Gedeão Pereira – “Precisamos ser a China do agronegócio”

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Desde janeiro, quando assumiu a presidência do Sistema Farsul após o falecimento de Carlos Sperotto, o produtor rural Gedeão Pereira mudou completamente sua rotina. As viagens à sede da entidade, em Porto Alegre, ficaram mais frequentes para o médico veterinário de 68 anos – ele mora no interior de Bagé, em sua propriedade próxima da fronteira com o Uruguai. De integrante da oposição na primeira eleição de Sperotto para o comando da Farsul, há 20 anos, Pereira virou homem de confiança e grande amigo do ex-presidente. Cabe a Pereira, agora, completar o mandato de Sperotto até o fim deste ano. Na entrevista, ele comenta a proximidade entre ambos, sua gestão na Farsul e os desafios do agronegócio brasileiro e gaúcho, afirmando que o Brasil precisa ser a China do agronegócio.

O senhor assumiu a presidência da Farsul em janeiro, tendo o desafio de suceder a Carlos Sperotto, que comandou a entidade por 20 anos. Como está sendo isso?
Bem corrido, de início. Mas, minha trajetória aqui acompanha a do Sperotto. Eu vinha de vice-presidente da casa há três mandatos. Ultimamente, como primeiro vice. O presidente Sperotto não abria mão da minha presença. A origem da minha história na Farsul era de oposição a ele. Na sua primeira eleição eu era um dos vices da chapa de oposição. Ele me trouxe para cuidar da comissão fundiária da federação, depois fui para diretor da casa. Após, virei segundo-vice e, então, vice-presidente. Isso no período de 20 anos, o tempo que ele esteve aqui na presidência.

De opositor a colaborador?
Desde o primeiro ano de mandato do Sperotto, passei a integrar a gestão. Assumi a comissão de assuntos fundiários, uma das mais difíceis da Farsul. Isso bem no auge da reforma agrária, das lutas fundiárias. Antes disso, na gestão do Hugo Paz aqui em Porto Alegre, eu presidia o Sindicato Rural de Quando terminou a eleição, abracei o Sperotto e disse: ‘meu sindicato te apoia incondicionalmente, a Farsul é maior do que nós.’ Aí ele me convidou para a comissão. Passei a privar mais da convivência com ele porque foi uma época muito conturbada da nossa história. Como tínhamos que viajar constantemente a Brasília para conversar com o ministro da Reforma Agrária, que era o Raul Jungmann, eu tinha mais intimidade com o Sperotto do que muitos outros membros da diretoria.

Essa amizade iria se consolidar ao longo de duas décadas
Sim, tanto que, nas penúltimas três eleições, ele chegou a me convidar para assumir a Farsul em seu lugar. Eu nunca quis, porque sempre achei que o Sperotto era um grande líder, além de ter sido um grande amigo. Então, vamos dizer, nós concordávamos internamente para que ele continuasse presidente. Inclusive, na última gestão, nós reunimos a diretoria e informamos que ele seria nosso presidente novamente: “O senhor tem o nosso apoio. Vamos seguir nessa jornada”. Então, tínhamos, entre aspas, culpa pelos 20 anos de gestão do Sperotto. Fomos parceiros dele neste período de presidência. Infelizmente, aconteceu o inesperado, um problema muito sério de saúde que terminou levando nosso presidente. Como eu era o primeiro vice-presidente, tive que assumir a Farsul e adaptar meu sistema de vida.

Como está sendo concluir este último ano do mandato?
O agronegócio não está em seus melhores momentos, podemos dizer assim. Temos uma crise forte com a lavoura orizícola. Tivemos várias reuniões para tentar equacionar essa questão e, com um trabalho forte da Farsul, conseguimos que o governo federal realizasse leilões de arroz. Temos outra crise intensa no leite, na área do trigo não é diferente, embora o pessoal ainda esteja em cima da lavoura de soja e o trigo fica mais para a frente. A soja é o que ainda está razoavelmente bem.

