto Cavalcanti Rodrigues (PTB-PE)
Afonso Antunes da Motta (PDT-RS)
Aníbal Ferreira Gomes (PMDB-CE)
Antônio Carlos Martins de Bulhões (PRB-SP)
Átila Freitas Lira (PSB-PI)
Bonifácio José Tamm de Andrada (PSDB-MG)
Carlos Victor Guterres Mendes (PMB-MA)
César Hanna Halum (PRB-TO)
Damião Feliciano da Silva (PDT-PB)
Dâmina de Carvalho Pereira (PMB-MG)
Domingos Gomes de Aguiar Neto (PMB-CE)
Elcione Therezinha Zahluth Barbalho (PMDB-PA)
Fábio Salustino Mesquita de Faria (PSD-RN)
Felipe Catalão Maia (DEM-RN)
Félix de Almeida Mendonça Júnior (PDT-BA)
Jaime Martins Filho (PSD-MG)
João Henrique Holanda Caldas (PSB-AL)
João Rodrigues (PSD-SC)
Jorginho dos Santos Mello (PR-SC)
José Alves Rocha (PR-BA)
José Nunes Soares (PSD-BA)
José Sarney Filho (PV-MA)
Júlio César de Carvalho Lima (PSD-PI)
Luiz Felipe Baleia Tenuto Rossi (PMDB-SP)
Luiz Gionilson Pinheiro Borges (PMDB-AP)
Luiz Gonzaga Patriota (PSB-PE)
Magda Mofatto Hon (PR-GO)
Paulo Roberto Gomes Mansur (PRB-SP)
Ricardo José Magalhães Barros (PP-PR)
Rodrigo Batista de Castro (PSDB-MG)
Rubens Bueno (PPS-PR)
Soraya Alencar dos Santos (PMDB-RJ)