Jornalismo esportivo cresce em campo

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Um jornalista com um desafio: traduzir em palavras momentos que são pura emoção. O esporte, para quem torce, não é só técnica e fato. É sentimento. Frequentemente, o jornalismo esportivo tem que descrever o indescritível, como fala Armando Nogueira em crônica sobre a conquista do tricampeonato da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970. “E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe?”

A quantidade exata de jornalistas que atuam com cobertura esportiva é difícil de ser obtida, tendo em vista que a maioria das empresas não faz essa distinção de área nos contratos. No entanto, alguns dados permitem dizer que esse número é crescente no mundo. Em 1998, na Copa da França, houve 9 mil jornalistas credenciados para cobrir o evento. Vinte anos depois, na Rússia, os credenciamentos chegaram a 16 mil, número pouco inferior à Copa realizada no Brasil, em 2014, que registrou recorde de credenciais para a imprensa: 16,7 mil.

Se a Copa do Brasil de 2014 pode dar uma ideia do universo do jornalismo esportivo no País, então podemos dizer que é uma área onde a televisão mostra maior relevância do que a imprensa escrita. De todos os brasileiros credenciados pela Fifa – cerca de 4 mil – 3 mil representavam equipes de televisão, e apenas 593 eram da imprensa escrita. Na época, a Fifa atribui a redução da presença da imprensa escrita aos altos custos de cobertura e à crise financeira dos veículos.

No Rio Grande do Sul, a Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg), que credencia profissionais para cobertura de jogos, conta com cerca de 800 associados. “Esse número muda muito, porque sempre entram pessoas novas. Não contamos apenas com profissionais formados, mas também estudantes que já estão trabalhando na área”, explica o presidente da Aceg, Alex Bagé, que atua na Rádio Bandeirantes como apresentador e comentarista.

Alex Bagé

Para Nando Gross, gerente-geral da Rádio Guaíba, o crescimento do jornalismo esportivo nas últimas décadas fica evidente pela quantidade de profissionais e veículos que vêm se dedicando à atividade. “Há pouco tempo, tínhamos apenas duas rádios em Porto Alegre que transmitiam futebol. Hoje são quatro da mídia tradicional, sem contar as que estão na web e as de clubes. Além disso, há uma infinidade de plataformas, blogs, sites, canais de YouTube”, lembra.

Nando Gross

Um dos veículos que se somou ao time do jornalismo esportivo na última década em Porto Alegre, foi a Rádio Grenal, do grupo Pampa. Oficialmente inaugurada em 2012 (embora as primeiras transmissões no formato atual tenham começado ainda em 2011, como Rádio Jornal O Sul), a Grenal apostou em uma programação voltada exclusivamente ao futebol, focando na dupla que dá nome à emissora (Grêmio e Internacional). “Muitos achavam que era uma loucura falar 24 horas diárias de futebol”, recorda o apresentador Kleriton Vargas, que comandou o primeiro programa da Grenal a ir ao ar. “No então, não é loucura, e nosso sucesso mostra isso. Existe uma parcela gigante do público que consome esse tipo de informação, e surfamos nessa onda”, destaca.

Disseminação de veículos e profissionais gera desafios
O coordenador de esportes da Rádio Guaíba, Carlos Guimarães, também lembra a maior diversidade do cenário atual do jornalismo esportivo. “Hoje temos mais meios de comunicação e gente produzindo transmissão de informação. A cobertura não é mais monopólio das grandes empresas, ela pode ser feita de diversas formas pela internet. E, ao mesmo tempo, com a tecnologia temos uma noção melhor do que interessa ao público e como ele consome a informação transmitida”, destaca.

No entanto, a expansão de veículos e profissionais cria novos problemas para a atividade, ao mesmo tempo em que complica desafios já existentes. Um deles é a própria viabilidade financeira dos meios de comunicação. “O futebol está cada vez mais caro e os veículos cada vez mais sem dinheiro”, destaca Guimarães. Os valores envolvidos com direitos de transmissão, por exemplo, são cada vez maiores. Para poder transmitir os jogos da Série A do Campeonato Brasileiro de 2018, a Rede Globo desembolsou R$ 1,33 bilhão no ano passado, uma quantia recorte. “Isso só agrava a crise geral enfrentada pelos veículos. Essa conta não bate”, afirma o coordenador de esportes da Guaíba.