E o Funrural?
É outro ponto de preocupação. Pessoal passou a ter uma dívida monstruosa determinada pelo STF referente a um período que não houve recolhimento. Também, o fim da contribuição sindical compulsória nos preocupa. Estamos em busca de alternativas para garantir a sobrevivência dos sindicatos. Segundo nosso ponto de vista, a reforma trabalhista feita ano passado foi muito boa para o Brasil, mas ela terminou com a contribuição sindical obrigatória. Esse ponto foi apoiado por nós também, porque não é possível que um País tenha 17 mil sindicatos. É demais. Evidentemente, sabíamos que teríamos que arcar com duras consequências. Temos um sistema patronal que visa sempre a produção, com assistência aos nossos produtores rurais. É um sistema sindical livre. Não estamos atrelados a nenhuma ideologia, a não ser a da produção, do trabalho. Por isso que a eliminação da contribuição compulsória iria respingar em nosso caixa. Isso aconteceu e estamos redirecionando a casa porque achamos que devemos ter um sindicalismo que chegue lá no produtor rural e tente diminuir os problemas que atingem a propriedade rural como um todo.

Isso passa por uma conscientização sobre a importância da Farsul para o produtor
Evidente, já que não temos ideia de como é trabalhar sem um sistema sindical nos últimas 60 e poucos anos, o tempo do sindicalismo brasileiro. No caso dos sindicatos rurais e da federação, estamos seguidamente interferindo nas questões que atingem o produtor rural. A própria reforma agrária como foi feita no Brasil. Aqui no Rio Grande do Sul, hoje, os seus impactos já desapareceram. Ainda há alguns assentamentos remanescentes que não mostraram a que vieram. Outro exemplo forte de atuação da Farsul foi a liberação da transgenia. Foi um debate intenso na época, com vários setores da sociedade rejeitando a transgenia, e fizemos um trabalho forte em cima disso. Existia, também, um endividamento muito grande no setor rural, para o Brasil produzir uma safra de 80 milhões de grãos. Esse endividamento foi saneado, diga-se de passagem, por um trabalho muito eficiente do ex-presidente Sperotto. Aquele Brasil, hoje, produz 240 milhões de toneladas. Tivemos uma atuação importante também na elaboração do Código Florestal Brasileiro. O próprio Cadastro Ambiental Rural (CAR), praticamente concluído, foi realizado com nosso apoio.

No Rio Grande do Sul, que pontos merecem atenção da Farsul?
Trabalhamos fortemente as questões ambientais porque chegamos a um ponto de engessamento no estado do Rio Grande do Sul devido às leis ambientais. Qualquer coisinha é suficiente para trancar uma obra, em todos os setores, também comércio e indústria. A federação tem ido atrás para minimizar o impacto e pedir a simplificação na liberação dos licenciamentos ambientais. É um trabalho junto aos órgãos reguladores, como a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, do próprio Ibama. São ações de impacto que, muitas vezes, passam desapercebido pelo produtor rural. Talvez tenhamos que vender melhor nossa imagem, e essa é um mea culpa que estou fazendo. Devemos melhorar a comunicação com a nossa base, com os produtores.

Um dos setores em dificuldade hoje, assim como o arroz, é o leite, que vive uma crise, devido a questões como preço e falta de um sucessor na propriedade. Como minimizá-la?
A atividade rural como um todo é muito trabalhosa. Talvez o leite seja mais, porque ele não tem feriado, e, faça chuva ou faça sol, tem que trabalhar. Nas outras atividades também, mas elas te dão a oportunidade de planejar melhor. Ainda assim, em épocas de colheita dos grãos, o produtor não descansa. No caso do leite, percebemos que a média e a grande propriedade estão trazendo o jovem de volta para o campo. Isso não ocorre, com a mesma intensidade, na pequena propriedade pelas dificuldades inerentes à escala de produção. No mundo capitalista, tudo tem que ter escala. Cada vez temos que produzir mais e vender por um preço mais baixo para sermos competitivos em qualquer lugar do mundo. O sucesso da China é esse: vender quantidade e qualidade a preço baixo. O Brasil tem que ser a China do agronegócio.

