Pandêmico, por Cláudio Spritzer*

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Depois de uma última olhada lá para baixo, o Criador balança a cabeça, alisa a vasta barba branca, resmunga alguma coisa incompreensível consigo mesmo e ordena:

– Anota aí, Gabriel (entre tossezinhas secas): “Me lembrar, na próxima vez, de fazer os golfinhos à minha semelhança”…

-“… os golfinhos à sua semelhança…” ok, anotado. O Senhor está bem? Precisa de alguma coisa?

– (Ainda tossindo) Não, tá tudo certo…  é só a Terra…  (fazendo uma “bombinha”) sempre que eu vejo aquela esculhambação lá embaixo me ataca a asma… (se acomodando no divã), por favor, pede pro Sigmund dar um pulo aqui. Ah, e me traz um Rivotril.

E assim, entre trancos e barrancos (e fazendo feio pra administração geral), caminha a humanidade. E o duro é que a gente tinha tudo pra arrebentar, ser uma baita civilização, evoluir, progredir, mas olha aí no que deu. Um mundo todo dividido, estressado, polarizado, irado e rancoroso. O sistema imunológico do planeta só podia ficar caído mesmo.

Quando eu era adolescente, lá nos anos setenta, a minha visão de futuro era aquela do “2001, Uma Odisseia no Espaço”. Nós estaríamos ocupados com os grandes enigmas do universo, nossas questões seriam mais filosóficas e sofisticadas. Nem da internet iríamos precisar, seria tudo na base da telepatia.

Doce ilusão…
Cá estamos nós com as velhas encrencas de sempre: acirramentos religiosos, embates raciais, desigualdade social e econômica, fome, analfabetismo, corrupção, sistemas de saúde precários… está tudo ainda aí, a tralha toda. A gente não para de errar! Bom, pra não ir muito longe, até ontem o Renan Calheiros era o presidente do nosso senado.  O Renan, pô! (Nota do Autor: escolha estratégica pra não atiçar nenhum dos lados, hein?).

Segundo a antropologia, a história humana é muito recente, ainda estamos dando nossos primeiros passos como civilização, o que justificaria o castigo quase infantil: não fizeram o dever de aula? Então, vai ficar todo mundo trancado em casa!

Alegorias à parte, a gente já vem se contaminando com porcarias há muito tempo, o vírus foi só um recurso dramático do roteirista. Temos muitas curvas a achatar e o pico da mediocridade já extrapolou em vários segmentos.

Na verdade, acho que temos poucas chances de sairmos dessa sozinhos, vamos precisar de um “mediador externo”. Talvez, se uma civilização mais avançada aí do cosmos viesse nos visitar…? Poderiam nos dar algumas dicas de bons modos, de como lidarmos com as nossas diferenças, de como usufruirmos das riquezas naturais do nosso planeta sem acabar com ele.

Pensando bem, não daria certo. Primeiro que a gente não teria assunto com esse pessoal mais evoluído e segundo que, já imaginou o vexame na hora que o ET saísse do disco voador?

“Leve-me ao seu líder”.
Aí ferrou.

Cláudio Spritzer
é jornalista e publisher do jornal Hienas