Jefferson Jaques: “O eleitor não quer revoluções, ele quer ordem para poder tocar sua vida”

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Uma eleição completamente diferente de tudo o que já vivemos. Essa é a definição da disputa eleitoral de 2018 para Jefferson Jaques, 53 anos, diretor do Instituto Methodus, principal referência para pesquisas na região Sul do Brasil. Administrador pela Ufrgs, especialista em Gestão Pública e pós-graduado em Marketing pela ESPM, Jacques é sócio da empresa há 17 anos.

De acordo com o especialista, a eleição de 2018 marca a desilusão da população com as forças políticas tradicionais, além de evidenciar a força das novas mídias para o convencimento do eleitor. Além disso, comenta que a indefinição do eleitorado até os últimos dias antes de 7 de outubro acabou criando movimentos em torno de alguns candidatos que não foram sentidos pelas pesquisas. Nesta entrevista, Jacques também comenta os resultados do primeiro turno das urnas e critica a atual legislação sobre pesquisas eleitorais, entre outros temas abordados.

As pesquisas, especialmente Datafolha e Ibope, erraram além da margem do erro e além da margem da paciência do eleitor. Muitos eleitores já não confiam em pesquisas. Os métodos envelheceram? O eleitor está mais difícil de ser captado, de ser percebida a sua intenção? O que aconteceu?
Bom, eu diferencio muito o Ibope do Datafolha. Como a gente entende da técnica, a gente acredita sempre muito mais nos números do Datafolha. Para nós, eles são muito mais concretos, têm muito mais tecnicidade…

Mas mesmo assim erram frequentemente… eles erraram a boca de urna na última eleição.
É que boca de urna é um negócio muito complexo de fazer. A gente não faz mais, primeiro porque não tem quem pague, ninguém contrata, dá muito trabalho e é um negócio muito volátil. Por exemplo, para ter o resultado às 17h, 18h, tu tem que coletar isso até 13h. Mas existe um perfil muito diferente de quem vota de manhã e quem vota de tarde. Eu fui votar às 10h e só tinha velhinhos, não tinha gurizada nenhuma. Se tu pegares o perfil do cara de até 35 anos e o perfil do voto de 50 pra cima, são perfis de eleitorado diferente.

Mas por que erraram tanto nas outras pesquisas?
Não posso falar das outras empresas, mas essa eleição foi atípica, em termos de coisas que sempre funcionaram perfeitamente em outras eleições não tiveram o menor êxito neste ano, como tempo de TV, currículo… A gente teve muitos fenômenos. Um deles, que está se acelerando já há dois pleitos e neste foi mais forte ainda é a influência das igrejas dentro do perfil eleitoral. A quantidade de pessoas que estão sendo eleitas por igrejas vem aumentando ao longo das eleições.

Dilma Rousseff aparecia em primeiro lugar em Minas Gerais na sexta-feira antes da votação no Datafolha e Ibope.  José Fogaça aqui também aparecia eleito na sexta-feira.
Na que nós divulgamos na quinta-feira de manhã na Band, eu disse “o Luiz Carlos Heinze há uma semana aparecia com 9%, nesta está aparecendo com 14,5%. O Heinze vai crescer e deve pegar no mínimo a segunda vaga.” Então algumas foram captadas, outras realmente não. Quando tu olhas paro nosso trabalho com a Bandeirantes no primeiro turno, tu enxergas o José Ivo Sartori sempre com o mesmo resultado para o governo do Estado, 20% a 23%. A campanha do Sartori não produziu um crescimento de votos válidos. Isso sempre aparecia, junto com pequenos crescimentos do Eduardo Leite. Jairo Jorge parado no mesmo lugar desde que começou a eleição e o Miguel Rossetto também no mesmo lugar, então não há uma movimentação. Qual é o fenômeno que tem neste eleitor, que a gente vem observando pela segunda eleição consecutiva, terceira, se considerar as municipais? O eleitor fica represado na sua indecisão. Quando tu começas um processo de pesquisa que nem esse, tu tens lá: 70% dos eleitores dizem que não sabem em quem votar, em março. Quando tu chegas em outubro, essa quantidade de indecisos da menção espontânea fica praticamente igual à da estimulada. Tecnicamente falando é isso, ela vem se igualando, esse voto vai ficando cristalizado na cabeça do eleitor. O que a gente tem visto há duas eleições estaduais ou nacionais: o número de indecisos permanece muito alto até muito próximo da eleição.

