Com a cabeça nas nuvens! por Julio Ribeiro*

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Quando eu era guri, lá pelos idos dos anos 70, com muita frequência eu ouvia a expressão “com a cabeça nas nuvens”. Uma variante era “no mundo da Lua”. Isso pra qualificar uma pessoa “avoada”, que não prestava atenção nas coisas, que parecia que não sei o que, como diria o Patropi, aquele personagem da Praça é Nossa!

Os românticos, os poetas, e os abobados da enchente em geral, viviam com a cabeça nas nuvens. Sem contato com a torre. Isso numa época em que não se tinha muita coisa para distrair a atenção. Os programas do Chacrinha, as velhas Sessões da Tarde,  o Robô Gigante e não muito mais era o que  preenchiam nossos dias. Ah, tínhamos, também, o Cyborg, no tempo em que seis milhões de dólares era dinheiro, hoje qualquer laranja da Petrobras vale muito mais que isso.

As sessões de cinema eram coisas para sábado à tarde, as brincadeiras dançantes desafiavam os tímidos como eu, e os campinhos de futebol eram nossos de manhã à noite. Fora isso, não havia muito mais para nos roubar a atenção. E mesmo assim, muitos de nós vivíamos com a cabeça nas nuvens, talvez sonhando com o futuro.

Bem, o futuro chegou. Aliás, já faz um tempinho, pelo menos pra mim. E neste futuro, que hoje é presente e que não demora nada já será um passado distante, também há muita gente com a cabeça nas nuvens. Ou melhor, NA nuvem. In cloud. Tudo o que precisamos saber está na nuvem, basta dar um Google, acessar a Wikipedia, ler online, sem maiores dificuldades. Claro, desde que tenhamos conexão de internet. Mas, considerando que este é um problema já vencido na maioria dos países civilizados, a coisa se torna fácil, amigável e disponível a qualquer hora, onde estivermos.

Mas, será que isso é bom? Será que terceirizarmos nosso cérebro é a melhor opção? Talvez, porque eu seja do tempo dos livros impressos e das enciclopédias, tendo a achar que este é um caminho muito perigoso. Abrimos mão de nosso HD natural e delegamos a algo etéreo, que nem sabemos exatamente como funciona, o nosso suprimento de informação.

Isso, talvez, explique a superficialidade das conversas que ouvimos por ai. Como vamos aprofundar um bate-papo se não temos o nosso próprio depósito de informação? Como falar de James Joyce, ou de Jorge Luiz Borges, de Truffaut ou Marco Ferreri, de Cézanne ou Basquiat, do Fusca ou do Porsche se a cada fala tivermos que recorrer ao smartphone?

A consequência disso tudo é que temos bilhões de informações disponíveis, mas uma cachola vazia, oca como porongo seco. Faça a prova, pergunte a estudantes universitários, de qualquer área, alguma coisa sobre alguns dos grandes nomes das profissões que estão por abraçar, questione sobre este ou aquele personagem histórico, tente conversar a respeito de fatos importantes da humanidade ocorridos nos últimos 50 anos. A grande maioria ficará com cara de Dirceu Borboleta (hehe, essa é pros iniciados), sem saber o que dizer. Isso sim é que é andar com a cabeça nas nuvens!

 

Por Julio Ribeiro