Jornalismo & Literatura

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A morte de Tom Wolfe (1930-2018), aos 88 anos, em 14 de maio, em Nova York, fez surgir uma estrela na discussão sobre Jornalismo e Literatura. Para Gabriel García Márquez, Jornalismo é um Gênero Literário. No curso de Comunicação da Universidade de Colúmbia, em N.Y., criada por Joseph Pulitzer, em 1912, instituição que outorga o consagrado Prêmio Pulitzer de literatura, Jornalismo Literário continua sendo uma das disciplinas eletivas mais concorridas nos cursos de pós-graduação em Jornais, Revistas, Arte, Broadcast e New Media. A criatividade e sensibilidade da narrativa torna o jornalismo mais leve, sem necessidade de apelar para o Soft News, a notícia suave. O entretenimento inconsequente, nenhuma significação, deixa para as redes sociais.

Noman Mailer, Gay Talese, Susan Sontag e Gore Vidal

Talvez seja um exagero de Márquez entender o Jornalismo como Gênero Literário. Mas é inegável sua origem na literatura. Com a imprensa mercantilista e as faculdades de jornalismo surgiu a obsessão pela objetividade, neutralidade e isenção. Os textos pasteurizados, iguais, sem sabor, passaram a ter um narrador distante, formal, muitas vezes encoberto por tantas frases declaratórias e créditos a qualquer informação, saídas da exigência de citar a fonte.

Quando as publicações abriram suas páginas para as Grandes Reportagens, quebrou-se a lógica da mesmice. Os repórteres consagrados sempre tiveram restrições à qualificação: Jornalismo Literário. A reportagem fez esta aproximação com a Literatura. O perfil, publicado em jornais e revistas, utiliza a mesma técnica, reduzida, das longas Biografias editadas em livros com centenas de páginas. Ao contar um fato, com ambientes e personagens, o repórter descreve uma história com aprofundamento social, personagens humanos, dramas pessoais, superações, destemor, envolvimentos psicológicos, fatos reais como se saíssem da imaginação de um escritor. O detalhe, a pontuação curta, um fluxo de pensamento em cada frase. A passagem entre as cenas; a costura dos parágrafos. O texto longo recuperou a presença do narrador conduzindo a leitura. O new journalism veio como um desdobramento.

O ambiente cultural e na imprensa era propício. Anos 1960, Estados Unidos. Os principais jornais decidiram criar suplementos de leitura nos fins de semana para concorrer com as revistas como Time, Yorker, Esquire e Life. A maioria de seus repórteres não teria fôlego para redigir matérias de duas, três, quatro, cinco, seis mil palavras. A Playboy se consagra na época. Bons textos deveriam justificar a compra da revista, motivada, na verdade, pelas mulheres nuas. Onde buscar tanto talento?

A contracultura imperava nos Estados Unidos. Os parágrafos imensos, frases sem fim, os descaminhos do pensamento no devaneio das drogas. O mercado de livros estava em crise. Escritores em decadência e novos nomes não conseguiam publicar. Este pessoal passou a ser recrutado pelos diretores de redação como freelancer. Gay Talese e Robert Lipsyte no New York Times; Michael Mok, no Daily News; Norman Mailer na Esquire e Wolfe no caderno Nova York, do Herald Tribune.

Eles passaram a escrever o que sabiam: literatura. Os primeiros textos rompendo dogmas do jornalismo são editados em 1962, 1963. Os críticos culturais, de gravata borboleta, torceram o nariz para a inovação de fácil leitura, gosto popular. Somente em 1965, a Yorker começa a publicar em capítulos A Sangue Frio, de Truman Capote (1924-1984). Ele acaba personificando o Novo Jornalismo, apesar de não ter escrito nenhuma outra reportagem antes ou depois, em sua carreira como escritor e dramaturgo, morto aos 59 anos em Los Angeles, de câncer no fígado.

“Escrever jornalismo para ser lido como um romance”, assim Wolfe definiu o new journalism. Um dândi de ternos claros e meias-quadriculadas, que cometia “hipérboles jornalísticas”, segundo o dramaturgo Arthur Miller (1915-2005). Com diálogos que o repórter não ouviu, descrição de ambientes onde não esteve, olfatos, paladares, luzes, sombras, gritos. Travessões para separar complementos, exclamações, interjeições, onomatopeias. Na narrativa, aparece o fluxo da consciência, o que a pessoa está pensando, heresia na imprensa, e até o ponto de vista múltiplo dos personagens para uma mesma cena, não tanto como nos romances de Henry James (1843-1916), claro. Quanto mais envolvente, pode ter mais ficção, menos jornalismo. O americano Hunter Thompson (1937-2005) radicalizou com o repórter participante do ato. Perdeu os dentes ao se envolver com a gangue de motociclistas Os Anjos, durante 18 meses, para escrever a matéria. Suicidou-se com tiro de espingarda.

Baile Preto e Branco
Truman Capote levou cinco anos realizando pesquisas, entrevistas e acabou se envolvendo com um dos dois autores do crime que dizimou uma família, o casal e dois filhos, numa propriedade rural do Kansas, em 1959, amarrados, torturados e mortos a facadas e tiros de espingarda. A reportagem de Capote foi publicada após a execução dos condenados. Na noite chuvosa de 28 de novembro de 1966, o autor promoveu um baile para 540 convidados no Hotel Plaza, de N.Y., ao som da orquestra de Peter Duchin, uísques, espumantes, espaguete e fricassé de frango, para festejar o sucesso de A Sangue Frio, publicado no início do ano. Aristocratas europeus, magnatas, artistas e eruditos tiveram de comparecer vestindo preto e branco. O romancista os recebeu de smoking. A repercussão na imprensa foi tanta que foram promovidos bailes semelhantes no mundo todo. Eu dancei no Clube Cassino de Alegrete, todos os casais na pista de preto e branco, acredite.

O bandido da luz vermelha
Quando eu era menino, também tive meu condenado de estimação, junto com o cachorro Teco-Teco. Era o americano Caryl Chessman (1921-1960), o Bandido da Luz Vermelha. Acompanhava sua história real pelas páginas do Correio do Povo. Ele aproveitou a prisão para estudar e adquirir o hábito da leitura. Formou-se em direito, destituiu seu advogado e passou a defender-se sozinho. Escreveu a autobiografia 2455 – Cela da Morte. Era acusado de assaltos, sequestros e estupros na estrada, usando uma lanterna giratória, para parar os carros, como fosse uma viatura policial. Não matava. Morreu na câmara de gás, em 2 de maio, aos 39 anos, jurando ser inocente. Eu acreditava nele aos 11 anos.

O Bandido da Luz Vermelha

O encantador Leonam
Perfil do repórter e Professor Emérito da PUCRS, Marques Leonam, foi publicado em livro, pelas jornalistas Ana Paula Acauan e Magda Achutti. O Encantador de Pessoas traz segredos pessoais, aulas de jornalismo e a convivência amorosa com os alunos.