Como jornalista, vejo a rua. E eu, pessoalmente, já tinha identificado, um mês atrás, quando o Heinze disse “eu vou apoiar o Bolsonaro”, ali ele começou a crescer. As pessoas diziam “é Heinze e Carmen Flores”. Tanto que a Carmen Flores passou o Fogaça.
Mas o Senado era a maior dúvida do eleitor. As pessoas não sabiam, principalmente o segundo voto, não tinham a menor ideia em quem iam votar porque não conheciam os candidatos. O Senado era uma grande indefinição. A gente fez pesquisas municipais também. O que a gente enxergava? No interior, dependendo de onde fosse, o Heinze na frente e, dependendo de onde fosse, o Heinze atrás. Então tu enxergavas que no interior, em determinadas cidades existia um crescimento que não era captado pela coleta.

Mas o método usado pelas pesquisas não é falho?
O é que existe uma técnica. A estatística é uma ciência e, se tu não respeitares a técnica, estarás desviando do resultado, tu perdes a margem de erro. Pesquisa é perguntar para as pessoas. Tu tens que ter uma aleatoriedade, senão tu estás desviando. Se eu começo a escolher as pessoas, aí distorce. Tem que ter aleatoriedade. Se eu parar aqui na esquina da Getúlio Vargas com a Ipiranga e entrevistar, de cada cinco pessoas que passarem eu atacar uma, eu vou ter essa aleatoriedade. Só que eu posso pegar cinco colorados, cinco gremistas… Tu podes ter um desvio aleatório, e em algumas pesquisas isso acontece. E é bom lembrar que a pesquisa quantitativa fica engessada legalmente no processo eleitoral.

De que forma?
Tu não podes um monte de coisa. Eles exigem uma série de regras, das quais não posso fugir. Então, ao ter que responder a essas regras que o TSE impõe aos institutos, tu ficas engessado. Por exemplo, se eu for registrar uma pesquisa, eu tenho que ir lá no Tribunal e colocar que tal empresa está me contratando, o valor que foi contratado, e a nota fiscal tem que ser anexada. Além disso, eu, como sócio do instituto, se participo de um programa de TV ou rádio, não posso emitir a minha opinião sobre quem eu acho que está crescendo ou não, porque vão dizer que eu estou puxando voto para um lado ou pro outro.

Não tem como fazer uma análise aprofundada da coisa…
É, eu não posso fazer, porque vão dizer que eu estou puxando voto para um ou outro. Só que a gente está enxergando um monte de coisas pelas pesquisas qualitativas, que são realizadas – e nessa eleição a gente fez no Brasil inteiro. Nós fizemos pesquisas em Roraima, no Amazonas, no Acre, no Tocantins, em Alagoas, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina… todos grupos qualitativos.

