História para relembrar Albert Collins , por Marco Poli*

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(recomenda-se ler ouvindo: http://youtu.be/lbnm-XDNJIo)

Tinha um pub na esquina da Park Avenue, próximo ao hotel. Não sei se ainda tem porque Donald Trump andava comprando todos os imóveis próximos ao Central Park para construir suas torres. Irlandês o pub, “of course”. Cheguei do trampo e fui direto, sabendo que a equipe já estava lá e tinha aberto os trabalhos sem mim.

Nem bem entrei e deparei com o olhar malévolo do irlandês que gerenciava(ou era dono) e que tinha um anexo costurado na camisa para acomodar uma hérnia. Um “irish oldboy” com aquele sorriso quase duende queria dizer encrenca na certa. Olhei para o fundo do bar e o PO, nosso cinegrafista, um malandro matreiro criado na vila Cruzeiro, acariciava a mão da loira de olhos azuis, a meio palmo de seus lábios, contando alguma história em qualquer língua, já que inglês ele não sabia e monoglota ela também era. Lembrei — mas, aquela não é a garota do sobrinho do dono, o maior irlandês que já vi? Foi quando olhei novamente para o bar e vi aquela imensa massa humana me fuzilando com os olhos e perguntando se eu iria beber alguma coisa de macho. Assim! Irlandeses são muito semelhantes aos gaúchos, na hora de arrumar uma confusão.

Pedi um “irish whisky”, ao que ele serviu com aquele olhar de barman de “saloon”, eu entornei e ele comentou: “bebidinha de maricas…” Pedi mais um caubói daqueles e um “pint” de Guiness, que o dia foi puxado e precisava limpar a garganta antes da briga. Em seguida fui até o fundo do balcão e perguntei ao câmera: “que raios tu tá fazendo com a mulher do irlandês grandalhão?” A resposta veio entre a risada dos demais integrantes da equipe; “ah, Poli, o cara é um babaca e essa mulher precisa de trato”. Nem preciso dizer que ela sorriu e assentiu com a cabeça, como se entendesse o que falávamos.

É uma merda coordenar equipe no exterior. Lembrei de Saint Exupery — tu te tornas responsável pelos teus cativos (tá eu sei que não é bem assim, mas para o momento era o caso). Retornei ao balcão, chamei o troglodita, pedi uma Sambuca Romana com grão de café pegando fogo. O animal serviu, incendiou, olhou pra mim e disse: “agora eu respeitei”. Emborquei aquela droga doce, em chamas, olhei para o elemento e sentenciei o início da consumação da confusão: “cara eu sou gaúcho, que nem aquele que tomou tua guria e isso aqui, na minha terra é bebida de mocinha. Aliás, se tu fosse tão valente quanto tá querendo demonstrar, tua galinha não tava ciscando em outro terreiro”. Dito isso saltei o balcão, porque já tava na hora do pau.

Lá pelas tantas, o Valério, melhor diretor de TV do universo, me puxa da confusão pela manga e diz, vamos cair fora que tenho ingressos para um show do Albert Collins “downtown”. Foi o que bastou, porque a uma hora daquelas, depois de tanto trago, só um bom blues cairia melhor que uma briga.

Zunimos Broadway abaixo, até que chegamos à tal casa noturna onde o espetáculo aconteceria. Em lá chegando, apesar de não possuirmos reservas, ficamos com a mesa do gargarejo.

Mas, o show não começava e a bebedeira foi batendo e eu começando a me irritar. Até que lá pelas tantas um sujeito grandão veio anunciar que Mr. Collins tinha ficado preso em um aeroporto com neve e não tinha conseguido chegar a Manhattan, mas que a banda “tal” estava pronta para ingressar ao palco e animar a platéia mesmo assim.

No dia seguinte, antes de ir até o pub irlandês pedir desculpas ao pessoal pelos exageros da noitada, a galera me censurou dizendo: “tá certo que o músico de ontem não era o Albert Collins, mas tu não precisava ter roncado mais alto que a guitarra dele, até ele parar o show”. Neguei e jurei não ter feito isso, mas todos confirmaram, dizendo que o cara parou o show e exigiu minha saída.

Caminhei até a esquina, entrei no pub, onde só o dono e um outro irlandês de idade pronunciada se encontravam, carregando a monstra culpa em meus ombros. Cheguei pedindo escusas pelos fatos da noite anterior e me ofereci para pagar por qualquer dano, etc. O velho deu uma risada e comentou: “aquele guri precisava mesmo de uma lição. É bom menino, mas não sabe tratar uma mulher. E vocês são ótimos. Onde fica mesmo esse lugar de onde vieram, em que as pessoas bebem tanto quanto nós, são tão temperamentais quanto os irlandeses, gostam tanto de uma briga quanto a gente, mas são muito mais alegres?”

Deu-me um abraço, disse que não tinha despesa nenhuma, pedindo para voltar sempre.

Crédito: Tânia Meinerz

*Marco Poli é jornaista
marcopoli@gmail.co