Carlos Guimarães

Segundo Nando Gross, o aumento do número de jornalistas e veículos esportivos, combinado com a profissionalização maior do futebol, também tem causado mudanças na forma de produzir conteúdo. Uma delas é a maior restrição dos clubes para a atividade jornalística em seus ambientes. “Quando tinha pouca gente atuando na área era possível aos repórteres entrarem dentro do vestiário para entrevistar um jogador ou treinador. Hoje isso seria impossível de lidar, só com coletiva mesmo. Isso faz com que quase não se tenha mais furo, as informações bombásticas são para todos”, argumenta.

Diante da falta do “furo”, da informação exclusiva, cada vez mais os veículos esportivos têm investido em outras linhas de frente na cobertura. A primeira dela é abrir ainda mais espaço para a opinião. Mas o outro avanço é nas análises técnicas e de dados – o chamado scout -, como acerto de passes, mapa de calor, etc.

“A grande maioria dos programas esportivos hoje é de opinião. O problema é como embasar e transmitir essa opinião”, afirma Nando Gross. “Hoje o debate melhorou em termos técnicos, porque há uma nova geração que está interessada nisso. Hoje todo mundo sabe o que é 4-1-4-1. Há algum tempo debochavam, ‘é linha de ônibus’, hoje todo mundo usa, é natural, o debate melhorou. O desafio do jornalista é pegar esse conhecimento e traduzir de uma forma que todos vão entender. É preciso ter consciência de que se está falando para o público geral, não para experts”, destaca.

Kleriton Vargas, da Rádio Grenal, concorda que os profissionais precisam dosar muito bem o uso de linguagem técnica. “A questão tática ainda atinge um público pequeno. Por exemplo, se eu perguntar a um ouvinte que ele achou dos 46 passes errados de tal jogador? Quem é de uma geração mais jovem, que assiste futebol europeu, que joga Fifa no Playstation, vai entender. Mas um público, que não é expert, para quem o futebol é apenas uma questão de paixão, não vai saber dimensionar isso. É preciso ter consciência que isso não atinge a todos”, diz Vargas.

Kleriton Vargas

Para Carlos Guimarães, os profissionais de jornalismo esportivo precisam ter o cuidado de unir a parte técnica da análise ao comentário lúdico. “Esporte é paixão. É verdade que não temos como fugir de uma análise mais embasada, a era do ‘achismo’ morreu. Mas é preciso consciência de que focar apenas em dados, em números, é chato para o público.”

Qualificação: mais importante do que nunca
Blogs e as novas mídias abriram espaço para que mais pessoas possam participar da criação de conteúdos relacionados ao esporte. “A revolução tecnológica permite uma ‘autopromoção’. Uma pessoa pode fazer um canal do YouTube, uma página do Facebook, e se dedicar a veicular informações esportivas, as vezes bem específicas, como de apenas um clube, e ainda assim obter sucesso”, afirma Carlos Lacerda, comunicador da Rádio Grenal. “O que vai separar o joio do trigo, como sempre, é a credibilidade”, destaca.

Um exemplo de jornalista aproveitando as novas tecnologias para se transformar em seu próprio veículo de comunicação vem de um veterano da cobertura esportiva. Aposentado dos microfones desde 2011, o comentarista Ruy Carlos Ostermann voltou a dividir com o público seus comentários esportivos através do Facebook. Em sua página oficial Fala Professor Ruy, realizou comentários sobre os jogos da Seleção Brasileira no Mundial da Rússia. A recepção foi melhor do que esperava. “Deparei-me com velhos consumidores de páginas esportivas, e pude fazer uma observação mais meticulosa dos acontecimentos. Foi uma experiência muito feliz”, destaca. Ostermann afirma que quer seguir com a experiência de fazer comentários esportivos através das redes sociais.

Rodrigo Oliveira

No entanto, nem sempre a proliferação de veículos alternativos é algo positivo. “Com o advento da internet vieram os sacrários web e blog. Todos viraram jornalistas esportivos. Aí, não se tem mais nada exclusivo”, comenta o narrador Pedro Ernesto Denardin, da Gaúcha/ZH, que iniciou a trajetória profissional há 45 anos.