Mas o Brasil já é um grande player do mercado agrícola internacional. O que falta?
Sim, mas temos que ser mais. Quais os nossos problemas hoje? Esbarramos em problemas fora da porteira. Temos a burocracia estatal, como já citei aqui os licenciamentos ambientais, e a falta de infraestrutura. Isso reduz nossa competitividade – são aquelas questões que chamamos de custo-Brasil. Às vezes estamos bem localizados, próximo a um porto, mas falta a estrada, ainda de chão. E, hoje, o transporte é feito em grandes caminhões, como carretas. Então, se esbarra nessas questões de infraestrutura que são questões de Estado mas, no Brasil, o Estado virou o fim, não é mais o meio. Tanto município, Estado e federação. Vivemos uma situação dramática.

Para mudar isto precisaria uma reforma maior, institucional ou política?
Possivelmente sim. O Brasil necessita de muitas reformas, como política, de previdência. E também precisamos rever o conceito de estabilidade do funcionário público. Isso em todos os poderes. O País está morrendo assim. Na empresa privada, se ela vai mal, demite para sobreviver e, hoje, precisamos é de empreendedorismo para resolver questões sociais. O social se faz pela produção, pela eficiência. Todos os países desenvolvidos do mundo caminharam pela via capitalista, do empreendedorismo, da criação de emprego. Aí está o fator social. Quando você tem um Estado engessado, ele precisa melhorar sua gestão mas não consegue reduzir o quadro funcional. Ele vai morrendo. Há municípios nessa situação. Veja o Rio Grande do Sul. Está parcelando folha de pagamento. Não conseguimos diminuir o tamanho do Estado. Passamos nós, empreendedores rurais, comerciais, industriais, a trabalhar para sustentar um Estado paquidérmico. Esta é uma reforma que precisa ser feita, mas ninguém fala. Seria a principal reforma, na minha ótica, mais importante até que a da previdência. Não conseguimos, nós brasileiros, carregar um Estado do tamanho que está.

E há muitos privilégios a combater…
Pelo fato de vivermos em uma democracia, vocês da imprensa estão tendo a liberdade de descobrirem essas coisas e publicarem. Novamente digo: nós não estamos suportando mais, e voltamos à pequena propriedade, às dificuldades do produtor de leite. Daqui a pouco, o filho dele, que poderia ser empreendedor, tem mais atrativos no serviço público que na iniciativa privada, porque o setor privado não consegue acompanhar o que paga o Estado. É desvio de função essa situação. Então, somando tudo: falta de escala da pequena propriedade, a burocracia, menos competitividade…ela atrai menos as pessoas.

Gedeão Silveira Pereira

Apesar disso, o agronegócio gaúcho evoluiu muito.
Sem dúvida. O agronegócio brasileiro, não só o gaúcho, é referência, mas o Rio Grande do Sul é a origem de tudo no agronegócio nacional. A agricultura brasileira explodiu, nos últimos 30 anos, com muita influência do povo gaúcho. Teve gente que atravessou o País, foi parar lá em Roraima, levando nossa agricultura para todos os lados. É inegável esse sucesso do agronegócio e a balança comercial brasileira demonstra isso. Ano passado, o superávit apenas do agronegócio foi de US$ 82 bilhões. O Brasil, cada vez mais, depende do mercado internacional, por isso precisamos ser a China do agronegócio, mais competitivos.