E como foram montados esses grupos?
Com eleitores aleatórios. É que depende da contratação. Em cada estado tinha algum interessado, algum partido. Então, a gente pegava quatro indecisos, que não sabiam em quem iam votar, três que iam votar a favor do candidato e três que iam votar contra o candidato. Então tu tens um balanço. Mas era para governo estadual, então não tinha nada a ver com eleição presidencial. Nós sentávamos com os entrevistados e perguntávamos: “o que vocês acham do Senado? O que acham do momento atual do Brasil?” As respostas eram: “ah, um horror, uma desgraça, o Michel Temer é horrível, só tira direito dos trabalhadores, só governa para os poderosos”, etc. “Na eleição nacional, quem são os candidatos que vocês ouviram falar que vão concorrer?” Dez dias antes das eleições, qual era o primeiro que todos falavam? Bolsonaro. “Quem mais?” O Lula, não era nem o Haddad, era o Lula.  “Tem aquele lá de São Paulo”, não sabia nem o nome do Geraldo Alckmin, alguns falavam a Marina Silva, uns o Ciro Gomes, outros nem sabiam que existia. Em Alagoas, de cada 10 entrevistados, apenas um conhecia o Ciro Gomes, ele é do Nordeste! “Agora vamos falar de cada um deles, pela ordem que vocês me deram”, eu anotava ali. “O que vocês acham do Bolsonaro?” Todo mundo sabia tudo do Bolsonaro.

Contra e a favor?
Mais a favor do que contra. “O que vocês acham do Bolsonaro?” As frases que vinham do Acre, Alagoas ao Paraná eram exatamente as mesmas. “Mas como é que vocês se informam sobre isso que estão falando?” Redes sociais. Então o Bolsonaro fez um trabalho ímpar nas redes sociais. O eleitor que defende ele no Acre, lá em Cruzeiro do Sul, fronteira com o Peru, no Acre, dizia as mesmas frases que aqui em Porto Alegre. Ele fez um trabalho que ninguém nunca fez na história desse País…

Quais foram as frases mais frequentes?
“Vai acabar com a bandidagem.” “Alguém precisa botar ordem na casa”. Alguns diziam assim: “ele não é meu candidato ideal, mas ele é o ideal pra esse momento do Brasil”. Isso é o que mais vem. E “acabar com o PT, só ele pode acabar com o PT”, ou “Botar ordem, porque o País tá virado de cabeça para baixo e ninguém aguenta mais”. E outra, a violência hoje é o maior problema do Brasil, o maior problema de cada estado, porque as facções se organizaram dois, três anos atrás e a gente fazendo pesquisa, e começou a aparecer coisas que não apareciam, todos falando “facção, facção”. “Mas o que é facção?” “Os caras vieram do Rio e São Paulo, tinha uns bandidinhos chinelo, eles mataram todo mundo e agora virou uma guerra de facção, eles matam uns aos outros, cortam cabeça, braço”. Isso acontece no Brasil inteiro, botaram na praça central de Rio Branco, lá no Acre, cabeça, braços, pendurados, como mensagem, coisas assim. Então, hoje o maior medo do eleitor é a segurança. Quem é o único candidato que bate na tecla da segurança?

E como é o perfil do eleitor brasileiro que vocês encontraram nas pesquisas?
A gente tenta ir nos grotões do Brasil, em estados diferentes. Tem duas frases pra mim que são pérolas, dadas por eleitores de classe C e Ensino Fundamental. Uma delas foi dita por um senhor lá em Cruzeiro do Sul, no Acre, basicamente assim: “Somos reféns da nossa ignorância, nós não entendemos o que ele está perguntando”. E olha que eram coisas básicas: “Me deem uma qualidade”. As pessoas não sabem o que é uma qualidade. Tem outra frase que também foi sensacional, dita por uma dona de casa: “o senhor tem que entender que no Brasil não existe essa coisa da população participar. A gente é telespectador. Quanto mais a gente puder assistir, melhor.” Eu penso que é revelador o que a gente conseguiu e o que a gente aprende nesse processo eleitoral. E quando tu criticas a pesquisa eleitoral, tua crítica tá correta. Ela é engessada, ela é atrasada, ela é demorada, ela leva tempo, a gente leva cinco dias para fazer uma pesquisa. Por mais que os institutos digam por aí que fez em dois dias a pesquisa, não fez. Demora mais. Pensa em colocar gente na rua pesquisando nesse Brasil inteiro, não tem gente suficiente para fazer esse trabalho. A pesquisa não é imediata. Tu não coleta mil, duas mil, três mil entrevistas em 24 horas. É tecnicamente muito complicado e muito caro, ninguém paga por isso. Se tu disseres “eu quero que tu faças todas as entrevistas no sábado e me entregues no domingo”, imagina o exército de pesquisadores que eu tenho que ter pra coletar em 30 cidades do Rio Grande do Sul.

