Hipólito José da Costa – O pai da imprensa brasileira

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O dia 1 de junho de 1808 é um marco para a imprensa brasileira. Nesta data, há 210 anos, começou a circular o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense. Impresso em Londres, para fugir à censura imposta pela Coroa Portuguesa, que proibia tipografias no Brasil, o veículo foi fruto do trabalho de um dos mais ativos intelectuais brasileiros da época: o diplomata Hipólito José da Costa, patrono da imprensa nacional.

Nascido em 13 de agosto de 1774, na Colônia do Sacramento, hoje Uruguai, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça era filho do alferes de ordenanças Félix da Costa Furtado de Mendonça e Ana Josefa Pereira. A cidade em que nasceu, às margens do Rio da Prata, defronte a Buenos Aires, foi uma zona de tensão, pertencendo, durante muito tempo, ora a Portugal, ora a Espanha. Em 1777, três anos após o nascimento de Hipólito, era assinado o Tratado de Santo Ildefonso, pelo qual os portugueses tiveram que abandonar em definitivo aquela região. A família de Hipólito mudou-se, juntamente com outros retirantes, para a região de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Mais tarde, ele viveria também em Porto Alegre.

Aos 19 anos, Hipólito matriculou-se na Universidade de Coimbra, em Portugal, vindo a graduar-se em Direito, Filosofia e Matemática, em 1798. Seu talento chamou a atenção do então Secretário dos Negócios do Ultramar, Rodrigo de Souza Coutinho. Logo após formar-se, aos 24 anos, ele foi enviado para os recém independentes Estados Unidos da América como servidor do reino de Portugal. Sua missão tinha caráter econômico e científico. Ele deveria obter informações sobre as culturas e as técnicas de cultivo agrícolas, especialmente do tabaco e do linho cânhamo, observar instrumentos e técnicas de manufatura, bem como obter sementes e mudas de espécimes vegetais americanos para serem aclimatadas nas colônias portuguesas. Entre estas, a cultura da planta mais propícia para a criação do inseto cochonilha, muito requisitado na Europa como matéria prima para fabricação de tintas.

Londres, 1808

Hipólito partiu de Lisboa em 1798 e, durante cerca de dois anos, viajou pelos Estados Unidos, de norte a sul, percorrendo vários estados e chegando até o México. O diário de suas viagens, publicado apenas em 1955 sob o nome de Diário de Viagem à Filadélfia, revela seu olhar sobre a sociedade norte-americana. Descreveu as cidades por onde passou e os hábitos e costumes de seus habitantes, transitou pelos círculos diplomáticos e frequentou vários eventos sócio-culturais, visitou presídios e universidades e manteve contato com estudiosos das ciências naturais. Um grande surto de febre amarela, ocorrido na região de Washington, alertou Hipólito para as causas da doença e as condições sanitárias da cidade. Também ficou muito interessado pelo funcionamento das instituições democráticas dos Estados Unidos.

Philadelphia, 1798

Durante sua estada na América do Norte, as numerosas lojas maçônicas chamaram sua atenção e ele acabou por filiar-se à maçonaria na Filadélfia, o que marcaria muito sua vida. Voltando a Portugal, Hipólito passou a integrar o grupo de brasileiros que trabalhava na Tipografia do Arco do Cego, onde realizou trabalhos de tradução. Quando o Arco do Cego foi extinto e seu acervo integrado à Imprensa Régia, Hipólito foi nomeado membro da Junta que passou a gerir a instituição.

Em 1802, Rodrigo de Souza enviou Hipólito a Londres a fim de adquirir livros para a Biblioteca Pública e maquinário para a Imprensa Régia. Na Inglaterra, ele acabaria por envolver-se com as lojas maçônicas inglesas, junto às quais procurava obter proteção para suas congêneres portuguesas. As notícias das atividades de Hipólito junto à maçonaria inglesa logo chegaram a Portugal, onde a maçonaria era criminalizada. Embora avisado de que seria preso ao colocar os pés em Lisboa, Hipólito voltou. Foi encarcerado e respondeu a processo junto ao tribunal da Inquisição. Acabou por fugir da prisão em 1805, voltando à Inglaterra, onde passaria o resto da vida. Lá, viveria sob a proteção do príncipe Augusto Frederico, duque de Sussex, o sexto filho de Jorge III do Reino Unido e grão-mestre da maçonaria inglesa, que lhe conseguiu a concessão da cidadania inglesa através da aquisição de ações do Banco da Escócia – o que lhe outorgava tal direito.

