Jingle: o retrato sonoro de uma eleição

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Varre, varre, vassourinha. Varre, varre a bandalheira.” Talvez você fosse muito novo quando ouviu esses versos pela primeira vez ou talvez ainda nem tivesse nascido quando eles foram criados, ainda assim, é muito provável que essa seja a melhor referência que você tem de um jingle político. Quase 60 anos se passaram desde que ele foi usado pela campanha de Jânio Quadros à presidência, em 1960.

O tema, corrupção, continua atual e é amplamente explorado pelos políticos em seus discursos até hoje. Mas não é isso – ou não é somente isso – que justifica a resistência da vassourinha de Jânio ao longo do tempo. Saber com quem se comunicar e como fazer isso por meio de uma canção, que deve colar na cabeça do eleitor feito um chiclete, é o que faz com que um jingle se destaque em relação aos demais.

A vassourinha virou febre, rendendo broches, selos e até LPs, hoje, relíquias vendidas no Mercado Livre. “É um ícone”, destaca Carlos Manhanelli, autor do livro “Jingles Eleitorais e Marketing Político – Uma Dupla do Barulho”. A verdade é que o jingle só se tornou sucesso por uma razão: ele agradou o eleitorado e esse é um aspecto imprevisível. “Você nunca sabe se fará sucesso ou não”, comenta.

O jingle, mais do que uma peça publicitária, é um registro histórico. No Brasil, ela começa em 1929, durante a campanha de Júlio Prestes à presidência. “Eu ouço falar que, para nosso bem, Jesus já designou que seu Julinho é quem vem.”

Nem todo jingle entra para a história. Esse espaço é reservado para aqueles que cativaram eleitores a ponto de marcarem o período. Em 1950, Getúlio Vargas fez sucesso com a marchinha que dizia “Bota o retrato do velho, outra vez, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar.”

Juscelino teve um jingle militar que não pegou, conta Manhanelli. “Depois veio a febre janista.” Seguiram-se os anos da ditadura. Em 1989, surgiram vários jingles que marcariam história, como o “Lula lá”, “Lá, lá, lá, Brizola”, “Dois patinhos na lagoa, vote Afif 22”, entre outros.

Qual é o grande jingle desta eleição? E na anterior, qual foi? É difícil pensar em outro que não seja o “ey, ey, Eymael, um democrata cristão”. Só que este foi criado em 1985 e também já se transformou em um ícone. No período recente, tem sido difícil cair no gosto dos eleitores. E isso nada tem a ver com os meios usados para propagá-los, pontua Manhanelli.

“O jingle é uma peça publicitária multiuso, tem uma vasta utilização. A cada ferramenta nova, ele se adapta.” Na verdade, hoje há mais opções de divulgação: rádio, televisão, redes sociais, comício ou carro de som. O que está acontecendo, então? “O tempo está passando e a qualidade dos jingles está caindo absurdamente”, avalia.

As criações estão amadoras, aponta o especialista. Nesta eleição, por exemplo, só um dos candidatos à presidência criou um jingle em que o número da legenda é informado. Esse não é um mero detalhe. Basta observar as distorções que se propagam nas redes sociais, em que perfis apoiadores de um determinado candidato vinculam seu número à imagem de outro.

O problema da qualidade pode ser um reflexo das restrições aos gastos eleitorais. “A campanha eleitoral é uma campanha publicitária”, frisa Manhanelli. O investimento em serviços prestados por agências, com pessoal de criação, definição de estratégias e planejamento adequados, tem perdido espaço para soluções mais simples.

Em relação às músicas das campanhas, há um fenômeno interessante a observar: o surgimento de sites que vendem jingles. Ao digitar “jingles políticos” no Google, os primeiros resultados são anúncios desse tipo de serviço, que passam longe do que se espera de uma campanha publicitária séria.  “É a vulgarização de uma peça publicitária”, sintetiza Manhanelli. Nesse cenário, os jingles têm prazo de validade determinado: é o tempo exato da campanha eleitoral.

É fato que um jingle não é suficiente para vencer uma eleição. Se fosse assim, (Ey, Ey) Eymael já seria presidente. A função do jingle nesse processo é fazer com que o candidato seja conhecido. Ele abre caminho para que se conquiste, de vez, o eleitor, mas isso vai depender de outros fatores, como as propostas de governo e a postura do candidato.

Eleitores de Jânio com as Vassouras