As gaiolas me tornaram um homem livre, por Fabiano Rheinheimer*

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Aos 12 anos, inquieto e consumista, queria tudo que a sociedade impunha como moda nos anos 80. Para pertencer a um grupo, um movimento, uma turma do colégio, era preciso ter a camiseta certa, a mochila correta e o tênis da hora.

Meu pai, com estudo até a quarta serie do primário, aprendeu pouco na escola mas muito na vida. Ao ver que a minha gana não teria fim, me contratou para trabalhar na sua empresa, e sob protestos da minha mãe, lá fui eu.

Meu trabalho? Lixar, tratar e pintar velhas gaiolas de pássaros.

Cada ferrinho tinha que receber um cuidado de restaurador, e vez ou outra meu velho passava, revisava o trabalho, e não raramente mandava que eu refizesse. Tudo tinha que ficar perfeito.

O tempo passou, eu cresci apaixonado pelo trabalho e pela excelência na execução de tudo, com respeito à hierarquia e sem achar feio nenhum oficio honesto.

Ah, as gaiolas! Então…, elas iam todas para o lixo. Não havia serventia alguma para gaiolas velhas, mesmo que bem recuperadas, exceto para moldar o caráter e os valores de um homem e o torná-lo eternamente livre.

Três décadas depois eu aqui estou, me vendo impedido de trabalhar e até mesmo de manifestar livremente a minha opinião.

À minha volta, vejo pessoas que nunca realizaram nada, nunca empreenderam, nunca empregaram, nunca correram risco algum, dizendo o que eu devo ou não fazer da minha vida, da minha empresa e dos meus funcionários. Vejo pessoas honestas e cumpridoras da lei, pais e mães de família, que trabalharam e trabalham arduamente para sustentar a sí e aos seus com dignidade, presas em casas, passando por privações de todas as espécies, enquanto bandidos de toda a ordem, julgados e condenados, estão à solta rindo da nossa cara.

Vejo valores inquestionáveis, que deveriam ser a base de qualquer sociedade minimamente evoluída, sendo destruídos e achincalhados por aqueles que foram escalados para serem nossos protetores e guardiões supremos. Vejo um povo cheio de talento, alegria, virtudes e habilidades, numa terra de riquezas e possibilidades, refém de governantes que os usam como massa de manobra, de fomento de ódio, de ruptura, com o único propósito de alcançar os seus objetivos espúrios e egoístas.

E pensar que tudo poderia ter sido diferente. Eu podia ter crescido ganhando tudo que eu quisesse do meu pai, afinal ele tinha condições para isso. Eu podia ter aprendido que pessoas de sucesso são sortudas e privilegiadas, e que se elas prosperam é porque me exploram. Eu podia ter trabalhado menos, me esforçado menos, ter dormido mais, ter feito muito mais festas e irresponsabilidades. A vida podia ter sido bem mais fácil pra mim, e hoje quando eu visse as conquistas dos outros, o progresso, a evolução, a vida melhor, eu exigiria o mesmo, afinal, seria eu mais um injustiçado, uma vítima da sociedade excludente e opressora, e tudo estaria resolvido. A sociedade teria que me dar o que eu quisesse e achasse meu por “direito”, e ai de quem levantasse a voz para discordar de mim.

Mas agora é tarde, já me tornei um homem livre, honesto, justo e trabalhador. Um homem que entende que suas virtudes estão dentro de si, e sobre si recaem todas as escolhas e responsabilidades, e que são elas que vão determinar o lugar de cada um na história.
Obrigado meu pai!

Fabiano Rheinheimer
é empresário e proprietário do Cafeína & Gasolina