“Hoje, você consegue criar uma conta e em qualquer tipo de rede social e automaticamente tem um canal de informação. Se você for uma pessoa que produza muita informação, passa a ser um formador de opinião”, avalia o jornalista Alex Bagé, que atualmente é também presidente da Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg).

A Aceg é a entidade responsável por fazer o credenciamento para imprensa em eventos esportivos no Estado. Bagé conta que, muitas vezes, é difícil distinguir e definir quem está apto ou não para receber a credencial. “Na Aceg, eu já tive casos de pessoas que criaram uma página no Facebook na quinta-feira e já estavam solicitando credenciamento para o clássico Grenal. Passa por aí a consideração da regulamentação da nossa profissão”, sinaliza, citando que é preciso, no mínimo, que se tenha um registro profissional.

A crônica esportiva na era dos blogs
Há 13 anos, o jornalista gaúcho Douglas Ceconello se dedica à crônica esportiva. É uma experiência que desenrola, sobretudo, na blogosfera. Hoje, ele escreve o blog Meia Encarnada, hospedado no site globoesporte.com.

Mas essa trajetória começou em 2005, de forma amadora, quando Ceconello, na época recém-formado, começou a escrever para o blog impedimento.org. O blog foi mantido durante nove anos, mas foi tempo suficiente para construir uma história e apontar alguns caminhos.

“Acredito que o Impedimento foi importante por dois aspectos, principalmente: por mostrar que o jornalismo colaborativo podia prosperar e por investir em texto de qualidade (crônicas, reportagens e entrevistas) em um momento que o consumo do jornalismo já acontecia de maneira fragmentada”, avalia o jornalista.

Outro ponto, salienta, foi a formação de uma imensa comunidade de leitores que tinham uma participação decisiva. “Não há como pensar no Impedimento sem sua caixa de comentários, por exemplo”, salienta. Com o blog, já era possível sentir como seria a interação nas novas mídias. “De maneira incipiente, o que hoje acontece nas redes sociais já acontecia no Impedimento.”

Enquanto os blogs estavam se formando, Ceconello e outros blogueiros que faziam parte da equipe praticavam a escrita. “Era ao mesmo tempo um salto no escuro e um leque imenso de possibilidades a serem exploradas”. Manter um site por conta própria era desafiador e foi isso que levou ao término da iniciativa.

“Como ele nunca foi uma fonte de renda para nós, precisávamos manter outros trabalhos, então nos vimos em uma sinuca: queríamos investir tempo para que ele se tornasse rentável, mas como ele não era rentável a gente não dispunha deste tempo”, conta. “Paradoxalmente, o Impedimento acabou porque cresceu bastante e, em vez de deixar o projeto definhar, resolvemos interrompê-lo quando estava em um bom momento, pouco depois da Copa do Mundo de 2014, quando vínhamos de dois meses com recordes de acessos.”

Hoje, o desafio é outro: enfrentar a grande oferta absurda de conteúdo. “É encontrar sempre um viés original que possa cativar o leitor em meio a tanta coisa disponível.” Para Ceconello, o papel do comentário esportivo é propor diálogos e estar aberto à contrapartida do público. “Me parece que o leitor (ou o ouvinte, ou o telespectador) gosta que alguém lhe proponha possibilidades de interpretação, mas não necessariamente que seja pedagógico ou didático nesta abordagem, porque invariavelmente acaba subestimando o público.”

Copa do mundo é oportunidade de ouro
A Copa do Mundo da Fifa é o maior evento esportivo do mundo. Para quem cobre esporte diariamente, é a grande experiência a ser vivenciada. “Os momentos mais marcantes da minha carreira são as 3 copas do mundo que eu cobri. A de 2010, pela Guaíba, a de 2014 pela Gaúcha e a de 2018 por Gaúcha/ZH. É o evento máximo. São os melhores momentos da minha vida”, relata o jornalista Rodrigo Oliveira.

Outro jornalista gaúcho que participou da cobertura da Copa do Mundo foi Eduardo Gabardo, que também realizou cobertura para Gaúcha/ZH. Ele conta que o mundial é desafiador para o profissional, citando as grandes distâncias a percorrer e a quantidade elevada de atividades a cobrir, como eventos e coletivas de imprensa, mesmo nos dias sem partidas. “Praticamente, não há tempo de descanso, de preparação entre um evento e outro, então é tudo muito corrido, muito rápido. No caso de rádio, o profissional não tem tempo para pensar, se projetar, se concentrar no que vai falar, e, no caso do jornal e do site, não tem tempo para escrever com calma.”