Neste caso, a soja é o grande destaque. O Brasil pode vir a ser o maior produtor mundial, passando os Estados Unidos? Depende de mais produtividade?
Olha, precisamos de duas coisas. Não adianta ter excesso de produção se não conseguir vender. Está aí o caso do arroz. Temos um estoque de passagem de 1 milhão de toneladas e ainda temos que competir com o arroz do Mercosul. Há disparidades muito fortes no Mercosul, isso vale também para o trigo e para o leite. São problemas que, com o custo-Brasil, tornam o arroz nacional menos competitivo que o paraguaio. Não é muita coisa que eles produzem, cerca de 800 mil toneladas, mas é suficiente para mexer com o mercado. Entra muita coisa para abastecer parte do Centro-Oeste, São Paulo e Minas Gerais. E tem mais as 8 milhões de toneladas de arroz desta safra. Como resolver isso? Abrir mercados. E tem sido assim em tudo, na carne bovina, no frango. Vendemos para 170 países. Não há falta de nada neste País, o agronegócio supre as gôndolas dos supermercados e ainda tem excedentes para exportar. O mercado do futuro, para nós, é a Ásia, sem dúvida.

Os custos de produção são uma barreira para expandir mercados
Claro, veja o Mercosul. Tudo isso são tratados de comércio, um país sério faz isso. Mas tem que ter equilíbrio. Não que não possamos importar, mas temos que ter liberdade também no sentido de que os insumos vendidos na Argentina, no Uruguai e no Paraguai sejam os mesmos que o produtor brasileiro compra. Descobrimos, recentemente, que um produto químico feito no Brasil e vendido no Uruguai custa, lá, 400% menos do que para o produtor brasileiro. São brigas que temos que fazer no Mercosul. Comércio internacional é uma via de mão dupla. Se o Brasil compra arroz do Paraguai e leite do Uruguai, isso faz parte do jogo, porque a indústria vende para eles automóveis e geladeiras. Mas, pedimos igualdade nos custos de produção. Aqui, agora, os combustíveis não param de subir, fora a energia elétrica. Cada vez temos mais irrigação na agricultura, então precisamos de energia. Isso sem contar a comunicação. Meu caso pessoal, lá em Bagé, na minha propriedade próxima ao Uruguai. Eu tenho sinal de internet muito bom, mas levado por nós.

Falando em interior do Estado, a Farsul iniciou recentemente visitas a municípios. Qual o propósito?
Estivemos recentemente em São Sepé buscando uma interiorização da federação. Vamos intensificar essa agenda junto aos sindicatos rurais porque queremos mostrar aos produtores o nosso pensamento para a Farsul sem o presidente Sperotto. Vai comigo toda a diretoria, também a Casa Rural e o Senar, isso aqui é um sistema.

Brasil e Rio Grande do Sul terão safras menores. Qual a expectativa para o agronegócio gaúcho neste ano?
Nossa previsão é de diminuição de 2% a 3% na safra deste ano porque viemos de uma base muito elevada em 2017 – foi um ano perfeito, inclusive com chuvas regulares, o clima ajudou. Neste início de ano, há focos de estiagem em vários pontos do Rio Grande do Sul. Todo o verão, de modo geral, foi seco. Sempre existiu seca no Estado, é cíclico. Devemos é nos preparar. Por isso precisamos investir em irrigação. Quanto à safra, passamos de 36 milhões de toneladas ano passado, então, se cair um pouco, ainda será uma grande produção. Viemos aí de quatro anos de resultados crescentes.

O senhor será candidato na eleição deste ano à presidência da Farsul?
Não, ainda não sabemos. Nossa diretoria está preocupada com a administração da casa e em atender à expectativa do “novo”. Estamos vivendo dois momentos, eu diria. De um lado, a orfandade, porque perdemos um grande líder, que ficou 20 anos na condução da Farsul lutando pelo agronegócio; de outro lado, temos a novidade, que sou eu na presidência. Estamos gerenciando esta equação no momento, cuidando da administração da Farsul. A eleição é em outubro – até lá, com certeza, algum candidato desta casa será anunciado, mas não é a nossa preocupação no momento.

Entrevista: Cristiano Vieira
Fotos: Jefferson Bernardes/Agência Preview