Nos primeiros três anos em Londres, Hipólito deu aulas de português, fez algumas traduções e colaborou com autores ingleses na edição de uma História de Portugal. Entre as traduções, destacam-se as versões em português dos trabalhos dos cientistas e naturalistas Benjamin Thompson e Benjamin Smith Barton. Em 1817, casou-se com a inglesa Mary Ann Troughton, com quem teve 3 filhos, além de já ter tido um filho com Mary Anne Lyons ou Symons.

Enquanto estava no exílio, Portugal e o resto da Europa passava pelo turbilhão das guerras napoleônicas. Em 1807, Napoleão Bonaparte ordena a invasão de Portugal. Para não ser pego pelas tropas francesas, Dom João VI – que então ainda não era rei, mas príncipe regente – e toda a corte portuguesa fogem para o Brasil, onde instalam o governo dos territórios portugueses no Rio de Janeiro. A fim de informar seus compatriotas dos acontecimentos europeus, e contribuir para o desenvolvimento do Brasil, que se tornava sede do reino, Hipólito decide criar um jornal. Impresso em Londres, com circulação mensal, o Correio Braziliense seria o único jornal privado a circular no Brasil durante o período da Colônia, devido à censura e à falta de tipografias no País. A Coroa Portuguesa chegaria a criar, em setembro de 1808, a Gazeta do Rio de Janeiro, mas ela funcionava como um Diário Oficial da corte.

O Correio Braziliense era um jornal moderno e liberal para os padrões da época. Porém, era essencialmente opinativo, de argumentação, doutrinário. Poucas eram as notícias e notas estritamente dentro do conceito de jornalismo informativo. Hipólito foi crítico da administração do governo português. Censurava a inércia dos ministros e a corrupção, mas sempre procurou poupar a figura do soberano.

O público do Correio era restrito, cerca de 500 assinantes. O jornal tinha o formato de um livro, com cerca de 100 páginas. Hipólito defendia a liberdade de imprensa, segundo o modelo liberal inglês. Difundia os avanços da ciência e novas ideias culturais e artísticas. Brasileiros e portugueses podiam acompanhar pelo Correio fatos internacionais, tomar conhecimento de teorias iluministas e de novos conceitos de economia. O fim da Inquisição, da escravatura e da censura eram defendidos por Hipólito da Costa. O jornal também publicava as cotações dos produtos brasileiros na bolsa de valores de Londres e por isso era essencial para o comércio da época.

O desconforto causado à Coroa Portuguesa pela publicação do periódico fez com o que o governo português patrocinasse, à época, também em Londres, a publicação de periódicos em português contrários a Hipólito da Costa, a fim de diminuir sua influência. O mais duradouro foi O Investigador Portuguez em Inglaterra. Posteriormente, a partir de 1813, a Coroa viria a pagar mil libras esterlinas por ano (equivalentes a 500 assinaturas) a Hipólito, por meio de um amigo seu, Heliodoro Jacinto de Araújo Carneiro, o que teria abrandado o tom das críticas do jornalista.

A circulação do Correio Braziliense foi encerrada por Hipólito em dezembro de 1822, após a Independência, visto que já não fazia sentido editar um jornal no exterior com o país independente.Durante sua existência, foram produzidas 175 edições do jornal.

Hipólito José da Costa faleceu em 11 de setembro de 1823, em Londres, sem saber que havia sido nomeado Cônsul do Brasil na Inglaterra pelo imperador Dom Pedro I. Em 2001 seus restos mortais foram trasladados para Brasília, onde estão depositados nos jardins do Museu da Imprensa Nacional. Desde o ano de 2000, o Dia Nacional da Imprensa no Brasil é comemorado em 1 de junho, quando foi publicado pela primeira vez o Correio Braziliense.