E uma repulsa à pesquisa? Porque a gente vê muita coisa na internet de gente dizendo que não acredita em pesquisa, que as pesquisas são manipuladas..
Não, é uma rejeição ao assunto da pesquisa. As pessoas não diziam “eu não quero ser entrevistado”, elas perguntavam sobre o que era a pesquisa. Então se fosse sobre o Grêmio, o Inter, quantos sapatos compra por ano, a pessoa daria a entrevista. Então o problema não é a pesquisa, o problema é o assunto. Todo mundo está “de saco cheio” de política. Os pesquisadores disseram que está mais lento fazer as pesquisas, porque tem muita rejeição.

Mas a eleição não mostrou isso, porque a abstenção desta é parecidíssima com as anteriores.
Mas é que veio fechando no final. Não é um assunto que o eleitor queira discutir, queira dar minha opinião. Só que no final, o eleitor fez uma espécie de plebiscito, entre “eu sou a favor de tudo que está aí” ou eu sou contra.

O foco do eleitor neste ano ficou só com a disputa presidencial?
Sim, e isso explica porque a gente encontra, nas vésperas da eleição, para governo do Estado, 40% de eleitores que não sabem dizer em quem vão votar, espontaneamente. Todo mundo só olhava para Bolsonaro e PT. O assunto era eleição presidencial. Depois pensava em governador, Senado, deputados… Nos grupos qualitativos, em determinado momento, quando a gente discutia o estado atual do País, todos criticavam o Michel Temer. “Quem vocês acham que detém o poder em Brasília? O presidente da República ou o Congresso Nacional?” Daí diziam que era o Congresso, de nove entre 10 respostas. “Vocês tem candidato a deputado federal?” Ninguém tinha nada. Então eles sabem que é o Congresso que manda, mas eles não dão a menor importância.

Sobre a volatilidade da cabeça do eleitorado, há como aperfeiçoar as pesquisas para pegar melhor esse quadro?
Do jeito que elas estão determinadas pelo Tribunal Eleitoral, não tem como para captar. Se eu pudesse divulgar uma pesquisa eleitoral só da Classe C, eu te daria um resultado diferente do que a gente encontrou, mas a lei não me permite isso. Eu tenho que falar com o que é o espelho da sociedade pelos meios formais. Tribunal Eleitoral e IBGE. Mas se eu quero divulgar uma pesquisa só com as mulheres do Rio Grande do Sul, Classe C, D e E, eu não posso fazer. Se eu registrar ela, vai alguém tentar impugnar. Por quê? Porque eu tô fora do padrão estatístico da demografia, não sei o que… Qual é o problema de eu dizer o que as mulheres acham, o que os jovens acham? Eu deveria poder fazer isso. Só que é tão amarrado, tinha que desmanchar tudo. Faz pesquisa do jeito que quiser, como quiser e acredite no A, no B e no C quem quiser.

O que achas das críticas que dizem que as pesquisas acabam influenciando eleição?
Já foi fruto de estudo nosso. A gente já fez uma pesquisa sobre isso com as pessoas, e 9% disseram “sim, se o meu candidato não estiver bem eu troco meu voto”. Talvez o número seja maior, mas só 9% admitiram. Os outros disseram “não, eu não vou deixar de votar no meu candidato porque ele está mal”.