Eduardo Gabardo

Há, ainda, a importância de conhecer bem o país-sede (ou os países em que serão feitas as coberturas) e de estar preparado para as pautas inesperadas, comenta Oliveira. “A principal entrevista que eu fiz na Copa da Rússia, por exemplo, foi com a mãe do lateral da Islândia que eu encontrei na Praça Vermelha por acaso e bati um papo com ela, me identifiquei como imprensa e a entrevistei; ela revelou que o filho trabalhava em uma fábrica de sal e eu fiz uma entrevista contando toda a história do jogador. Então tem que estar atento a tudo, porque tudo pode ser pauta em uma Copa do Mundo.”

O que mudou com o VAR?
A Copa do Mundo de 2018 marcou também uma mudança significativa no trabalho do jornalista esportivo: a utilização do árbitro de vídeo (VAR). “Era uma coisa muito necessária no futebol, porque no estádio, todo mundo tinha a possibilidade de ver o replay: quem estava na transmissão podia acompanhar a repetição dos lances; o torcedor que está na arquibancada e o técnico também recebiam essa informação. Só o árbitro que não tinha essa condição”, explica Eduardo Gabardo.

Por outro lado, o jornalista precisa ser cauteloso. “Agora a gente tem que estar atento porque a qualquer momento o VAR pode entrar e mudar aquilo que antes era definitivo”, diz Oliveira. A melhor maneira de lidar com esse desafio é conhecer bem o mecanismo de funcionamento do árbitro de vídeo, ensina Gabardo. O profissional precisa saber quais são as condições em que ele pode ser usado e como pode interferir na decisão do árbitro.

Neymar sendo fotografado em 2014 – Marcello Casal Jr Agência Brasil

Fato é que o VAR veio para ficar, sentencia Pedro Ernesto Denardin. “Mas ainda é um festival de trapalhadas. Ninguém entende nada. Para nós, jornalistas, foi criada uma grande confusão. Se eles não sabem como agir, nós muito menos”, critica. Para Gabardo, há muitos ajustes a serem feitos. “Eu acho que ele funcionou bem, mas vai demorar algum tempo até que funcione melhor ainda.”

Veteranos lembram as transformações da cobertura esportiva
Para os veteranos da cobertura esportiva, uma das grandes mudanças na atividade é o status atual de quem trabalha na área. “Hoje o esporte é reconhecido. Teve uma época que era o seguinte, o cara não sabia fazer nada, vai fazer esporte ou polícia, principalmente no jornal”, diz o jornalista aposentado Lauro Quadros, ao lembrar como era a situação da carreira nos anos 1950 e começo dos 1960.

Com 78 anos, Lauro começou a trabalhar em 1959, na Rádio Gaúcha. Em 1962, fez sua primeira cobertura de Copa do Mundo, no Chile, quando o Brasil ganhou o bicampeonato. “Na época, os brasileiros só conseguiram ver os jogos no dia seguinte, com sinal gerado por uma televisão mexicana”, recorda.

Lauro Quadros

No entanto, mais do que os avanços tecnológicos, Lauro destaca as mudanças da cobertura jornalística. “Naquela época tu tinhas um contato muito mais direto com as fontes. Cansei de entrevistar jogador dentro do vestiário, era permitido à imprensa fazer isso. Hoje tudo é mais controlado”, destaca.

Essa mudança também é destacada por Ruy Carlos Ostermann. “As circunstâncias do trabalho mudaram. Havia uma relação direta do jornalista com a fonte. E as relações dos veículos com os ouvintes, com os leitores, também não são as mesmas”, destaca.

Ruy Carlos Ostermann

Com 83 anos, Ostermann iniciou sua vida jornalística em 1962. Sua primeira cobertura de Copa do Mundo foi em 1966, na Inglaterra. O “professor”, como é chamado, destaca que as mudanças na cobertura esportiva refletem, de certa forma, a própria evolução do esporte. “O futebol, por exemplo, não é mais o mesmo. Mudaram muito tanto as relações de trabalho quanto a concepção de jogo. Então é natural que mude também a maneira de cobrir o esporte”,destaca.

Fotógrafos em beira de campo – Crédito Ronnie Macdonald