O fenômeno Bolsonaro, tem similar, em termos de tamanho, de movimentação e de resultados com a primeira eleição vencida pelo Lula? Porque o Lula também fez muitos governadores, senadores…
Eram momentos bem diferentes. Acho que o momento é ímpar, ele não se compara ao Lula, que se lançou tantas vezes, não tem a história política do Lula, não tem as posições políticas, o trabalho que o Lula tinha…

Também não teve TV…
Teve só sete segundos de TV. Ele fez um trabalho especificamente nas redes sociais. E é interessantíssimo esse negócio do cara do Norte, do Nordeste, do Sul elogiar o Bolsonaro com a mesma frase.

Se não houvesse a facada, ele teria tido o mesmo desempenho?
Acredito que sim, não alterou muito. Acho que a facada ferrou foi com seus oponentes, que não sabiam o que fazer com ele. Tiraram os anúncios contra, meio que esvaziou o outro lado. Quem era Bolsonaro não abandonou ele com a facada, obviamente. E o eleitorado dele começou a se definir não neste ano, mas muito antes. O Bolsonaro rompe com uma lógica dos caciques dos partidos. “Ele” é o candidato dele mesmo, não de um partido. Tanto que ele mudou de partido enquanto se colocava como candidato. A gente descia lá em Cruzeiro do Sul, no Acre, pegava um táxi para ir para a cidade. Há um ano antes da eleição, no meio do caminho, tinha um outdoor. Não tinha um outdoor do partido, da campanha. Era um outdoor do Bolsonaro, dele, como figura. Então ele rompe com essa lógica, ele não constrói a candidatura no ano da eleição, ele constrói antes. Ele se posiciona dentro de um campo que ninguém se posicionou. Ele vem falando uma linguagem que parece tosca, mas é a linguagem que o brasileiro entende.

Que rescaldo que fica desse primeiro turno? Como se explica que a Marina tenha feito 20 milhões de votos na última eleição e nessa fez 1%?
Esses 20 milhões de votos não eram da Marina, eles eram um movimento ideológico. O eleitor, em 2014, estava despejando o voto em cima de uma candidata que poderia tirá-lo de uma sinuca de bico entre escolher a Dilma e o Aécio Neves. O Ciro Gomes, com 13 milhões de votos, foi quase uma Marina. Quem não queria nem a Dilma nem o Aécio deu o voto pra Marina. Neste ano, o Ciro era essa terceira via, mas difícil de engolir para muitos também. O eleitor ficou numa sinuca.

E o PSDB entrou chão adentro?
Acho que o PSDB paga o preço pela sua falta de identidade.

E pela corrupção também?
Inegavelmente, o MDB, PSDB, o PT, todos pagam o preço da corrupção. O PSDB mais, porque não tem mais identidade.

Além do Bolsonaro, temos  outros dois exemplos da influência das redes sociais. O quinto lugar foi o Amoêdo, que não participou dos debates, tinha 8 segundos na TV e fez toda a campanha através de novas mídias. E no sexto lugar, ficando na frente de Marina e de Henrique Meirelles, tivemos o cabo Daciolo, que na verdade é um cara que mobilizou por virar meme.
O Daciolo chegou onde chegou pela TV, ninguém sabia quem era até que apareceu naquele debate. É um voto meio religioso, porque ele defendia muito essa coisa do “glória a Deus”, mas eu acho que muitas pessoas votaram nele porque ele dizia algumas verdades, ele era o único que dizia grandes verdades, fazia perguntas bem. Mas foi, principalmente, um fenômeno da TV. Se o Daciolo não tivesse sido convidado para o debate, não aconteceria. Já o Amoedo é uma ideia. Muitas pessoas que eu conheço votaram nele, porque é liberal. Olha o Marcel van Hattem, fez mais votos no Rio Grande do Sul do que o Amoêdo. Ele foi desidratado pelo voto útil no Bolsonaro. Várias pessoas diziam assim “Amoêdo é legal, mas não é pra agora, é pra daqui a 4 anos”. Mas, se o Amoêdo tivesse iniciado a sua campanha dois anos atrás… ele abre mão de uma série de premissas. No ano passado, assim como no Acre, que citei antes, a gente fazia pesquisas em Santa Catarina, e tu andavas de carro entre uma cidade e outra, estava lá o outdoor, bandeira do Brasil e uma foto do Bolsonaro. Ordem e Progresso. Ele está com 65% dos votos em Santa Catarina.

O eleitorado endireitou?
O eleitor não quer esquerda ou direita. Ele quer ordem.

Mas é a bandeira da direita.
Só que o eleitor nem sabe o que é a bandeira de um ou outro, ele quer organizar a casa.

O que fica de aprendizado dessa eleição?
Eu acho que essa é uma eleição em um momento de ebulição e de efervescência da sociedade brasileira, que enxergou que é preciso dar um basta, que ela não concorda com o jeito com que o Brasil vem sendo tocado. Mas, hoje não existe um centro, existe ou a esquerda ou o Bolsonaro. Então ela está migrando porque quer ordem, o eleitor não gosta de revoluções, nem para um lado nem para o outro. O que o eleitor sempre nos diz? “Queremos segurança para tocar a nossa vida”. E hoje está tudo virado de cabeça para baixo, as pessoas querem estabilidade. Quem está prometendo o retorno dos valores tradicionais? Dar ordem e progresso, que é uma coisa da bandeira, mas é uma coisa que as pessoas tão pedindo “pelo amor de Deus, eu quero poder ir buscar o meu filho na escola e não ser assaltado, porque eu sou assaltado indo para lá”. No Rio de Janeiro tu começas a observar que as pessoas vivem uma vida completamente deturpada, maluca, que é quando dizem o seguinte: “essa semana teve toque de recolher lá no meu bairro. Daí meu filho teve que sair mais cedo da escola, eu tive que avisar no trabalho que eu ia sair porque eu tinha que pegar o ônibus, que eu levo duas horas e se eu não entrasse no meu bairro às 19h eu não entrava mais.” E isto é normal. Se tem alguém que diz a essa pessoa que vai acabar com essa situação nem que seja a bala, ela dá atenção imediatamente, não precisa prometer mais nada para ele, já conquistou esse cara. Tem um bairro em Rio Branco, no Acre, que se chama Calafate, é o bairro mais violento. Lá os caras ficam de metralhadora nas esquinas das ruas. Uma mulher, em um grupo, me disse assim “no meu bairro eu tenho que chegar antes das 18h, senão eu não entro. Às 18h começa o toque de recolher lá no Calafate.” Daí eu pergunto: mas se tu tens uma festa, um aniversário, tens que ir num evento? “Não, não vai. A polícia nem entra lá no bairro de noite, porque sabe que os caras vão abrir tiro de metralhadora neles”. Uma comunidade que vive num estado assim, é um absurdo.

E daí chega um militar dizendo que vai resolver esse troço…
O cara tá dizendo o seguinte: “eu vou mandar bala nos caras”, e o sonho das pessoas é a pena de morte. “Estuprador, assassino, traficante, tem que matar tudo, porque eu quero uma solução, eu quero viver a minha vida, eu não consigo viver.” Isso não aparece numa pesquisa jamais. Então tem um cara que levanta uma bandeira e diz “eu vou salvar vocês, mesmo que seja matando”, para esse público. E Eles sabem que o PT ficou 14 anos no poder e que a criminalidade não diminuiu, ela aumentou.O que eu acho que tem de aprendizado aí é essa desconexão da classe política com o que é a realidade que a população vive. O Lula, que fazia esse diálogo com a população com muita propriedade, foi ejetado para fora do processo, os demais seguiram as regras do jogo tradicionais e o único cara que desceu os degraus e foi falar com a base foi o Bolsonaro, e vem fazendo há muito tempo.